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O "feliz dia dos pais" para o ministro Ricardo Barros

por Joanna Burigo publicado 12/08/2016 14h41, última modificação 12/08/2016 14h56
Às vésperas do Dia dos Pais, o ministro da Saúde fez uma afirmação machista baseada não em dados, mas em sua opinião
Elza Fiúza/Agência Brasil/Fotos Públicas
O ministro interino da Saúde, Ricardo Barros

Apontar machismo é bem diferente de odiar os homens. Um caso recente, envolvendo um pai, o ministro interino da Saúde, Ricardo Barros, e sua filha, Maria Victoria, ajuda a elucidar esta diferença

O desconhecimento sobre o feminismo produz um sem fim de mitos sobre a feminista. Um deles é o ódio aos homens. Não tenho dúvidas de que algumas feministas odeiam homens, assim como não tenho dúvidas de que algumas pessoas odeiam outras. Mas a ênfase aqui é no “algumas”: o ódio é um sentimento humano, e como tal é passível de ser encontrado em qualquer grupo ou movimento social.

Há muito que dizer sobre o ódio, desde o que o produz, passando pelos contextos que o fomentam, até o seu poder transformador – que pode ser positivo se direcionado à desconstrução de estruturas sociais de opressão.

Mas este texto não é sobre ódio, e se o menciono é apenas para dissipar o mito do ódio feminista aos homens, que frequentemente serve de justificativa para que muitos se fechem para o nosso discurso.

A iniquidade de gênero – e não o ódio aos homens – é a premissa da qual partem as feministas. Não é necessário aderir à causa para constatar que existe desigualdade social entre homens e mulheres, no entanto – muito embora seja esta constatação o que leva muita gente a se declarar feminista.

Então partindo do pressuposto que existe desigualdade (existe), e que essa desigualdade pesa mais negativamente sobre as mulheres do que sobre os homens (ela pesa), não é surpreendente que os comportamentos, atitudes e falas machistas dos homens sejam alvo frequente de nossas denúncias.

Por isso é até compreensível que o feminismo seja confundido com o ódio aos homens. Mas é preciso elucidar: apontar machismo é bem diferente de odiar os homens. 

Um caso recente, envolvendo um pai e uma filha (que até onde sei sequer se declara feminista, por sinal), ajuda a elucidar esta diferença. Falo da resposta pública que a deputada estadual Maria Victoria Borghetti Barros (PP-PR) deu, através de um vídeo publicado em seu perfil de Facebook, para a declaração do próprio pai, o ministro da Saúde Ricardo Barros. 

O ministro, ao lançar o programa Pré-Natal do Parceiro – projeto bonito e importante que visa incentivar homens a fazerem exames de prevenção ao acompanharem suas mulheres nos postos de atendimento durante a gravidez – fez uma afirmação fundamentada não em dados, mas em sua opinião.

E sua opinião – além de ser, sabe, só uma opinião – é machista. E é machista não por ser somente uma opinião, nem somente por ser uma opinião mal informada. É machista por ser uma opinião pautada numa inverdade cuja única decorrência é corroborar com a manutenção da ideia falsa de que mulheres trabalham menos que homens.

O professor Leandro Karnal, ao mencionar o assunto em suas redes, foi sarcástico: “o machismo não cede nem à lógica estatística”, disse. Isso porque Barros afirmou que homens, os “provedores dos lares brasileiros”, procuram menos atendimento de saúde porque “trabalham mais” e “possuem menos tempo” do que as mulheres.

Acontece, ministro, que não é para isso que apontam os institutos de pesquisa.De acordo com o IBGE, pelo menos 40% dos lares brasileiros são chefiados (leia: financiados) por mulheres, e dados divulgados em 2014 pelaPesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) mostram que a jornada semanal de trabalho delas (o que inclui a jornada de trabalho doméstico, que para as mulheres é de 20,6 horas semanais, mais que o dobro da observada para os homens, de 9,8) tem quase cinco horas a mais que a deles. Considerando essa dupla jornada, as mulheres trabalham em média 56,4 horas semanais, e os homens 51,6 horas.

Como se não bastasse, o trabalho doméstico tende a não ser remunerado – mas mesmo quando o trabalho é pago, mulheres podem ganhar até 25,6% a menos que homens pela mesma função. Isso quem diz não sou eu, nem as feministas – mas a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

A gente fala, não acreditam. Então a gente testa nossas hipóteses com pesquisas, dados, análises, estudos. Depois, instituições sérias divulgam estas informações de forma oficial. Segue a mídia, que parece estar compreendendo mais e mais o que é dito pelo feminismo. Daí.

Daí os homens no poder continuam preferindo sua própria opinião. E são as feministas que odeiam os homens? Apontar a realidade não é ódio, e a sociedade deveria agradecer que as mulheres querem somente equidade, e não vingança.

Voltando à resposta da filha deputada para o pai ministro, Maria Victoria também assinalou os dados. Mas sua resposta, sem ser meramente técnica, tampouco aparenta ódio. Ela apenas aponta, e delicadamente, o machismo de seu genitor:

“Pai, logo o senhor, com duas mulheres como nós em casa (...) e trabalhamos tanto quanto o senhor. (...) E não precisa de dados para mostrar o quanto as mulheres trabalham nesse Brasil inteiro. Depois de trabalhar fora de casa, ainda tem de trabalhar em casa, a famosa jornada dupla de trabalho. Não é isso mulherada?”

É, Maria Victória. É exatamente isso.

E já que estamos falando de pai e filha, vale lembrar que neste domingo comemora-se o dia dos pais. É garantido que, nesta efeméride, abundem críticas feministas.

Nas redes sociais, a campanha #ÉMeuPaiMas já acumula relatos de cortar o coração: histórias de descaso, abandono, falta de reconhecimento legal, não-pagamento de pensão, preconceito e violência doméstica, cujos protagonistas (por ausência) são... homens.

Fazer estes relatos não é a mesma coisa que ter ódio, ainda que alguns estejam cheios dele. Não é ódio nem aos homens nem aos pais o que emana destas denúncias. É apenas a realidade.

Ainda que não seja a realidade de todas, é a realidade de um número expressivo de mulheres e crianças, e compilar estas histórias – assim como compilar dados sobre as diferenças entre jornada de trabalho, ou salários – nos fornece dados significativos o suficiente para que se constituam análises sobre um padrão que é social, e não um problema individual.

Termino esse texto com uma confissão e homenagem, por saber que as duas coisas colaboram para a desconstrução do mito do ódio feminista aos homens.

Meu pai, além de ser um homem muito (mas muito) sabido e generoso, sempre esteve presente na minha vida e na do meu irmão, e sempre nos tratou com a maior dignidade e respeito.

Para ele, o fato de eu ser menina, ou mulher, significa muito pouco. Nunca fui “sua princesa”, e até hoje ele me chama de “minha águia”, pois me educou para voar.

Eu queria muito que todos os homens tratassem todas as mulheres como meu pai me trata. Mas não é esse o caso. Se assim fosse, não precisaríamos trabalhar pelo fim do machismo e misoginia. Se todos os patriarcas fossem com suas filhas o que o meu é comigo, não me interessaria desconstruir o patriarcado, pois ele seria o próprio feminismo.

Tive muita sorte, e desejo um feliz dia dos pais para aqueles cujas filhas também têm. Para a maioria dos pais, no entanto, meu desejo tampouco é por um dia infeliz, pois isso nada tem a ver com ódio. Só gostaria que passassem a ouvir, assimilar, compreender e respeitar o que dizem as mulheres.