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Sociedade

Crônica

Não dou a mínima para o 'espírito de Natal'

por Matheus Pichonelli publicado 22/12/2011 09h33, última modificação 22/12/2011 10h11
Todo ano é a mesma coisa: os comerciantes são sempre os réus pelo assassinato do chamado 'espírito natalino'. Que nunca existiu

Nada contra os bons sentimentos. Tudo contra os clichês.

Época de fim de ano, o que mais se vê, além dos jingles sobre um novo dia de um novo tempo que começou, é gente descendo a ripa nos supostos coveiros do espírito natalino.

A malhação do Judas é no sábado de Aleluia, mas tem no Natal uma prévia ainda mais sangrenta. Nessa época, pouca gente apanha tanto quanto os comerciantes, justamente os únicos que não terão descanso na reta final do ano que se encerra.

Os coitados ficam lá, abrem as portas logo cedo, seguem firmes até as 22h, com sorriso no rosto (ai se não sorrir), ouvem reclamação de empregados, fixos ou temporários, andam pra cima e pra baixo pra trazer o sapato que sirva na madame, o brinquedo ao gosto do pentelho, o hot dog do tiozão cheio de sacolas e que não aguenta mais esperar na fila.

Tudo pra quê?

Para se tornarem réus, às vésperas do dia de 25 de dezembro, da acusação de assassinato dos bons costumes, os tempos em que ajoelhávamos no milho pra rezar para que nossa economia fosse sempre primária, para que a gente jamais se contaminasse com os imperativos comerciais, e para que nossas crianças não caíssem na tentação das bebidas, do ócio, dos cigarros e da TV Globinho.

Pois a certa altura da vida posso dizer sem certa vergonha: não dou a mínima para o espírito de Natal. Ou melhor: não dou a mínima para quem vem me falar, a essa altura do campeonato, sobre espírito de Natal.

Por um motivo simples. Tivemos o ano inteiro para sermos minimamente decentes com o colega do trabalho, com os amigos, com o cobrador do ônibus, com o rapaz do estacionamento, com o andarilho que nos pede dinheiro e piedade à porta de casa.

E, órfãos de algum espírito superior que nos rondaria em maio ou junho, chutamos todo mundo. Família? Fala sério. Ficamos o tempo todo batendo boca com a esposa que teima em aparecer na festa da irmã da cunhada, de quem a gente foge feito o diabo da cruz.

Mas chega o Natal e tudo é compensado pelo churrascão de fim de ano, quando todo mundo se abraça, diz que se ama e confere o relógio para saber quando é que as visitas vão embora.

E se as coisas não saem do jeito que imaginamos quando assistimos “Esqueceram de Mim” ou à versão da Disney do “Um Conto de Natal”, a culpa é do libanês dono da loja de brinquedos, que ralou o ano inteiro, se endividou, tomou balão dos fornecedores e só agora vai ver o filé mignon, com o aumento do movimento provocado pelo tão malfadado imperativo comercial – e que será a locomotiva da indústria de bens de consumo, que afinal faz a grana girar, cria empregos, etc.

O sujeito que agora pragueja contra “essa festa pagã e comercial” talvez tenha esquecido do quanto esperou por aquele bonequinho dos Comandos em Ação quanto tinha nove anos, naquele inesquecível Natal de 1991 – quando fechou a cara com a avó por ter ganho uma mera  cuequinha cinza da Lupo.

(Criança, mais que ninguém, sabe quando alguém a visita com um presente em mãos dizendo que ela foi lembrada, ao mesmo naquela data. É assim desde que o mundo é mundo, e a culpa não é da hipnose provocada quando a Xuxa vai à tevê vender bonecas.)

Se lembrasse de tudo isso, o sujeito saudoso do espírito natalino – natimorto desde que o menino Jesus saiu carregado da manjedoura – agradeceria antes ao espírito das compras do que ao velho ascetismo cristão por ter um emprego e ver a economia crescer de um tempo pra cá.

Seria um favor à contenção da hipocrisia e dos clichês, pragas bem mais irritantes do que o estresse das compras de fim de ano.

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