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O caminho do boi

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 11/09/2009 15h30, última modificação 21/09/2010 15h31
Em todos os bairros da zona sul carioca há zonas perigosas para se morar. Não por causa das favelas que se espraiam pelo relevo da cidade, mas pelo tráfico engendrado nas vielas, matas e desvãos dos morros, ontem fonte de inspiração poética. Na zona norte, como Tijuca e Grajaú, também é assim.

Em todos os bairros da zona sul carioca há zonas perigosas para se morar. Não por causa das favelas que se espraiam pelo relevo da cidade, mas pelo tráfico engendrado nas vielas, matas e desvãos dos morros, ontem fonte de inspiração poética. Na zona norte, como Tijuca e Grajaú, também é assim.

Anúncios classificados tentam enfatizar que o imóvel não dá vista para a “comunidade”. Estas poucas moradias naturalmente blindadas e longe do front já se contam nos dedos. Não se vê a olho nu, mas os prédios dos dois lados da avenida Copacabana, entre as ruas Djalma Ulrich e Sá Ferreira, estão de frente e de costas para o Pavão-Pavãozinho, uma das zonas mais turbulentas da cidade. Atrás de uma persiana fechada de seu consultório, o nosso dentista espreita o favelão, bem na reta da sua boca aberta.

A área mais recentemente conflagrada é a vizinhança da Ladeira dos Tabajaras, cujo acesso de carro se dá pela rua Siqueira Campos. No topo, a Ladeira une-se ao Morro dos Cabritos, e agora se expande para o Morro São João, sobre o cemitério São João Batista (que virou uma espécie de “servidão”, pois, andando entre os túmulos, a moçada corta caminho para casa). Nessa marcha, acabará chegando ao estacionamento do RioSul.

Poucas décadas atrás, vista do asfalto, a Tabajaras era uma ladeira do bem, com anchos apartamentos no sopé, que se diluíam em casas e barracos humildes no alto. Sem problemas morar num apê de cara para o morro e amanhecer com o bulício típico de uma cidade do interior: galos e cocoricós, criançada brincando, mulheres batendo a roupa. Mesmo que bandidos e playboys já andassem fazendo das suas lá em cima, aqui de baixo não sabíamos, porque a marginalidade ainda não extrapolava.

Aos poucos, a Tabajaras também foi dominada. Quem viveu os anos 70 no simpático quadrilátero formado pelo hoje combalido bairro Peixoto e ruas Santa Clara, Siqueira Campos, Henrique Oswald e Tonelero se lembra da Ladeira como uma geo-grafia afetiva. Nada a ver com o lugar que expulsou a vovó Vitória, que, em 2005, filmou o comércio de drogas. A heroína que só queria sua ladeira de volta foi banida de casa e acabou no Programa de Proteção à Testemunha. Vale testemunhar?

Na Tabajaras, antes dos pagodões e bailes funk, ressoavam tamborins e cuícas do bloco carnavalesco Unidos de Vila Rica, fundado em 1966 por nomes como Helio Pé, Galego, Pauzinho, Queixinho e Tapioca. Ingênuos demais para codinomes de bandidos. Ou ingênuos éramos nós? Em 1990, o bloco virou uma Escola de Samba que dali a cinco anos já desfilava no Grupo Especial.

O frequentador mais famoso da Ladeira foi dom Pedro II, que em meados do século XIX transitava na vereda conhecida como Caminho do Boi, encurtando a viagem entre o Jardim Botânico e a praia de Copacabana. Em 1855, já era uma estrada de meia-- rodagem e chamou-se Ladeira do Barroso, em homenagem ao engenheiro da obra. O nome Tabajaras veio depois, em tributo à tribo que habitou aquelas colinas.

O imperador, o índio tabajara, o engenheiro, a vó e o morador que amava os Beatles e os festivais de MPB e que antes escancarava a janela de seu apartamento para a vida do morro não imaginaram um futuro como esse para o bucólico Caminho do Boi. A lavadeira que lhe dava adeus também não.

Aqui, Faixa de Gaza

O estreito território, palco de disputa e guerra constante entre israelenses e palestinos, virou jargão na fala carioca e nos depoimentos de moradores de áreas de arrastões e guerra urbana. É comum dizer agora que determinado lugar é uma “Faixa de Gaza”. Que diferença faz não saber que Gaza fica no Oriente Médio, se “Faixa de Gaza” são as ruas e as vias expressas no Rio de Janeiro?