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Não foi tão diferente assim

por Eduardo Graça — publicado 06/09/2011 13h08, última modificação 06/06/2015 18h16
Os pontos de conexão entre o atual problema do uso de crack no Brasil e a epidemia norte-americana do fim da década de 80 não são desprezíveis

Há um natural fascínio da sociedade americana pela explosão do consumo do crack no Brasil, onde o número de usuários beira os 600 mil, segundo estimativas do governo federal. A epidemia do fim dos anos 80 deixou cicatrizes nos Estados Unidos e não é mero acaso a sequência de reportagens sobre a multiplicação de cracolândias em publicações como o Los Angeles Times e o Miami Herald. A partir de 1984, juntamente com o aumento do consumo da droga, houve um

crescimento sensível de crimes violentos especialmente em grandes centros urbanos como Nova York, Los Angeles, Washington, Filadélfia, Baltimore, São Francisco, Boston e Seattle. A experiência gera na mídia ianque certa preocupação: até que ponto a exportação do fenômeno à maior economia latino-americana, três décadas depois, pode aumentar os riscos de segurança para turistas interessados em conferir a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016?

A crescente apreensão da droga em território nacional é considerada uma conexão direta entre as duas epidemias. Os números impressionam: pela primeira vez na história o Brasil ultrapassou os EUA. Só na cidade de São Paulo aumentou, entre 2006 e 2009, de 595 para 1.635 quilos por ano. No Rio de Janeiro, no mesmo período, as apreensões quintuplicaram, de 546 para 2.597. “Exatamente como nos Estados Unidos, a partir do segundo governo Reagan, as autoridades brasileiras vêm anunciando um aumento até cinco vezes maior na apreensão de crack”, aponta o sociólogo Jeffrey A. Butts, diretor do Centro de Pesquisas do Colégio John Jay de Justiça Criminal, parte da Universidade da Cidade de Nova York, respeitada instituição na área do estudo de políticas públicas dos EUA.

Para o antropólogo Osvaldo Fernandez, professor-visitante, até o ano passado da Escola de Saúde Pública da Universidade de Colúmbia, em Nova York, o aumento expressivo do uso de crack no Brasil está diretamente relacionado a uma geração que, em resposta ao HIV, trocou produtos à base de coca injetados na veia para o cheirado (cocaína) e o fumado (crack). Como esse último é mais barato, o mercado popularizou-se e atingiu as camadas mais miseráveis da sociedade brasileira. “O crack passou a ser usado como um estimulante que retira a sensação de fome de amplos segmentos do proletariado dos grandes centros urbanos”, explica o hoje professor da Universidade do Estado da Bahia, autor da tese de doutorado Coca Light? Usos do Corpo, Rituais de Consumo e Carreiras de Usuários de Cocaína em São Paulo.

O estigma social do crack também é destacado por Jeffrey Butts, que critica o que classifica ser uma tendência da mídia brasileira de transformar a droga na vilã da história. O mesmo erro, segundo o sociólogo, foi cometido pelos EUA: “Ainda tratamos o problema sob o ponto de vista criminal. Começamos agora a abordar o tema de uma maneira mais, digamos assim, europeia, como caso de Saúde Pública. Mas em momentos de pânico, como no dos surtos epidêmicos, continuamos caindo na tentação de enfrentá-lo do ponto de vista criminal, o que só piora o cenário”.

Internação compulsória
Tanto Butts quanto Fernandez refutam a ideia de tratamento forçado de consumidores de crack implantada no município do Rio de Janeiro desde maio. “Há uma valorização exagerada do fetichismo do produto e um desaparecimento do sujeito, ao excluí-lo do controle de seus desejos, suas práticas, sua autonomia frente ao crack, na linha do que Marx definiu como reificação”, ressalta Fernandez.

Para Butts, que viveu a transformação de Nova York na virada dos anos 90, o programa carioca tem um forte teor de limpeza das ruas: “Quando violência e consumo de drogas se unem, a opinião pública tende a esquecer os direitos dos indivíduos e as liberdades civis e se volta para a polícia e o governo. Adoraria que pudéssemos lidar com os problemas relacionados ao consumo de drogas como fazemos com as bebidas alcoólicas, que, aliás, são muito mais prejudiciais para o organismo do que o crack e a cocaína”, provoca.

No entanto, a realidade dos que vivem nas ruas é terrível. Uma pesquisa da USP revelou que um terço dos consumidores de crack morre por conta da violência em um período de cinco anos. Números que, segundo Butts, devem ser olhados com cuidado. “Não foi o uso das drogas que causou a morte dessas pessoas, mas a legislação voltada para o seu consumo. É uma diferença importante. Se eles pudessem entrar em um centro de distribuição mantido pelo governo, por exemplo, para receber doses não letais, não estariam expostos à violência. As leis antidrogas matam mais que as drogas”, ataca Butts, autor de dois livros sobre o tema e que iniciou a carreira como conselheiro especial em casos relacionados ao consumo de álcool e drogas por jovens no estado do Oregon.

O sociólogo norte-americano também enfatiza o fato de o crack e a cocaína serem drogas ruins, no sentido de que o efeito de euforia gerado pelo consumo dos produtos passar muito rapidamente. “Nos dois casos, o usuário precisa consumir mais e mais. Cocainômanos usam a droga em seus apartamentos, pobres fumam crack nas ruas.” Segundo Butts, a política de criminalização e tratamento forçado, do ponto de vista sociológico e farmacológico, vai na direção errada e afeta desproporcionalmente os usuários mais pobres. Hoje, estima-se que uma pedra de crack seja comprada por algo como 5 reais nas ruas das principais cidades do Brasil. Isso aumenta o número de transações comerciais de um produto ilegal. “Quanto mais transações, mais risco para a violência e possessão de armas”, pontua.

Tais questões relacionadas hoje ao consumo de crack no Brasil não são tão diferentes das enfrentadas pelos EUA. Mas o caminho para o fim da epidemia americana, lembram os especialistas, deu-se tanto pelo aumento de fiscalização nas fronteiras do país – a ONU estima a redução, desde 2006, em até 80% na entrada do produto em solo americano – quanto por uma campanha de conscientização da sociedade civil. “Houve uma geração que viveu na pele a epidemia e eles mudaram suas atitudes diante do crack. Por outro lado, investiu-se pesado, por aqui, em algo similar ao que se fez com relação ao vírus HIV: celebridades informando os riscos gerados pelo comportamento de quem consome drogas como o crack. A publicidade negativa do uso das drogas teve sua importância nessa redução do consumo, muito mais do que a ameaça de pessoas com prisão e/ou tratamentos forçados”, afirma Jeffrey Butts.

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