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O fim de um idílio modernista

por Willian Vieira — publicado 05/12/2012 15h04, última modificação 05/12/2012 15h35
Em ruínas, remendada e bem longe de virar um centro de cultura: eis a casa de Flávio de Carvalho
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Paradoxo. Erguida para ser um polo de vivências artísticas, a casa serve hoje de escola improvisada para crianças excepcionais. Foto: Isadora Pamplona

Em 4 de setembro de 1949, a caligrafia de Murilo Mendes deitava sobre o “livro dos comensais” da Fazenda Capuava uma dedicatória esperançosa. “A casa de Flávio de Carvalho foi construí­da sob o signo da razão e da imaginação. Creio que agradaria ao mesmo tempo Descartes e Lautréamont.” E ia além: “Nem tudo está perdido no Brasil”. O poeta só não supôs que a memória pudesse ser corroída pela falta de razão e imaginação dos herdeiros. É assim que o trapézio de concreto desponta no horizonte de Valinhos – como um monumento ao paradoxo. Erguida nos anos 1930 por um dos artistas mais polêmicos do País, e um dos únicos edifícios por ele construídos, a casa de Flávio de Carvalho está à beira da ruína. Mas são as reformas feitas pela família o retrato maior do paradoxo. Onde antes o artista pintava nus de belas mulheres, tinha ideias mirabolantes e recebia para jantares em sua mesa de cristal a nata da elite intelectual, hoje estudam 74 crianças excepcionais. Largada ao acaso, a casa sofre com o inocente avanço infantil e o efeito indelével do tempo. O que explica a decepção dos alunos da Unicamp naquela ensolarada quarta-feira.

 

 

Pesquisador da obra de Carvalho, Marcelo Moreschi decidiu trazê-los para saciar a curiosidade sobre o “gênio disperso”, que não se encaixava em movimentos ou regras morais. Carvalho, ensinou, retratou a mãe no leito de morte, protagonizou provocações artísticas como a Experiência Número 2 (quando cruzou uma procissão de boné entre flertes com as beatas) e teve um ­affaire com a filha, quando a iniciava na arte dos nus. A casa seria o corolário desse percurso heteróclito. Daí a aluna perguntar se as crianças têm ideia do espaço que ocupam. “Mais ou menos. Elas nem sabem se é dia ou noite”, diz Maria Evanede Rodrigues, a Nedi, coordenadora da ­Acesa, Associação criada em um imóvel ao lado para tratar crianças excepcionais – seu símbolo é um trapézio. “Mas a família mostra as obras. Um dia mostraram até os desenhos horríveis que ele fez da mãe morrendo.” À uma pergunta sobre o restauro da casa, Nedi responde com um suspiro: “Ninguém tem coragem de encarar um negócio desses”.

Desde a morte de Carvalho, em 1973, a casa padece. O tombamento saiu em 1982, mas o destino óbvio para um local de tal envergadura simbólica (um centro cultural) nunca veio. A família se diz proibida pelo Condephaat de reformar o imóvel; o órgão,  que a tarefa é da família. “Eu pedi a cessão em comodato”, diz Antonio Stopiglia, secretário de Cultura de Valinhos de 1983 a 1988. “Queria instalar um museu e um memorial. Mas a família não quis.” Pena, diz.  “Valinhos entraria para o roteiro nacional da cultura.” Em 2004, a herdeira decidiu encampar uma reforma, não para abri-la ao público, mas para receber as crianças. Mas morreu em 2006, quando sua nora tomou as rédeas do pleito. “A Mariana pegou um dos meninos e foi até o Condephaat”, diz Nedi. Desde então, a casa é usada pela Acesa, que decide o seu destino.

Carvalho não é exatamente um modernista. Seu pioneirismo reside na busca (artística, urbanística, psicológica) que resultou na combinação entre futurismo e culturas ancestrais que influencia tudo o que pintou, ergueu ou escreveu. A casa é a condensação disso, erguida para abarcar tanto a vida social quanto a reclusão de uma mente inquieta – o que se reflete na disposição do espaço: o salão tem pé-direito de 6,8 metros, integrado às áreas externas, enquanto os outros cômodos, menores, são separados da área social. Hoje, porém, tudo virou uma grande ruína amalgamada.

Ao guiar o grupo, Nedi elenca as mudanças executadas sobre a construção original. No salão, a parede recebeu outra madeira. “Um funcionário nosso colocou do jeito que deu.” A cozinha, onde se preparavam banquetes orgiásticos, virou depósito. As banheiras, onde Carvalho se deleitava com quem o visitasse, passaram a ser usadas pelas crianças. O banheiro não tem fechadura, vaso, chuveiro. “Os drogados roubaram tudo.” Na sala ancestral, sacos e móveis carcomidos esmagam a lareira. “O taco a gente tirou porque atrapalhava os cadeirantes.” E lá se esvai o projeto carvalhiano, dilapidado pelo desgaste crônico e pelas boas intenções da associação.

Todos os anos a Acesa realiza uma festa junina para arrecadar fundos, para 1,5 mil convidados. “Aí a casa fica aberta e entra quem quer.” Mas só assim. A semana em homenagem ao artista, promovida pela prefeitura, foi proibida “por causa das crianças”. Márcio Farci, atual secretário de Cultura, diz que fez várias propostas à família, inclusive via leis de incentivo. A família não aceitou. No site da prefeitura, curiosamente, lá está a “Casa Modernista”.

Quem é o responsável pelo descaso com algo tão importante? A Secretaria ­Estadual de Cultura limita-se a dizer que o órgão “não foi procurado pelos proprietários” e que nenhum projeto de restauro tramita no Condephaat”, mas não fala sobre a última inspeção feita. Os herdeiros silenciam – presságio de que a ruína parece ser o destino final da casa. “Pois a questão não é financeira”, diz Farsi. “A família dizia que tinha vergonha das experiências dele, das orgias feitas na casa. A verdade é que eles querem apagar a memória do Flávio.”

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