Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Mundo mix

Sociedade

Crônica do Villas

Mundo mix

por Alberto Villas publicado 26/09/2013 11h05
Quem compra uma canga com a estampa de uma arara, um índio, uma mulata, o Cristo Redentor, um tucano e uma vitória-régia?

Já contei, não sei se aqui, a paixão que o meu pai tinha por souvenir. Ele vivia viajando por esse Brasil afora e por onde andava sempre comprava um souvenir. Era uma paixão mesmo. Ia ao Ceará e chegava de lá com uma pequena jangada. De Ouro Preto, trazia quilos de réplicas de Aleijadinho em pedra sabão, de Porto Alegre, uma vez, trouxe um chimarrão com os dizeres “Estive no Rio Grande do Sul”.

Era sempre assim, ele chegava com aquelas bugigangas e ninguém podia rir ou dizer que aquilo era horrendo. Minha mãe elogiava, colocava em cima de algum móvel e depois de alguns dias escondia aquela coisa medonha lá no sótão. De dez vez em quando ele dava falta e perguntava.

- Onde foi que vocês enfiaram aquele tuiuiú empalhado que eu trouxe de Cuiabá?

Era um deus nos acuda pra achar o bicho e voltar com ele para nossa sala de visitas, para vergonha de todos nós. O meu pai era mesmo apaixonado por essas coisas. De São Lourenço, um dia ele trouxe um caneco plástico rosa choque tipo cheguei, escrito “Lembrança de São Lourenço”. Nunca me esqueci desse caneco. Do Acre, trouxe um pequeno tronco de seringueira que parecia jorrar látex nunca canequinha com os dizeres: “Recordação do Território do Acre”.

Nossa casa parecia uma verdadeira agência de turismo. Tinha tucano da Amazônia, um peixe de argila do Mercado Ver o peso de Belém, os arcos do Palácio da Alvorada que vieram de uma viagem que ele fez quando Brasília nem era Brasília direito. Em cima da cristaleira tinha uma sombrinha de frevo que veio diretamente do Recife, um chapéu de couro vindo lá da Paraíba e um carro de boi com dois boizinhos que ele comprou em Uberaba.

Quando o meu pai saiu do País pela primeira vez, trouxe uma mala cheia de lembranças. Um abajur em forma de Torre Eiffel de Paris, uma espanhola tocando castanhola de Madri, uma cabine de telefone vermelha de Londres, Rômulo e Remo mamando numa loba de Roma, um tamanco de Amsterdã e um avental com aquela estampa do galo, diretamente de Portugal.

Minha pobre mãe já não sabia mais o que fazer com tantas recordações. Um dia, ela não sabia onde enfiar a cara de vergonha e confessar ao meu pai que havia quebrado a tocha da estátua da Liberdade, uma miniatura que ele trouxe de Nova York.

O tempo passou e, sinceramente, não tenho a menor ideia onde foram  parar aquelas bugigangas todas que o meu pai comprou nos seus setenta e poucos anos de vida. O tempo passou, mas as coisas não mudaram muito não. Na última viagem que fiz a Minas, no meio do caminho tinha um carro de boi bem parecido com aquele que o meu pai comprou um dia em Uberaba, só que estava escrito “Lembrança de Uberlândia”.

Hoje, percebo que o hit são os mix. Você chega em Londres e encontra, juntos num só painel, a rainha Elizabeth dando tchau, um táxi preto, um ônibus vermelho, uma cabine de telefone, a Tower Bridge e os Beatles atravessando a Abbey Road.

Já vi em Paris uma daquelas bolas de segurar peso onde juntaram, num só ambiente, o Arco do Triunfo, a Torre Eiffel, o Beaubourg, a Notre Dame, o Moulin Rouge, o Sacré-Coeur, um croissant, uma baguete, um pedaço de camembert, um carro 2CV, tudo isso debaixo de uma neve se você vira a bola de cabeça pra baixo.

Mas confesso que o que eu gosto mesmo são aquelas cangas pra gringo que vendem na praia de Ipanema. Um mix de tucano, índio, mulata sambando, calçada de Copacabana, arara, bondinho do Pão de Açúcar, Cristo Redentor, Maracanã e aquela que não pode faltar nunca, a nossa vitória-régia.