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Artigo / Emiliano José

O encontro das três Marias

por Emiliano José — publicado 11/11/2013 16h31
Não creio tenha o medo sumido assim por encanto. Ditadura deixa marcas profundas. Mas, sei que ela andará mais leve pelo mundo


(...) O passado leva consigo um índice secreto pelo

qual ele é remetido à redenção. Não nos afaga, pois.

levemente um sopro de ar que envolveu os que nos

precederam? Não ressoa nas vozes a que damos ouvido

um eco das que estão, agora, caladas? E as mulheres

que cortejamos não tem irmãs que jamais conheceram?

Se assim é, um encontro secreto está então marcado entre

as gerações passadas e a nossa. Então fomos esperados

sobre a terra. Então, nos foi dada, assim como a cada

geração que nos precedeu, uma fraca força messiânica,

à qual o passado tem pretensão. Essa pretensão não

pode ser descartada sem custo. O materialista histórico

sabe disso. (LÖWY, Michael. Walter Benjamin : Aviso

de incêndio : uma leitura das teses “Sobre o conceito

de história”. – São Paulo : Boitempo, 2005, pág. 48.)

A luta revolucionária contra a ditadura nos levou a vestir armaduras sólidas, pretendendo fossem blindadas a quaisquer emoções, quaisquer sentimentalismos. Pretendíamos fossem assim, muitos de nós. Nos arrebentávamos por dentro, e seguíamos adiante, como não fôssemos demasiadamente humanos. Como não fôssemos frágeis. A guerra – e quem disse não vivíamos uma guerra? – nos obrigava a construir nossas armaduras. Décadas se passam às vezes até se revelarem frágeis. Até que possamos dizer: nada do que é humano me é estranho. Foi assim no dia 24 de outubro de 2013, em São Paulo, no auditório da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, quando da passagem da Caravana da Anistia, promovida pela Comissão Nacional de Anistia. As armaduras vieram ao chão, e nos permitimos sentir, sofrer novamente, chorar. Estava lá. Vi. E chorei junto. Eu que não sou dado a esses sentimentalismos, vejam só. Que acreditava em minhas antes sólidas armaduras.

Oldack de Miranda, um dos anistiados da Caravana da Anistia naquele dia, na fala iniciada com dificuldades, a garganta travada pela emoção, as lágrimas resistindo a sair, lembrou León Bloy com absoluta propriedade: sofrer passa, mas ter sofrido não passa jamais. As nossas armaduras desabam por isso: ter sofrido nunca passa. Nossa pretensão inconsciente de deixar o passado sepultado, esquecido para assim preservar intactas as nossas defesas revela-se vã. Podemos conviver com o fato de ter encarado o monstro, enfrentado a ditadura, ter sido levado ao pau-de-arara, ao choque elétrico, a torturas inomináveis, podemos levar adiante a vida tendo passado por tudo isso, mas o sofrimento experimentado não passa nunca. A aparente normalidade da existência, inclusive daquela envolvida ainda na luta política para mudar o mundo, às vezes nos faz esquecer isso.

A tarde de uma São Paulo quase quente, quase fria, passada na faculdade emoldurada pela profusão de cartazes a evidenciar disputa pelo diretório acadêmico, nos mostrou a força do passado, à Walter Benjamin, como elemento a iluminar o presente, força a não permitir o desconhecimento dos que ficaram ao longo do caminho e nem a ignorar a carga de sofrimentos enfrentada por cada um de nós. A Caravana julgou três processos nessa tarde: Maria José Malheiros, Oldack de Miranda e Aton Fon Filho, três revolucionários. Nesse dia, revelaram-se à Nação, e obtiveram não só a anistia como o pedido de perdão do Estado brasileiro. A contribuição deles à história de luta contra a ditadura está registrada definitivamente, gravada e filmada.

Zezé, como a chamo, completava já 42 anos de clandestinidade. Provavelmente – e digo provavelmente porque do caldeirão de horrores da ditadura sempre podem sair mais surpresas – ela era a última clandestina brasileira. Nasceu em Palmas de Monte Alto, no Oeste baiano, batizada Maria Neide de Araújo Moraes, a primeira Maria. Ainda menina foi para Goiânia. Aluna de Belas Artes, tornou-se chargista de jornal, militante do movimento estudantil recrutada pela Ação Popular Marxista-Leninista (AP), enfrentou a primeira prisão em 68. O AI-5, a demissão do jornal, a expulsão de Belas Artes, a segunda prisão, convencem-na a desaparecer de Goiânia. Em São Paulo é orientada pela AP a trabalhar em banco. Em novembro de 1971, Heládio de Campos Leme, seu companheiro, é preso. Torna-se então definitivamente uma clandestina.

Desembarca em Vitória da Conquista em junho de 1972 para se integrar ao trabalho no campo, sob a direção do dirigente camponês José Novais, também militante de AP. Passa a se chamar Maria José Novais, a segunda Maria, dada então como filha de Novais. Aqui, já militava no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Com a repressão à Guerrilha do Araguaia, a situação de segurança de agrava. Ela queria reencontrar Heládio, já em liberdade em São Paulo. O partido pensa diferente: por razões de segurança deve sair do País. Vai para São Paulo, entrega todos os documentos falsos ao partido, recebe os pontos onde devia receber os contatos para seguir para o Chile naquele agosto de 1973, à beira do golpe, como se sabe hoje. Heládio, contrariado como ela, resolve cobrir ele os pontos. Sai durante três dias simulando fazê-lo. Diz a Zezé: os pontos falharam, não apareceu ninguém. I want to go back to Bahia.

No caminho para a Bahia, ouvem a notícia sobre o golpe no Chile. Ela e Heládio respiram aliviados. Zezé não sabia de sua dupla condição de clandestina: da ditadura e do PCdoB. Na Bahia, torna-se Maria José Malheiros, a terceira Maria, 6 de setembro de 1973. Volta à vida legal com o nome falso, faz arquitetura na UFBA, milita no movimento estudantil e no Comitê Brasileiro pela Anistia, faz Mestrado, segue em 1982 para Paris onde casa novamente e faz doutorado. Desde 1991 é funcionária da Prefeitura de Paris. O medo nunca a abandonou. Sentia sempre o espectro da repressão. Confessou: o dia 24 de outubro foi o primeiro dia sem medo pelas ruas de São Paulo. Assumia então, por determinação do Ministério da Justiça, que atendia o seu pedido, o nome de Maria José Malheiros, a terceira Maria, que a acompanhava desde 1973. Sem medo.

Oldack iniciou militância em Minas Gerais, no movimento estudantil, e também na AP, intensificada em 1968, quando então, ao final do ano, já está iniciando seu processo de integração à produção. A AP se dispusera a enviar seus militantes de classe média, a maioria estudantes, para áreas operárias e camponesas, integrando-os à produção, proletarizando-os. Segue para a Mata do Jaíba, no norte de Minas, onde se integra ao trabalho camponês ao lado de sua companheira Solange e alguns poucos outros militantes de AP.

Uma ofensiva prende vários militantes de AP em Minas, inclusive Carlos e Loreta Valadares, companheiros da célula da Mata do Jaíba. Consegue escapar da repressão junto com sua companheira. Por orientação de AP, segue com Solange para o Vale do Pindaré-Mirim, no Maranhão, onde desenvolve trabalho camponês ao lado do lendário Manoel da Conceição. Volta à vida legal em Salvador, e sabe de sua condenação em Minas Gerais, à revelia, a seis meses de prisão. Cumpre a pena no presídio de Linhares.

E volta para Salvador. Em 1973, é preso novamente, junto com Gildo Macedo Lacerda. Ambos são levados para Recife. Gildo é assassinado e desaparecem com seu corpo. Nessa operação, matam, além de Gildo, Paulo Stuart Wright, Eduardo Collier Filho, Humberto Câmara Neto, Fernando Santa Cruz e Honestino Guimarães, todos militantes e dirigentes de AP. Oldack é violentamente torturado em Recife. Os torturadores diziam saber não haver mais nada a tirar dele. Era apenas uma vingança por não ter falado nada na prisão anterior.

Também ele foi anistiado no dia 24 de outubro, também ele ouviu pedido de desculpas em nome do Estado brasileiro pelo que lhe fizeram, feito pelo presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão. Sou amigo há muitos anos tanto de Oldack quanto de Zezé. E sei que o Estado brasileiro não está mais do que fazendo a sua obrigação ao lhes pedir desculpas. Não se desconheça, no entanto, os méritos dos governos brasileiros, desde Fernando Henrique Cardoso, ao compreender a necessidade de reparar os crimes cometidos pela ditadura.

Aton Fon Filho talvez seja o mais conhecido deles. E o que conheço menos. Embora tenha estado com ele algumas vezes, especialmente com vistas ao livro sobre Marighella, que escrevi no final dos anos 90. E também o ouvi, se me lembro bem, sobre o padre Renzo para escrever “As asas invisíveis do padre Renzo”.  Sei, porque assisti, no dia 24 de outubro, ao depoimento dele na tribuna, também envolto por lágrimas, que fora do PCB no início de sua militância. Depois, militante da Ação Libertadora Nacional ao lado de Carlos Marighella. Preso no dia 19 de dezembro de 1969, ganhou a liberdade apenas no dia 22 de novembro de 1979, quase três meses depois da decretação da anistia. Fora condenado a 82 anos.

Contei, no livro sobre Renzo: Aton Fon Filho contraiu tuberculose no presídio do Barro Branco em São Paulo, em 1976. Quiseram tirá-lo de lá para tratamento. Os demais prisioneiros não permitiram: correriam o risco de também contrair a doença, mas eles próprios cuidariam dele. E assim foi feito. Mais tarde, alguns, submetidos a exames, viram-se também com o bacilo de Koch, embora de forma suave e facilmente controlável. Saído da prisão, Aton Fon tornou-se um aplicado advogado, vinculado aos movimentos sociais do campo e da cidade. Como aos outros, a ele também o Estado brasileiro pediu perdão. E a ele também se concedeu anistia.

A fala de Zezé, ao se livrar de mais de 40 anos de clandestinidade, foi a mais emocionante. Acompanhara suas indecisões. Testemunhara seu medo, espectro a visitá-la o tempo inteiro. Insisti na importância de se revelar. Ao assumir a tribuna, chorava e apertava o estômago, contorcia-se em dores, e falou assim. Falou da vida em estado de permanente tensão. Sei de seu corpo marcado, enrijecido pelo medo. Sei de sua alma atormentada. Até ali ao menos. O medo quando ia dar o nome em qualquer lugar. Nunca se lembrava da data de nascimento. Nascera realmente em 1951. A terceira Maria era dada como nascida em 1953. Uma só Zezé cindida em três Marias, e curioso seja esse nome ancestral a acompanhá-la, Madona rediviva. Senti sua leveza depois do discurso acompanhado pelo choro. Não creio tenha o medo sumido assim por encanto. Ditadura deixa marcas profundas. Mas, sei que ela andará mais leve pelo mundo. Ela, Oldack, Aton. Que lutaram por um Brasil sem ditaduras. Vitoriosos.

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