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O dilema da especialização

por Redação Carta Capital — publicado 04/01/2012 08h56, última modificação 06/06/2015 18h20
É natural que uma única carta seja cada vez mais valorizada: o curinga, aquela que é capaz de assumir o papel das demais
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'O aluno deverá ser capaz de dialogar com o mundo da pesquisa, de onde virá a maior parte desses conhecimentos'. Foto: Wilson Dias/ABr

Helio Waldman*

 

 

Das varias tendências que marcaram o século XX, uma das mais importantes foi a extraordinária valorização do conhecimento especializado, frequentemente em detrimento da formação geral, mesmo nos ambientes universitários que deveriam preservá-la. Hoje, a aceleração das mudanças tecnológicas coloca em xeque essa tendência e nos obriga a problematizá-la.

O especialista já foi definido como alguém que sabe quase tudo sobre quase nada. Em oposição, um generalista seria alguém que soubesse quase nada sobre quase tudo. Ambas definições são claramente pejorativas e caricaturais, ainda que só atinjam esses efeitos por carregarem algum sabor de verdade. Nos dois casos, o conhecimento é associado a um formato de território no espaço cognitivo. Ou seja, é entendido como algo acabado e estático, “formado”. Mas essa noção perde aderência à realidade  quando o conhecimento ganha dinamismo, como ocorre hoje.

Tal como o baralho de cartas, o baralho das profissões também tinha apenas algumas dezenas de ocupações até o século XIX. Ao longo da primeira metade do século passado, elas se ramificaram em centenas de especialidades. No pós-guerra já eram milhares, e na virada do século dezenas de milhares. Neste ritmo, logo muitas economias terão  mais especialidades do que especialistas, inviabilizando de vez a noção territorial do conhecimento. Não é por outro motivo que as instituições acadêmicas, que antigamente procuravam adquirir a chamada "massa crítica" para a realização de projetos estruturantes, passaram a procurá-la através de redes nacionais, ou até de redes de redes, geralmente internacionais.

Num baralho cada vez maior, é natural que uma única carta seja cada vez mais valorizada: o curinga, aquela que é capaz de assumir o papel  das demais. O verdadeiro profissional do futuro será aquele que melhor se igualar ao curinga. Mas como preparar os jovens de hoje para serem curingas no mundo das profissões e especialidades? A resposta ainda não é clara, mas já se faz necessária. A primeira providência é simplesmente parar de estimular os jovens a abraçarem precocemente uma carreira especializada. Muitos jovens preferem, como cantava Raul Seixas, “ser uma metamorfose ambulante”. Eles estão certos. Ao invés de dissuadi-los, devemos prepará-los para conduzir suas metamorfoses com competência.

 

Para fazer isso, o sistema de ensino superior deve ser repensado. Não é por outro motivo que muitos países estão revendo e flexibilizando suas estruturas curriculares. No Brasil, bacharelados interdisciplinares estão sendo criados em várias Universidades Federais, seguindo o exemplo pioneiro da UFABC. Nesses cursos, o aluno adquire uma base sólida de conhecimentos numa área ampla (p.ex. Ciência e Tecnologia, Artes, Humanidades, etc.). Essa base funcionará depois como uma espécie de meta-conhecimento, a partir do qual o profissional-curinga gerará ou assimilará os conhecimentos específicos que deverá utilizar no futuro. Além disso, o aluno deverá ser capaz de dialogar com o mundo da pesquisa, de onde virá a maior parte desses conhecimentos; e participar de equipes e empreendimentos interdisciplinares, voltados para a solução de problemas complexos e a problematização de soluções. Não é uma saída fácil, mas existe outra?

 

*Helio Waldman é reitor da Universidade Federal do ABC

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