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O clímax diplomático de Dilma

por André Barrocal publicado 20/07/2014 12h04
Ao se reunir com Brics, Unasul, Celac e fechar acordos bilaterais com China, Rússia e Índia, presidenta teve a mais importante semana de sua política externa
NELSON ALMEIDA / AFP

A política externa brasileira com Dilma Rousseff é a mesma da gestão Lula, mas a discrição pessoal da presidenta e sua diplomacia contrastam tanto com a desenvoltura internacional do ex-presidente e seu chanceler, Celso Amorim, que muitos já se perguntaram – inclusive em nações e embaixadas amigas - se haveria de fato uma continuidade entre os dois governos. Por este motivo, a maratona diplomática de Dilma nos últimos dias teve um significado especial. Pelo peso e simbolismo dos compromissos, a agenda presidencial realçou o protagonismo e as inequívocas prioridades do País. Multilateralismo e integração regional estiveram o tempo todo em evidência. Foi, provavelmente, a semana mais importante da política externa de todo o mandato de Dilma.

Mais de uma dezena de chefes de Estado estiveram no Maracanã para a final da Copa no domingo 13. No dia seguinte, Vladimir Putin, o presidente russo disposto a resgatar o prestígio geopolítico de seu país, subiu a rampa do Palácio do Planalto para uma visita oficial. Na quinta-feira 17, foi a vez de Xi Jinping, presidente da China, a segunda maior potência econômica da atualidade e a caminho de tomar dos EUA o posto de número um. Na véspera, Dilma tomou café da manhã no Palácio da Alvorada com Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, país na lista das dez maiores nações em PIB, tamanho e população.

Com os três visitantes, Dilma selou acordos de valor tanto político quanto econômico. O Brasil vai desenvolver aqui, com tecnologia russa, um sistema de navegação por satélite e uma fábrica de manutenção de helicópteros, além de usar equipamentos da Rússia para rastrear aviões pequenos que sobrevoam a costa. Acertou investimentos chineses em áreas diversas como petróleo, energia elétrica e até na construção de uma ferrovia ligando o Brasil ao oceano Pacífico. Firmou com a Índia uma parceria para pesquisas em meio ambiente e a ampliação da cooperação já existente no uso de satélites indianos.

Para um assessor de Dilma, os acordos foram importantes não só como sinal de continuidade da política externa em relação à da gestão Lula, mas também por mostrarem que a presidenta e sua diplomacia produzem seus próprios resultados. Os investimentos chineses em ferrovia, por exemplo, foram discutidos pela primeira vez entre Dilma e Jinping no ano passado em São Petesburgo, na Rússia, durante uma reunião do G20, o grupo das vinte economias mais poderosas do planeta.

A concentração de encontros bilaterais de tal estofo na agenda de Dilma foi possível graças à histórica VI Cúpula dos Brics em Fortaleza na terça-feira 15. O bloco que começara como um acrônimo bem bolado em 2001 tornou-se definitivamente real, e em alto estilo. Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul anunciaram a criação de um “BNDES” dos Brics, ideia surgida em 2012, e de um “FMI dos Brics”.

As duas iniciativas têm tudo para chacoalhar a ordem financeira internacional nascida depois da II Guerra Mundial, sustentada no “euroamericanocentrismo” econômico. Primeiro as nações dos Brics e, no futuro, países emergentes em geral passam a ter alternativas para tomar empréstimos mais baratos quando quiserem investir em infra-estrutura ou precisarem atravessar crise financeira.

Por uma sugestão brasileira, os líderes dos Brics aproveitaram a oportunidade para, na quarta-feira 16, participarem de uma inédita reunião com os chefes de Estado dos doze membros da União Sul-Americana de Nações (Unasul). O convite do Brasil aos vizinhos foi enviado com cerca de 40 dias de antecedência, prazo considerado nos protocolos diplomáticos como não muito folgado para se organizar um evento desta dimensão. A participação de 100% dos convidados foi um sinal da atual capacidade de liderança do Brasil no continente, segundo diplomatas brasileiros.

Os mandatários da região foram unânimes em saudar o desfecho da VI Cúpula dos Brics em entrevistas depois do encontro no Palácio do Itamaraty. Nicolás Maduro, da Venezuela, disse que a criação do banco e do fundo era uma “grande notícia”, a refletir uma “nova geopolítica mundial”. Segundo José Pepe Mujica, do Uruguai, quanto mais opções de apoio financeiro, melhor para os países emergentes. Para Evo Morales, da Bolívia, “o mundo necessitava de uma nova organização para acabar com organismos como o FMI e o Banco Mundial”, responsáveis por “chantajear governos”.

Uma das mais entusiasmadas era Cristina Kirchner, da Argentina. E não é difícil entender por quê. A Casa Rosada vive uma situação a ilustrar como um país em desenvolvimento pode sofrer com os interesses do capital financeiro professados por organismos como o FMI e o Banco Mundial.

No mês passado, a justiça dos Estados Unidos tomou uma decisão final contra a Argentina em um processo movido por dois “fundos abutres”. Detentores de títulos públicos argentinos comprados abaixo do valor de face, NML e Aurelius rejeitaram a renegociação da dívida feita pelo país após uma moratória de 2001. A repactuação baixou a conta em 70% e teve a adesão de 93% dos credores. Os dois fundos “abutres” conseguiram uma decisão favorável no valor de 1,3 bilhão de dólares. Se levarem o dinheiro, vão inspirar outros credores. Teme-se na Argentina um papagaio de até 15 bilhões de dólares, mais da metade das atuais reservas cambiais do país.

Cristina tocou no assunto várias vezes em sua passagem por Brasília, sempre classificando de “pilhagem” a ação dos fundos abutres. Perante 15 outros chefes de Estado na reunião no Itamaraty, disse que a Argentina reconhecia mais do que ninguém o valor do que foi criado pelos Brics (o banco e o fundo), pois “está sofrendo um fortíssimo ataque especulativo dos fundos abutres”. Ela contou com a camaradagem brasileira para que seu caso tivesse visibilidade na reunião. Os líderes falaram por ordem alfabética conforme o nome de seus países. Com isso, a presidente da Argentina foi a primeira a se manifestar, o que abriu espaço para que as declarações seguintes contivessem comentários e palavras de solidariedade ao país.

Por iniciativa de Brasil e Uruguai, a crise já tinha sido discutida na Organização dos Estados Americanos, que no no início de julho aprovou uma moção pró-Argentina e contra os fundos abutres. A América Latina em peso apoiou a moção. Canadá e EUA se omitiram. Agora, no encontro Brics-Unasul, ficou acertado que o caso será levado em novembro à reunião de cúpula do G20. Tanto a Argentina quanto os Brics fazem parte do G20.

No encontro com os mandatários sul-americanos, Dilma fez duas reuniões bilaterais de última hora para debater outros dois problemas localizados da região. Com o colombiano Juan Manuel Santos discutiu as negociações de paz em curso com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e a iminente abertura de negociação semelhante com o Exército de Libertação Nacional de Libertação (ELN), a segunda maior guerrilha do país. O Brasil colabora discretamente e sigilosamente nas conversas com as FARC e deve dar alguma contribuição no processo com o ELN.

Com Maduro, Dilma conversou sobre as negociações intermediadas pela Unasul para estabilizar a Venezuela, palco de protestos e mortes no início do ano em confrontos de setores radicais da oposição direitista e chavismo. Dilma aconselhou Maduro a aproveitar que a oposição está esfacelada para se concentrar em melhorar o governo, especialmente do ponto de vista econômico.

Um dia depois da inédita reunião Brics-Unasul e em meio à visita de Estado do presidente chinês, Brasília também foi palco de um encontro entre Dilma, Xi Jinping e dos presidentes de Chile, Cuba, Costa Rica e Antígua, componentes da atual cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). A reunião foi uma solicitação do governo Jinping ao Brasil. A China quer aumentar sua presença econômica na América Latina mas tomando a precaução de não parecer que está “invadindo” a região, como foi acusada na África. E para isso, nada como ter o Brasil ao lado referendando suas boas intenções. Ao final da reunião na quinta-feira 17, a China propôs criar um fundo de 20 bilhões de dólares para investimentos em obras de infra-estrutura na América Latina.

Toda esta maratona diplomática de Dilma na semana passada aconteceu um mês depois de o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, ter vindo ao Brasil tentar “descongelar” a relação da Casa Branca com o Palácio do Planalto. A revelação em 2013 de que a brasileira foi espionada pela agência de bisbilhotagem norte-americana, a NSA, matou a boa-vontade que Dilma demonstraram para com Barack Obama desde que assumira em 2011. Quanto mais o Brasil estreita laços com China, Rússia, Índia e América do Sul, mais distante fica dos EUA, não importa qual seja a temperatura da relação.