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Na morte de Campos, o selfie, o sorriso e o sem noção

por Rosana Pinheiro-Machado publicado 18/08/2014 13h30, última modificação 18/08/2014 13h42
Acidente com candidato faz emergir o profano que insiste em estragar o ritual sagrado. E faz de nós educadores do que pode e não pode ser feito diante do trágico
Chico Peixoto / Fotos Públicas
Enterro Eduardo Campos

Jornalistas e curiosos se amontoam para fotografar o caixão de Eduardo Campos

Da queda do avião ao velório, histeria, comoção e especulação têm marcado o cenário nacional. Há quem diga que precisamos de mártires. Há quem alegue que é tudo manipulação da mídia. Há também aqueles que acusam de manobra eleitoral, enquanto que outros repudiam a falta de etiqueta funeral. Para mim, o que escancaramos nesses dias de luto é a nossa profunda inaptidão diante da morte.

Primeiramente é preciso reconhecer que vivemos em um momento político que remete a certo estado de liminaridade, transição e communitas, o qual se dá entre as Jornadas de Junho e as eleições presidenciais. Emoções e reações afloradas marcam um período de confusão e polaridade.

A morte de Eduardo Campos insere a transição dentro da transição, a confusão dentro da confusão, o ritual de passagem sagrado dentro da liminaridade profana e a morte da “terceira via” em um processo que, de fato, andava bastante polarizado.

Nesses dias de tanta efervescência e excepcionalidade, minha reflexão tenta apreender as reações (de conteúdo altamente inflamável) que tomam conta do país. Por quê?

Como mencionei, um dos motivos de tamanho fervor deve-se à morte trágica de um jovem político em pleno momento histórico peculiar. Mas entendo também que existe algo que transcende tudo isso, que é a necessidade de encarar e discutir a morte. E nesse assunto somos todos marinheiros de primeira viagem, verdadeiras baratas tontas tentando enquadrar a postura correta do luto.

O primeiro momento pós-tragédia foi a comoção. “Chocado (a)...” foi provavelmente a palavra mais compartilhada nas redes sociais. Observando as reações em minhas redes, ponderei que a morte de Campos aterrorizou os brasileiros por ser uma questão de identificação. A comoção nacional parece estar diretamente relacionada a uma proximidade forjada com a vítima, mas principalmente com a morte em si. O medo daquilo que mais nos acovarda, daquilo que faz escondermo-nos debaixo da cama.

Depois do choque inicial, tornamo-nos verdadeiros educadores do que pode e do que não pode na hora da morte.

Falar da sucessão não pode nas primeiras horas: é falta de respeito, mesmo que esteja todo mundo pensando sobre o assunto. Mas sempre vem o sem noção que irá falar o que os outros não têm coragem. Porque a dor, infelizmente, não apaga a nossa memória, e ela pode sim conviver com a curiosidade.

Sorrir também não pode: é falta de respeito, mesmo que memórias e palavras reconfortantes cheguem ao encontro daqueles que passam horas a fio em um velório.

Selfie não pode de jeito nenhum: é falta-de-respeito-nível-máximo, mesmo que o velório seja um verdadeiro ritual público e político. Cria-se um espetáculo da morte, com todo o aparato da mídia ao redor (inclusive com Rede Globo filmando a lágrima dos familiares), mas o sujeito que quer fazer parte daquilo por meio de seus recursos audiovisuais é rechaçado.

É preciso admitir que as selfies acompanharão o velório de qualquer figura pública na era das polimídias. Afinal, o sem noção e os secadores são personagens clássicos de qualquer velório – a diferença é que agora eles estão munidos das tecnologias digitais. Aqui, o sem noção pode ser o Obama no velório de Mandela, um mero desconhecido se debruçando sobre o caixão de Eduardo Campos ou mesmo a sucessora que se presta a tirar fotos com fãs.

Mas eu gostaria aqui de relativizar um pouco a demonização das fotografias – por mais difícil que seja. Lendo o trabalho mais recente do antropólogo Daniel Miller sobre selfies, mortes e vidas, tendo a concordar com ele sobre a produção de imagens reforçar laços sociais. No caso de Campos, revela admiração com a vítima, procurando criar um elo para a posteridade. Ele não deixa de ser uma personalidade – e muito menos um político – porque descansa dentro de um caixão. Sim, queremos “aparecer”, mas esse “aparecer” se dá em uma tríade constituinte de vínculos entre a vítima, o sem noção e suas redes sociais. O que motiva as imagens pode ser visto como narcisismo e vazio. Eu prefiro achar que é mais uma forma de afeto.

Das duas, uma: ou partimos do princípio que a maioria da população sofre de depravação moral (e só nós, os poucos que sobram, dominamos a etiqueta funeral) ou tentamos admitir que, definitivamente, não sabemos lidar com a morte, não falamos da morte e fingimos que a morte não existe, provavelmente devido ao antropocentrismo que marca as culturas ocidentais. Olhamos para os outros, julgamos que a variável “dor” deveria ser isolada e consideramos uma aberração todos os pequenos atos de vida que surgem e nos desorientam no ritual da morte.

Fotografias, piadas e fofocas políticas podem ser agressivas e machucar ainda mais aqueles que sofrem genuinamente. Mas é hipocrisia não perceber que isso faz parte de todo e qualquer acontecimento social, principalmente dos velórios, que nos colocam frente-a-frente ao mostro chamado morte. Cada um com sua válvula de escape. Os sem noção são parte de nossa dimensão mundana, que insiste em atrapalhar o ritual sagrado. E que continuemos falando, brigando e discutindo a etiqueta funeral, pois tudo nos ajuda, coletivamente, a encarar o nosso maior inimigo, a lidar com o nosso maior medo e nos restabelecermos da dor que sentimos da nossa (quase) morte naquele avião.