Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Nada será como antes

Sociedade

2008

Nada será como antes

por Emiliano José — publicado 02/01/2009 17h24, última modificação 01/09/2010 17h25
Balanço de ano deve ser feito? Sim, se não for apenas para cumprir tabela.

Balanço de ano deve ser feito? Sim, se não for apenas para cumprir tabela. Penso que cada ano deve estar inscrito num cenário bem mais amplo do que as fronteiras ditadas pelo calendário. E o balanço de 2008 necessariamente nos remete a 1929, ao crack, à crise que parecia abalar os alicerces do capitalismo. Houve quem dissesse que outros tempos se avizinhavam, que ali era o ponto terminal do mais vigoroso modo de produção da história. Não foi.

Se me remeto a 1929, o faço por conta da crise econômica atual, que fez o mundo tremer, de Norte a Sul, e que atinge de fato a todos que habitam a face dessa terra. Não há hipótese de fazer balanço de 2008 sem que tratemos da crise, conseqüências e perspectivas. Sei que muitos já se referiram a 1929. Eu volto àquela data apenas para situar uma posição: novamente não estamos às portas do embate final. O céu não parece estar perto. Ou, se quiserem, o Apocalipse ainda não tocou as suas trombetas.

Claro que diante da crise há uma direita obrigada a rever conceitos. Sobretudo porque até há pouco tempo, não poucos intelectuais que bebem nas fontes do pensamento neoliberal, proclamavam que o mercado continuava de vento em popa, que o capitalismo financeiro gozava de perfeita saúde, e que o mundo continuaria a prosperar sob a lógica implacável da economia privada. Hoje, muitos deles, inclusive muitos jornalistas embevecidos com pensamento neoliberal, começam a ensaiar mudanças, mesmo que tímidas.

Que a crise é grave, besteira reiterar. Está aí para quem quiser ver. As conseqüências já batem à porta, e dos mais pobres de modo particular. O desemprego vai crescer em escala assustadora em todo mundo. Já está crescendo. Essa crise marca 2008 para sempre. Há quem diga que o mundo tem que ser repensado. E creio que tem mesmo. Só que nada é simples, muito menos o é se falamos do capitalismo e suas manhas e artimanhas. Esta não é a primeira e não será a última crise econômica grave sob o capitalismo, já se viu.

Parece quase obviedade dizer que o capitalismo enfrenta as crises, alimentando-se delas. Penso que há uma quase ingenuidade naqueles que celebram o fato de os países desenvolvidos recorrerem agora ao Estado para salvar a economia. Ou que ironizam essa nova postura. E a celebração desse aparente novo tipo de postura advém, sobretudo, do pensamento de esquerda. A comemoração aparece como uma espécie de vingança.

Ora, o mercado recorre ao Estado no momento da crise, e nunca preocupado em salvar empregos ou proteger os trabalhadores. O Estado é acionado para proteger o capital, e principalmente o grande capital, como se viu nos EUA. Ah, mas antes, sob o neoliberalismo, o Estado era demonizado... Sim, sim, mas mudou a conjuntura, adota-se outra política. Em favor da salvação do capital.

Claro que no meio da crise, havendo força e criatividade da classe trabalhadora, da sociedade civil organizada, dos partidos políticos de esquerda, podem surgir propostas inovadoras, progressistas, capazes de situar novos paradigmas, que não se limitem apenas à lógica do capital. Mas, não sei se há força política suficiente entre os de baixo para que se afirmem propostas capazes de fazer a crise reverter a favor dos trabalhadores, dos oprimidos de modo geral. A esquerda, no mundo, está numa fase de transição.

Até hoje, creio, desde a queda do Muro de Berlim e do fim da URSS, a esquerda não conseguiu criar um novo paradigma, um novo modelo. Não estou dizendo que aquele modelo era bom. Não era. E nem estou dizendo que devamos seguir os passos anteriores. Nada de uma Internacional nova. Nada de uma central política mundial que controle tudo. Mas, seguramente, há a procura de bases teóricas novas que orientem essa fase em que vive o mundo, bastante carente de um pensamento inovador de esquerda, capaz de situar-se como elemento polarizador. Não sei se é possível dizer, como Eduardo Galeano o fazia no início dos anos 90, que parecemos um menino perdido no meio da tempestade. Mas, a imagem é boa.

Sei que há esforços. Sei que nada será como antes. Sei, por exemplo, que a América Latina e o Caribe têm muito a ensinar ao mundo nos dias de hoje. Vivem hoje o seu melhor momento da história. Com governos de diferentes extrações políticas, mas grande parte deles situada à esquerda do espectro político. E essa conjuntura só foi possível depois que as armas foram depostas. Literalmente depostas. Os grupos guerrilheiros passaram à luta política institucional e ocuparam espaços decisivos, chegaram a governos em vários países.

Diria que deixaram Sierra Maestra, Regis Debray e Lênin, e passaram a Gramsci. Guerra de posição, não guerra de movimento. Aderiram à democracia. Não se trata mais do assalto ao Palácio de Inverno. É a disputa de corações e mentes. Luta cultural. Mudança de mentalidades. Conquista dos povos para as mudanças. Consciência de que pode haver alternância de poder. Sem milagres. Proposta contínua de participação popular.

A América Latina e Caribe servem de exemplo para os povos de todo o mundo atualmente com sua capacidade de fazer transformações pela via democrática. E quando falamos em democracia, não imaginamos nenhum baile de valsa. Há conflitos, e duros. É só olhar para a Bolívia, para o Equador, para a Venezuela, para a Argentina, para o Brasil mesmo, para ver que nada é simples. As nossas classes dominantes não se conformam em perder privilégios, mesmo que em escala reduzida. Querem manter tudo como dantes. Mas, como se vê, isso não é mais possível.

Espera-se que esses países saibam enfrentar essa crise, minimizando os inescapáveis efeitos dela sobre os trabalhadores. Que saibam desenvolver políticas ousadas contra a crise, promover financiamentos voltados não só para o grande capital, do qual não se pode escapar nessa quadra da história mundial, mas também para promover atividades que beneficiem os trabalhadores, os excluídos. Que pensem em programas geradores de emprego e renda, sobretudo. E creio que têm caminhado nessa direção.

No caso brasileiro, penso que o enfrentamento da crise tem já vários pontos positivos. O governo Lula tem reafirmado a manutenção dos investimentos do PAC, fala num amplo programa de habitação popular, desenvolve projetos de proteção do emprego. Há preocupações com a economia popular. São aspectos de uma agenda anti-crise, mas ainda insuficientes.

Há o desafio dos juros. O Brasil corre na contramão do resto do mundo, e mantém juros estratosféricos. E nós vamos continuar a dar o mesmo tratamento ao capital financeiro? Não podemos endurecer as regras? Mais: é essencial que o País pense a necessidade de caminhar celeremente para uma revolução científico-tecnológica, sem a qual será difícil dar, vamos usar a expressão, um salto de qualidade no desenvolvimento nacional.

O mundo está mudando. Esse registro é fundamental nesse balanço. Barack Obama foi eleito, e essa eleição tem um simbolismo extraordinário, para além do que venha fazer o novo presidente americano. A China ocupa atualmente um papel essencial, e esse protagonismo vai crescer. Brasil e Índia são também protagonistas fundamentais do mundo de hoje. O neoliberalismo perdeu força. Uma espécie de keynesianismo vem se impondo. Já disse do novo papel da América Latina e do Caribe, que agora acabam de acolher Cuba como parceira, na última reunião de cúpula em Salvador, meados de dezembro de 2008.

Volto ao ponto de partida: não há crise terminal do capitalismo. Se quisermos volver aos clássicos, poderíamos lembrar Marx, que afirmou que um modo de produção só termina quando se esgotam todas as suas possibilidades, quando suas forças produtivas não têm mais para onde ir. Não é o caso do capitalismo. Aos que propugnam mudanças, melhorias nas condições de vida dos povos, não há outro caminho senão o da guerra de posição. Desenvolver o reformismo revolucionário, que me parece foi expressão cunhada há algum tempo por Carlos Nelson Coutinho, esse extraordinário intelectual brasileiro. Enfrentar a crise ocupando trincheira por trincheira, continuar a ganhar espaço político, econômico, cultural, ideológico. Mudar corações e mentes. Sem qualquer dose de ironia, um feliz 2009.