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"É fundamental derrubar a resistência ao uso do espaço público"

por Renan Truffi publicado 19/02/2015 16h21, última modificação 19/02/2015 16h25
Secretário municipal de Cultura de São Paulo, Nabil Bonduki, analisa repercussão e responde críticas ao Carnaval de rua da cidade
Cesar Ogata/Secom
Nabil Bonduki

Para secretário de Cultura, ainda há abusos porque população paulista não está acostumada a usar espaço público

Liberado desde 2013, o Carnaval de rua de São Paulo se consolidou. O paulistano tomou gosto pela folia e a festa cresceu: em 2015 mais de 300 blocos desfilaram pelas ruas da cidade. O secretário municipal de Cultura, Nabil Bonduki, ressalta o êxito da folia e relativiza as críticas pontuais, como as feitas por de moradores da Vila Madalena. “Toda mudança gera resistência, mas a maioria da população da cidade apoia o Carnaval de rua. Temos problemas locais a serem enfrentados. Sempre existe, contudo, um mau-humor em relação a manifestações públicas, fruto do conservadorismo de São Paulo”, avalia o urbanista. E conclui: “é fundamental uma articulação para um maior entendimento do que significa usar o espaço público e, assim, derrubar essa resistência”.

Em entrevista a CartaCapitalo secretário nega que, no próximo ano, o Carnaval paulistano terá revista policial ou controle de acesso, como alguns moradores, veículos de imprensa e autoridades defenderam nos últimos dias. Pelo contrário: "nosso Carnaval não pode seguir o modelo de Salvador, onde você vende o abadá e tem cordas, e só quem paga pode entrar. Não queremos esse modelo para São Paulo". Bonduki admite, no entanto, a existência de alguns abusos. E prega uma conversa com a Polícia Militar, evitando tratar com repressão um evento cultural. Leia a entrevista completa:


Carta Capital: Qual avaliação a Prefeitura faz do Carnaval de rua em São Paulo?

Nabil Bonduki: Tivemos um avanço enorme nesse ano. O número de blocos aumentou em 50% e atingimos nosso objetivo: um Carnaval gratuito, espontâneo, com sabedoria cultural e um envolvimento cada vez maior da população. Outra aspecto importante: a estrutura da Prefeitura foi muito maior. Chegamos a 6 mil diárias de banheiros químicos e um enorme apoio de estruturas de saúde, segurança e gerenciamento de trânsito, garantindo um tranquilidade na cidade toda. A exceção foi a Vila Madalena, mas os problemas lá, no meu ponto de vista, não tiveram a ver com a festa, e sim com o papel que a Vila Madalena tomou na cidade.


CC: Então, para além da gratuidade e da participação popular, o objetivo era a ocupação do espaço urbano?

NB: Exatamente, mas é uma ocupação com regras, evitando o conflito entre a folia e os moradores. Por isso é importante, por exemplo, o horário restrito. A maioria dos blocos está saindo durante o dia, alguns até de manhã, a partir das 9h. E os blocos com saída marcada para depois das 18h têm que encerrar até às 22h. Isso é uma preocupação em se garantir a compatibilidade de quem usufrui do espaço público e os cidadãos que não participam do bloco.


CC: O senhor sentiu algum tipo de resistência?
NB: Toda mudança gera resistência, mas a maioria da população apoia o Carnaval de rua. Temos regiões com problemas. E sempre existe há o mau humor em relação a manifestações públicas, fruto de um conservadorismo ainda presente em São Paulo. Mas está predominando o entusiasmo. Assim como em outras cidades, o Carnaval de rua envolveu a população. Agora é preciso um pouco mais de educação para o uso do espaço público. E este é um trabalho a ser feito e não só pela Prefeitura. Os meios de comunicação e as escolas também podem ajudar, por exemplo. A população não está acostumada e, às vezes, abusa. Isso vai desde a resistência a usar banheiros químicos até a questão dos serviços. A Prefeitura garante a infraestrutura, mas o cidadão precisa colaborar na hora de dispensar sua latinha e outros resíduos. E não é só no Carnaval, é para a vida inteira.

Carnaval de rua em São Paulo
Maioria dos blocos ainda acontece na região da Sé e da Vila Madalena, mas intenção da Prefeitura é descentralizar o Carnaval

 

CC: As críticas vêm apenas pela falta de cultura de usar o espaço público?
NB: São vários motivos. Veja o Rio de Janeiro, para dar o exemplo de uma cidade com dimensões parecidas com São Paulo. O Rio usa a praia, é um grande espaço público usado por todos, estão mais acostumados a isso. Aqui precisamos de mais parques, praças e outras áreas livres de automóvel, tomadas pelo cidadão. Assim conseguiremos de fato ir formando essa cultura. De fato há exageros em áreas com muita concentração de pessoas, isso gera a resistência na população local. A Vila Madalena é o foco principal desse problema, e o que acontece lá ganha muito destaque na imprensa. A questão, entretanto, está restrita a uma área de seis a oito quarteirões em uma cidade com milhares de quarteirões. É um fato extremamente localizado, muito amplificado pela mídia.


CC: Houve então um excesso de destaque para os problemas pontuais?
NB: Houve uma ênfase exagerada para os eventos na Vila Madalena. E uma cobertura muito aquém do que poderia ter sido feita do evento na cidade como um todo. Na Vila tivemos uma pequena parcela dos blocos da cidade. Os problemas aconteceram bem depois, e nada tiveram a ver com os blocos na rua. Foram apenas oito blocos circulando no bairro após as 18 horas. Mas a Vila Madalena virou o destino de quem não estava indo para os blocos mas queria ir para algum lugar. Foram para o bairro porque sabiam que teria gente, movimento. A Vila Madalena é divulgada como um espaço boêmio há pelo menos 15 anos. Mesmo assim o Carnaval foi muitíssimo bem sucedido, com pouquíssimas ocorrências e brigas. Foi muito bonito, havia blocos com bandinhas de pessoas do próprio bairro... é um processo por meio do qual as pessoas vão se acostumando a usar o espaço público. Olhe o exemplo do lixo. Todos os blocos tiveram, depois de passar, o trabalho da Amlurb [Autoridade Municipal de Limpeza Urbana]. Mesmo a Vila Madalena ficou absolutamente limpa. Agora teve sujeira em alguns espaços privados, como postos de gasolina, onde a prefeitura não pode entrar e limpar. Mas como é um espaço aberto, as pessoas deixaram lixo ali. Aí a TV Globo vai e filma exatamente esse lugar para dizer que a cidade continua suja. Mas é um espaço privado...

 

CC: O Rio de Janeiro é um modelo a ser seguido?
NB: Há vários aspectos do Carnaval carioca bastante interessantes para São Paulo, como esse caráter de bloco de rua, formado por cidadãos e o mais distribuído possível pelos bairros. As pessoas ganham alternativas e não precisem obrigatoriamente se deslocar pela cidade. Mas, veja, não sou contra o deslocamento, isso faz parte de uma metrópole. O ruim é não se deslocar porque não tem no seu bairro. A concentração dos blocos ainda é excessiva entre Pinheiros e Sé, metade dos blocos da cidade estão nessas duas regiões. Mas já é menos do que no ano passado. Também não queremos blocos patrocinados. O que a Prefeitura precisa é dar as condições necessárias, como neste ano, cuidar de banheiros, trânsito, saúde. Criar condições para o evento acontecer. Nosso modelo não pode ser Salvador, onde você vende o abadá e tem cordas, e só quem paga pode entrar. Não queremos isso em São Paulo.


CC: O subprefeito de Pinheiros deu declarações em outra direção, falou até em revista de foliões e na criação de uma espécie de "perímetro de segurança" para o Carnaval...
NB: O subprefeito nunca falou isso, houve um entendimento equivocado da imprensa. Não temos nenhum interesse em fazer revista e nem a PM vai querer fazer. O que deve ser evitado são pessoas com garrafas de vidro, pelos riscos que geram à população. Mas não será com revista, nem com controle policial no início do bloco.

 

CC: E quanto à postura da Polícia Militar, que reprimiu os foliões com bombas?
NB: Assim como a população precisa aprender a usar o espaço público gradativamente, também a polícia precisa ser preparada. Claro, são necessários certos limites. A PM precisa ser orientada, entretanto, para não partir para a repressão, precisa ter compreensão e calma.