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Nigella Lawson: "Não sou uma chef"

por The Observer — publicado 26/10/2013 09h51, última modificação 26/10/2013 11h11
Uma das dez nomeadas para o concurso de chef da década do "Observer" fala sobre comida, feminismo e Twitter
Divulgação / BBC
Nigella Lawson

Nigella se considera uma curiosa da cozinha

Por Elizabeth Day

The Observer: É verdade que você se inspirou para escrever seu primeiro livro ao ver a anfitriã de um jantar chorar por causa de um creme caramelo desandado?

Nigella Lawson: É verdade que eu fui a um jantar em que a anfitriã passou o tempo todo correndo para o fogão e depois ouvimos soluços altos. Eu acho que muitas pessoas sentem que devem se esforçar para produzir comida de restaurante em uma cozinha doméstica, e eu quis desmentir isso.

Mas escrevi o livro por outro motivo, embora na época não fosse consciente, e foi memorializar a comida da minha mãe e de uma de minhas irmãs, ambas as quais morreram jovens. Por isso muitas de minhas conversas com elas foram sobre o que estávamos cozinhando e # "How to Eat" [Como comer] foi uma forma de continuar essa conversa.

TO: Você não afirma que é uma chef. Não ser uma perita faz parte de seu charme?

NL: Não sou uma chef; nem sequer estudei culinária. Por isso, sim, eu acho que o fato de ser uma espécie de curiosa na cozinha e encaixar a alimentação em uma vida agitada (comecei a escrever livros de cozinha quando era uma colunista de outro área, com filhos pequenos) significa que eu cozinho mais ou menos do mesmo modo que meus leitores ou espectadores.

A cozinha real, do tipo que acontece nas casas, não precisa ser difícil ou complicada, e eu achava que era importante demonstrar isso. É vital mostrar às pessoas como é fácil colocar algo bom na mesa. Eu penso em mim mesma como uma escritora de comida, mais que uma cozinheira, e ao escrever posso incentivar as pessoas a ver o alimento no contexto da vida, o que é tão importante quanto tranquilizá-las, deixá-las confiantes na cozinha.

TO: Você é uma feminista?

NL: Eu acho que a resposta é tão claramente um "sim" que estou quase surpresa com a pergunta. Quando escrevi # "How to Be a Domestic Goddess" [Como ser uma deusa do lar], muitos acharam que eu estava dizendo que o lugar das mulheres era na cozinha, mas as imagens irônicas no final dos capítulos certamente minaram isso, exceto pelas pessoas que conscientemente decidiram interpretar mal minhas intenções.

Sentir-se à vontade na cozinha é essencial para todos, homens ou mulheres. Na época, parecia que tantas pessoas tinham medo de cozinhar, e isso significava que o lar não passava de uma escala depois do trabalho. As mulheres da minha geração estavam ávidas -- com razão -- para não ser amarradas ao fogão, mas as ramificações disso foram que elas sentiam medo da cozinha. Como isso pode ser bom para alguém? Eu também acho que denegrir qualquer atividade porque ela foi tradicionalmente associada à esfera feminina é em si mesmo antifeminista.

TO: Qual seria sua última refeição?

NL: Quanto tempo você tem? Eu começaria com meu roquamole (guacamole com blue cheese) com tortilla chips, seguido de linguine com mariscos e risoto de trufas brancas. Depois, frango assado com batatas assadas, purê, chips, ervilhas à francesa e salada de funcho, ou o Frango Elogiado da Minha Mãe com arroz, ou talvez ambos, depois steak bearnaise, com mostarda inglesa e mais chips, perdiz assada, churrasco coreano, um sushi fantástico, costela de porco cozida lentamente e um sanduíche de bacon. Seguidos de torta de merengue de limão, pavlova de maracujá e zabaglione, terminando com uvas moscatel e gorgonzola tão maduro que quase anda sozinho.

TO: Existe uma receita que lhe traz memórias especialmente vívidas?

NL: Essa seria o Frango Elogiado da Minha Mãe -- eu o chamo assim porque era o modo como minha mãe costumava preparar o frango, não exatamente refogado, nem assado, e cozinhá-lo parece um ato de devoção.

Minha mãe morreu muito jovem, aos 48, e preparar esse frango não apenas me faz sentir-me ligada a ela de uma maneira essencial, como também permite que meus filhos, que não a conheceram, comam sua comida e por sua vez a deem para seus filhos e assim por diante, espero.

Isso tem muito a ver com o que é cozinhar. Eu também acho que é importante mostrar em livros e na TV comidas que não sejam fotogênicas ou elegantes, e um prato de frango cozido com alho-poró e cenoura é definitivamente isso. Mas é gostoso e essencialmente alimentício, para o corpo e a alma, para cozinhar e comer.

TO: Você é famosa por usar o Twitter. Do que você gosta quando interage dessa forma?

NL: Eu resisti ao Twitter durante muito tempo, pois ficava nervosa ao entrar na arena dos pronunciamentos importantes, mas então -- depois de um período de "moita" -- vi que realmente não se tratava disso. Para mim, o Twitter é a Rádio 4 da mídia social, e gosto da inteligência e esperteza que muitos demonstram nele, e não estou me referindo a pessoas famosas, mas às reações cotidianas das pessoas que me seguem.

Como uma pessoa que escreve livros e faz programas de comida, sou consciente de que imprimo apenas o meu lado da conversa: o Twitter me permite ouvir as pessoas falando comigo, e eu adoro a interação genuína.

TO: Você está surpresa de ter feito tanto sucesso?

NL: Eu acho que as pessoas geralmente se dividem entre as que são orientadas por metas e as que são conduzidas pelo medo, e eu estou mais na segunda categoria. Isso não quer dizer que eu tenha medo do meu trabalho, mas ao considerar essa pergunta o desejo de não errar tem mais peso que o desejo de ter êxito.

Mas posso dizer que o que eu faço é uma espécie de surpresa para mim. Não é uma carreira profissional que escolhi conscientemente, e eu jamais teria me imaginado nessa posição. Sinto-me incomumente grata por ter um trabalho de que eu gosto e, por ser uma espécie de comunicadora incontinente, posso desfrutar a sensação de relacionamento com meus leitores, que também é gratificante por si só. Para mim, o verdadeiro sucesso vem do sentido de comunidade -- por mais que isso pareça um clichê -- que meu trabalho promoveu.

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