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O Brasil e a Copa de 2014

por Coluna do Leitor — publicado 23/11/2010 09h36, última modificação 23/11/2010 09h36
Nosso leitor, René Ruschel escreve sobre as expectativas do mundial no Brasil. Além do futebol em campo País deverá se preocupar com gastos e questões ligadas a infraestrutura

Além do futebol em campo País deverá se preocupar com gastos e questões ligadas a infraestrutura

Por René Ruschel*

A Copa do Mundo de 2014 certamente será um tema obrigatório no cotidiano dos brasileiros nos próximos quatro anos. Só que desta vez o interesse não deve estar centrado apenas no trabalho da Comissão Técnica da CBF ou na relação dos jogadores convocados. Além do futebol, o que estará em jogo é um projeto que envolve bilhões de dólares a serem gastos com recursos públicos em obras de infraestrutura para atender as exigências da Fifa – o órgão máximo do futebol mundial. Para se ter uma idéia da grandiosidade do evento, uma primeira avaliação dos investimentos federais e dos estados e municípios envolvidos diretamente na organização somaram US$ 14 bilhões.

Outro estudo divulgado pela Associação Brasileira da Infraestrutura e da Indústria de Base - Abdib estimou a conta bem mais salgada: US$ 57 bilhões. A julgar pelos precedentes históricos estes valores podem ser ainda maiores. O campeonato Pan Americano de 2007, realizado na cidade do Rio Janeiro, estava orçado em R$ 400 milhões, mas conta final apresentada ao governo foi superior a R$ 4 bilhões. No caso dos estádios de futebol, a estimativa inicial da CBF era que os custos seriam de R$ 3,7 bilhões pagos integralmente pela iniciativa privada, ou seja, sem dinheiro público. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, esses valores já subiram para R$ 5,07 bilhões, cerca de US$ 3 bilhões. Se levarmos em conta a tradição verde-amarela nos negócios envolvendo governo e iniciativa privada a nota fiscal pode ser bem maior. Para o campeonato mundial da França, em 1998, os custos de construção ou reformas de estádios foram de US$ 2,6 bilhões; na Coréia do Sul e Japão, em 2002, US$ 2,0 bilhões; na Alemanha em 2006, US$ 1,8 bilhão e na África do Sul US$ 3,0 bilhões. Como se vê, no quesito desperdício saímos na frente.

Acobertado pela paixão popular, o futebol brasileiro tornou-se uma caixa preta, um negócio bilionário que nos últimos 50 anos tem sido comandado por uma dinastia familiar. Primeiro, foi João Havelange, presidente da CBD e sua sucedânea, CBF, entre 1956 e 1974. Depois, presidiu a Fifa, entre 1974 e 1998. Em 1989, assumiu a presidência da CBF seu então genro, Ricardo Teixeira, que ainda permanece à frente da instituição e agora acumula a função de presidente do Comitê Organizador Local – COL, órgão responsável pela fiscalização das obras relacionadas à Copa de 2014. O Colegiado é composto por 6 pessoas. Além de Teixeira, a secretária-executiva é sua filha, Joana Havelange e o diretor-financeiro, Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e administrador de seu patrimônio pessoal. Convêm lembrar que esse seleto e probo grupo presta contas somente a Fifa e não possui nenhuma representação da sociedade civil ou do poder público.

A Copa do Mundo não pode ser um negócio exclusivo da Fifa. O mundial de 2010, ainda segundo a revista, encheu os cofres da instituição com 3,2 bilhões de dólares e deixou para o governo da África do Sul um prejuízo de 1,1 bilhão. No Brasil, a briga começou pela cidade de São Paulo. A CBF vetou o projeto de reformas previstas para o estádio do Morumbi e agora parece ter convencido as autoridades paulistas a financiar com dinheiro público a construção do “Itaquerão”, um elefante branco particular no valor estimado de quase US$ 600 milhões. Aliás, uma pergunta: o que fazer com todos esses após o evento. Capitais como Cuiabá e Manaus, cidades sem nenhuma tradição no futebol, devem investir juntas cerca de US$ 500 milhões na construção de seus estádios. Já existe algum projeto de uso destas estruturas após a conclusão do campeonato mundial?

Em entrevista concedida a Rede Globo logo após o fracasso da seleção de Dunga, Ricardo Teixeira afirmou sem meias palavras que era preciso fazer uma renovação na CBF. Poucas vezes um dirigente da entidade foi tão claro, conciso e objetivo. Só esqueceu – e os jornalistas da emissora curiosamente não questionaram – porque a mudança não começava por ele próprio, que há 21 anos comanda o futebol brasileiro.

*René Ruschel é jornalista em Curitiba

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