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Censo 2010

No século XXI, nova radiografia

por Luiz Antonio Cintra — publicado 09/08/2010 16h35, última modificação 13/08/2010 12h57
O IBGE sai a campo para fazer uma análise mais acurada do perfil do Brasil.
No século XXI, nova radiografia

O IBGE sai a campo para fazer uma nova análise mais acurada do perfil do Brasil. Nas grandes metrópoles, a população deve diminuir a partir de 2020. Foto: Joel Silva/Folhapress

O estudo deve influir até na distribuição de recursos políticos

Nos próximos três meses, 193 mil pesquisadores irão a campo coletar as informações que servirão de base para o primeiro Censo Demográfico brasileiro do século XXI. O 12º levantamento censitário vem recheado de números superlativos e grande expectativa para estatísticos e demógrafos envolvidos direta e indiretamente na operação, que mobiliza 5 mil funcionários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sem falar nos temporários contratados para levantar as informações nos 5,5 mil municípios.

Munidos de seus computadores manuais, eles terão pela frente uma tarefa portentosa: visitar cerca de 60 milhões de residências, nas zonas rurais e urbanas, para garimpar informações relativas a sexo, idade, renda, ocupação profissional, religião, cor, língua e vários outros quesitos, em um total que chega a 108 itens no caso dos 5,8 milhões de questionários das amostras mais detalhadas, ou 37 tópicos, no questionário básico, respondido pelos demais.

Como nas edições anteriores, o Censo 2010 tem pela frente o desafio de retratar o perfil demográfico da sociedade brasileira com o máximo de rigor científico, a despeito das dificuldades impostas pela extensão do território ou a insegurança nas áreas mais críticas, em geral nas regiões metropolitanas, onde a presença do crime organizado tende a dificultar o trabalho.

O IBGE ainda precisa se prevenir para evitar fantasmas do passado. Desde a Constituição de 1988, que deu origem ao Fundo de Participação dos Municípios (FPM), o tamanho da população de um município determina o montante que caberá à prefeitura do bolo federal. Nas pesquisas de 1991, 1996 e 2000, houve vários casos de fraude identificados pelos técnicos. Por isso algumas regiões, como o Sul do Pará, continuam a merecer atenção redobrada. Explica-se: em alguns casos extremos, dezenas de pessoas a mais podem significar 100 mil reais ao mês em recursos extras.

Para minimizar os problemas, uma parcela considerável dos 1,6 bilhão de reais que o IBGE gastará foi usada em treinamentos – 25 mil instrutores foram contratados e 11 mil salas de aula alugadas para o treinamento final, um dos motivos para a pesquisa começar em agosto, logo após as férias de julho, quando as escolas estão vazias.

Felizmente a tecnologia facilita o trabalho de processar milhões de informações que serão coletadas. Até 1991 ainda era preciso digitar todas os questionários, o que sempre representa maior margem de erro. Àquela altura, a população brasileira chegou a 146 milhões.

Em 2000, o questionário ainda era preen-chido à mão, mas sua leitura por meio de escâner representou um ganho significativo, inclusive de tempo. Do total de residências que serão visitadas, espera-se que menos de 1% do total fique sem responder o questionário, índice próximo ao registrado no Censo de 2000, quando a taxa de domicílios fechados (aqueles que os recenseadores sabem que existe morador, mas não conseguem localizá-lo nas várias visitas em que são instruídos a fazer).

Para quem tem intimidade com o tema, algumas variáveis prometem emoção, quando for conhecido o primeiro resultado do Censo, em 25 de novembro, e o IBGE- poder cumprir a sua obrigação legal de informar o País sobre o tamanho oficial da população. “Procuramos seguir as orientações internacionais da ONU, que possui uma lista de tópicos a serem pesquisados, e os divide entre os altamente recomendados, como sexo e idade, e os sugeridos, entre os quais se encontra a pergunta relativa às etnias indígenas”, diz Zélia Bianchini, diretora-adjunta do Censo. Nos Censos anteriores, havia a opção de o cidadão se declarar indígena, mas, neste ano, o entrevistado responderá o nome de sua etnia.

O IBGE fez uma série de consultas a órgãos de Estado que se utilizam das estatísticas, além do trabalho da comissão de 12 especialistas de notório saber para fechar a pesquisa. “A demanda por incluir itens novos é muito grande, já que é o Censo o único levantamento detalhado das cidades”, diz Bianchini. No total, foram mais de 9 mil sugestões recebidas. Na fase de teste, o questionário mais detalhado chegou a 150 itens, mas algumas dezenas foram eliminadas para encurtar o tempo de resposta.

Por sugestão da Secretaria de Direitos Humanos, por exemplo, os pesquisadores do IBGE chegaram a incluir inicialmente perguntas relativas à língua falada. “Ao longo de sua história, os censos foram mudando de caráter”, comenta Luiz Antonio Oliveira, coordenador de população e indicadores sociais do IBGE. “Nos séculos XVIII e XIX, os levantamentos serviam principalmente para o Estado taxar o comércio, controlar a população e fortalecer a noção de identidade nacional. No sé-culo XX, isso mudou e as pesquisas censitárias passaram a servir como instrumento de políticas públicas e também a incluir questões culturais, como, por exemplo, saber a religião das pessoas.”

Apontado pelos colegas do IBGE como um dos maiores conhecedores da diversidade demográfica brasileira, Oliveira levanta tendências que serão confirmadas a partir do momento em que os dados primários forem compilados. “Um das apostas é que a população brasileira poderá chegar a 191 milhões e uma taxa de crescimento anual na década de 1,2%, com as cidades de 100 mil a 500 mil com os maiores índices de crescimento. As regiões metropolitanas, ao contrário, crescerão bem menos, a começar pelo Rio de Janeiro e por São Paulo, que a partir de 2020 deverão ver suas populações reduzirem se não houver políticas de incentivo a mais filhos”, afirma.

O Censo 2010 inovará ao perguntar sobre o número de familiares que residem fora do País. A presença de muitos brasileiros na ilegalidade nesses países, no entanto, deixa entrever que esse será dos poucos indicadores de baixa credibilidade. Também é inédita a pergunta sobre se há mais de um responsável no domicílio – há dois Censos, o IBGE deixou de usar a expressão chefe de família. Alguns estados do Nordeste deverão confirmar a tendência de retorno parcial da migração rumo ao Sudeste e Sul do País, característico de algumas décadas atrás. Alguns movimentos migratórios novos, como o crescimento populacional forte nas regiões de grandes investimentos em infraestrutura, como na região de Porto Velho, em Rondônia (graças a projetos de duas grandes hidrelétricas), ou o norte fluminense.

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