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Na trilha dos paparazzi

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 25/09/2009 15h23, última modificação 21/09/2010 15h25
O endereço mais em alta hoje no Rio é a rua Dias Ferreira, no Leblon. Uma espécie de Oscar Freire sem empáfia aparente e sem grifes internacionais.

O endereço mais em alta hoje no Rio é a rua Dias Ferreira, no Leblon. Uma espécie de Oscar Freire sem empáfia aparente e sem grifes internacionais. Estas ficam na ipanemense Garcia D’Ávila ou confinadas no Shopping Leblon ou São Conrado Fashion Mall. E o número mais quente da Dias Ferreira é o 417, onde antes, por razões “bairrístico-administrativas”, ficava a Biblioteca Regional da Lagoa (mesmo estando no Leblon), e agora se encontra a livraria Argumento. A rua, a mais antiga do Leblon, é trilha de celebridades e trincheira dos paparazzi.

As cidades se modificam nem sempre para melhor no bater de corações, que embora fujam do saudosismo não conseguem evitar a melancolia diante de certas desconstruções. É o caso do 417 da Dias Ferreira, no coração desta colunista. De edifício residencial, de três pavimentos, sem elevador, quatro apartamentos por andar, dois quartos e varandinha, o assobradado azul e branco virou, há uns cinco anos, um desajeitado, mas dito charmoso, cantinho fashion, destoado por um consultório dentário que veio antes.

A revisita ao “novo” 417 da Dias Ferreira aconteceu não sem alguma resistência, por culpa daquele sentimento centrífugo que mora entre o passado e o presente e que não deixa ir em frente sem puxar para trás. Uma prosa de aquecimento com o porteiro gelou ainda mais a perspectiva de rever o prédio por dentro.

Ao saber que estava diante de uma antiga moradora, o rapaz deu de ombros e disse, desconversando, que nem tinha nascido em 1979. Para ele, orgulhoso de sua juventude e de sua ignorância a respeito do lugar onde trabalhava, “o edifício sempre tinha sido assim”. O melhor a fazer então era encarar as benfeitorias.

O resultado de transformar o prédio em um amontoado de lojinhas de grifes alternativas e sofisticadas, e isso não é exclusividade do 417 nem da Dias Ferreira na zona sul carioca, foi o esquartejamento dos apartamentos. Assim, retalharam salas, fatiaram quartos, desconfiguraram as pequenas cozinhas, espatifaram os banheiros, despedaçaram as áreas de serviço e mudaram o destino das portas.

Os novos acessos do 417 adentram microestúdios, com cheiro de cappuccino na máquina, araras de roupas, prateleiras de sapatos, cabides para bolsas e outros trecos, enquanto descoladas se esbarram nas magras escadas e nos corredores do prédio. Mas quem se importa se o bizu é ali? E os paparazzi podem estar lá embaixo?

Para a geração do porteiro desinteressado, além da Dias Ferreira 417, o Leblon também não era como é. Morar lá na década de 70 era uma espécie de exílio da cultura pop que impregnava Ipanema e, ainda então, Copacabana.

Era árduo arrastar os amigos para a praia em frente ao finado cine Miramar e convencê-los de que o demolido Luna Bar era um tremendo fim de noite. Com o tempo, o pessoal foi migrando, os arrependidos da Barra pediram arrego em busca de aconchego, o bairro virou moda e explodiu no ranking imobiliário.

Voltar a um pedaço do que foi o seu quarto e o quarto de seus pais e pisar numa nesga da velha cozinha, agora pintada de pink, é como achar o diário perdido e desfolhado que era escrito todas as noites na varandinha do apartamento 301.

Nele havia um poema tatibitati dedicado ao Leblon de então: Essas ruas sempre foram ruas/Fui eu quem as fez jardim. O porteiro, até por força de sua função, não tem mesmo nada a ver com isso.

Ana Maria Badaró morou no nº 417 da Dias Ferreira na década de 70 do século passado.