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O aluno como problema

por Rosane Pavam publicado 17/04/2008 16h34, última modificação 16/09/2010 16h36
Edward O.Wilson é um eminente divulgador científico de 89 anos que julga a Biologia decisiva para a salvação planetária. Um biólogo não é deus, nem o cientista vê esta possibilidade religiosa para o conhecimento. Mas um biólogo pode conhecer a vida - e conservá-la - mais do que um pastor.

Edward O.Wilson é um eminente divulgador científico de 89 anos que julga a Biologia decisiva para a salvação planetária. Um biólogo não é deus, nem o cientista vê esta possibilidade religiosa para o conhecimento. Mas um biólogo pode conhecer a vida - e conservá-la - mais do que um pastor.

Wilson está farto de assistir à briga entre ateus e fundamentalistas cristãos enquanto a existência na Terra claramente caminha por um fio. Nem é preciso mencionar o aquecimento global. O que você diria se soubesse que oitenta por cento dos cinquenta mil rios da China receberam tanta sujeira ao longo dos anos que se encontram, neste instante, definitivamente mortos? Pois é assim que caminha o grande país - e, ao lado dele, todos nós.

Em “A Criação – Como Salvar a Vida na Terra” (Companhia das Letras), livro escrito em formato de carta a um homem de fé, Wilson pede que esqueçamos diferenças filosóficas em torno de nossas origens e nos coloquemos simplesmente em condição de salvar a natureza. Para que esta salvação ocorra, Wilson só vê um caminho: o de classificar espécies. Não conhecemos atualmente nem um décimo delas. Quando as transformarmos em verbetes da Enciclopédia da Vida, diz este otimista, nós as protegeremos. Vamos pôr mãos à obra, então!

Depois de ler este livro, é possível que você se mova a mudar de profissão. É provável que queira ser alguém mais útil, por exemplo, do que um jornalista, um advogado e um desenhista da web têm sido. Já o vejo correndo ao vestibular de Biologia, encantado por se tornar um pesquisador. Wilson faz os olhos internos que temos brilharem mais.

Em certa altura do livro, ele diz que foi despertado para a ação urgente por ninguém menos que mestres modestos. “Dos meus anos de estudante na Universidade do Alabama, o que eu me lembro com detalhes mais vívidos e vibrantes foi o que aprendi com apenas três professores.” Três! “Depois de mais de cinquenta anos, o presente que eles me deram já passou pelo teste do tempo”, ele diz.

Tenha feito você Direito, Jornalismo ou Web Design, talvez você não seja capaz de lembrar nem mesmo o nome de três dessas pessoas que um dia estiveram à frente da lousa (!) de sua classe, quanto mais de lhes reputar ação determinante em sua trajetória profissional. O americano, contudo, é capaz de se recordar com detalhes da solteirona de cinquenta anos Septima Smith, parasitologista que o fez observar meticulosamente as próprias amostras de sangue e fezes; de Allan Archer, que nem professor era, mas, como curador do Museu de História Natural do Alabama, reorganizava sozinho a coleção de aranhas numa sala dos fundos; e o recém-doutorado Ralph Chermock, que, carismático, sentenciou-lhe: “Você não é um biólogo de verdade enquanto não souber o nome de dez mil espécies!”

Um objetivo na vida, deram-lhe seus mestres. Eles desejaram que Wilson alcançasse o impossível.

Por meu lado, lembro-me de poucos mestres escolares realmente decisivos como estes, utópicos, sonhadores. Estão apagados no tempo. Mas posso me recordar do professor carrancudo do segundo grau que, cheio de encanto, apresentou às alunas de unhas feitas todos os capítulos de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”; do professor de alemão, Herr Frehse, dono de apenas dois ternos, um cinza, um azul, que, indiferente ao fato de seus dentes lhe faltarem atrás, detinha um conhecimento de português superior ao da maioria dos professores brasileiros da língua; do professor de Ciências, José Maria, que não enxergava valor nutritivo nos cogumelos; do homem cujo nome não me ocorre agora para quem ser geógrafo era ser bom observador.

Serão lembranças suficientemente boas? Melhores, talvez, do que as proporcionadas posteriormente pelas faculdades de Letras e Jornalismo da Universidade de São Paulo. Em Letras posso me lembrar com reverência de João Luiz Lafetá e João Adolfo Hansen, teóricos de literatura apaixonados por vê-la de uma perspectiva ora fundamentada, ora irreverente; e, em Jornalismo, só me sinto capaz de mencionar um professor extraordinário, o fotógrafo do instante Carlos Moreira, artista tanto quanto intelectual, sem uma gota da arrogância perceptível em alguns de seus discípulos.

O que significa ser um grande professor? A partir da leitura de Edward O.Wilson, sabemos que ele não somente é sábio, mas, principalmente, está disposto a convencer o menino que coça o nariz no fundo da sala de que o assunto a ele apresentado lhe terá enorme serventia. Motivá-lo às próprias idéias é ponto de honra para um profissional desta natureza. Um grande professor está disponível, nem é preciso dizer, para todos os alunos de sua turma, e integra o discípulo ao projeto de conhecimento do qual também faz parte. Melhor dizendo, transforma o aluno em um colega seu, e com isto lhe aponta um futuro.

Hoje, este perfil parece distante de muitos professores de ensino básico das escolas brasileiras. No ano passado, por exemplo, em razão de uma experiência familiar, vi professores de uma escola particular paulistana reputada se revelaram incapazes de enunciar com clareza questões matemáticas ou mesmo de obedecer a regra que impede a colocação da vírgula entre sujeito e verbo. Isto para não dizer que calavam seus alunos perguntadores. Nos relatórios de fim de semestre, havia mais linhas para condenar a criança que não tirava o boné ao adentrar a sala do que para a exposição clara de sua evolução em álgebra.

Em um esquema como este, infelizmente comum mesmo nas escolas que se anunciam liberais ou construtivistas, pouco importa a criatividade, que cede força à evidência da cauda poderosa. Segundo este sistema, é obedecer o professor, saiba o que ele ensina ou não _ ou não ser. O essencial se resume a preparar o aluno para a realidade escolar, sua riqueza e onipotência, não para a educação.

No segundo semestre do ano passado, uma pesquisa realizada pelo Ibope com 500 professores das redes públicas municipal, estadual e federal, mostra uma posição surpreendente deste profissional de ensino no Brasil, ainda que possamos considerar, aqui, a miríade de problemas (baixo salário, formação deficiente, violência nos arredores) enfrentada por quem ensina nesses locais, em contrapartida àqueles funcionários dos colégios privados paulistanos.

O professor da escola pública, diz a pesquisa, vê alunos e pais como os principais problemas da sala de aula. Os alunos, portanto, não representariam mais desafio ou estímulo, nem mesmo objetivo da existência professoral dentro de sala. Eles teriam passado a constituir obstáculos. E ainda esta questão: os pais, fatores externos à classe, parecem determinar a ausência de horizontes do professor da escola pública. Mas o que sabemos é que um mestre deveria estar ocupado em seguir planejamento pedagógico capaz de fazer brilhar os olhos dos meninos da primeira à última fila, sem qualquer intromissão.

Frequentemente, nas escolas brasileiras, a impressão que temos é a de que professores e direção estariam muito mais felizes se a escola existisse sem seus alunos. Para este mistério, talvez nem mesmo Edward O.Wilson encontrasse uma resposta real.