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Mulheres jovens e aids: Foco na campanha de carnaval mostra o quanto o HIV é democrático

por Agência Aids — publicado 08/03/2011 09h00, última modificação 07/03/2011 10h28
A prática do sexo seguro entre adolescentes e jovens ainda está bem longe dos níveis ideais relativos à prevenção e à saúde. Por Camila Pinho

Por Camila Pinho*

Desde o surgimento do primeiro caso de aids, observamos mudanças significativas no perfil epidemiológico da doença no Brasil e no mundo. Com o passar dos anos, a aids deixou de ser a doença de alguns grupos específicos (homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas e profissionais do sexo) para mostrar sua força, pode-se dizer, de maneira mais democrática.

As diferenças de gênero e socioeconômicas, a violência contra a mulher e os preconceitos de todos os tipos, cada vez mais marcantes, tornaram altamente vulneráveis as mulheres de todas as faixas etárias e camadas sociais. E, nos últimos tempos, temos observado um crescimento elevado em mulheres jovens entre 15 e 24 anos.

A iniciação sexual feminina, no Brasil, é precoce e acontece por vários motivos. Desde a manifestação espontânea, pressão social, coerção de homens mais velhos, até por pura violência física. Há ainda o comércio informal de sexo, em troca de dinheiro, proteção, alimentação ou habitação. Meninas jovens são procuradas porque se acredita que são “seguras” e não infectadas com o HIV. Adolescentes que vivem e trabalham nas ruas muitas vezes se envolvem no comércio sexual e vivem em circunstâncias bem difíceis.

A prática do sexo seguro entre adolescentes e jovens ainda está bem longe dos níveis ideais relativos à prevenção e à saúde. Além de alguns dados disponíveis sobre o uso de preservativos por jovens revelarem a necessidade constante de trabalho educativo junto a essa população, há um número elevado de jovens grávidas, situação que, inevitavelmente, revela práticas sexuais desprotegidas.

Os jovens carregam em si a certeza da imunidade a todo e qualquer problema. Acreditar que a aids é um problema que atinge somente os outros é o primeiro passo para se tornar vulnerável. Por causa deste pensamento, ao se descobrir portador do vírus, o jovem se surpreende e perde o chão. Desinformação, aceitação tardia da doença, entre outros problemas, impede a adesão ao tratamento, e, consequentemente, prejudica a qualidade de vida. Por outro lado, prejudica ainda o combate ao estigma da doença, pois é preciso fazer entender que saúde e qualidade de vida são possíveis mesmo sendo portador do vírus da aids. Se mais pessoas adoecem e morrem, esta informação torna-se falsa.

Por muito tempo, as mulheres foram invisíveis na epidemia e sua importância como grupo vulnerável tinha sido subestimada. As ações dirigidas às mulheres em grande parte se limitavam à prevenção da transmissão do HIV na gravidez, tratando a mulher como o meio, e não como finalidade da assistência e prevenção. O avanço da epidemia entre meninas jovens vem mostrando que a necessidade em se trabalhar a aids entre mulheres vai além.
Neste ano, o Ministério da Saúde mostra sua preocupação com as adolescentes e jovens na campanha de prevenção ao HIV no carnaval. Agora que este é o foco, é indispensável ampliar as ações de orientação, prevenção e promoção à saúde sexual e reprodutiva das jovens.

Profissionais de saúde, professores de escolas públicas e particulares, universidades, sociedade civil e programas locais de combate ao HIV/Aids precisam se articular para desenvolver ações mais concretas e incisivas para esta população.

Uma campanha apenas, em determinada época do ano, não modifica uma situação tão urgente de avanço da epidemia. Ações isoladas dos movimentos sociais também não.
Não trabalhar assuntos relacionados ao sexo e sexualidade nas escolas, local onde a/o jovem passa a maior parte do seu tempo, seu local de formação e de construção da personalidade, também é um engano.

Precisamos é somar todas essas ações e dar destaque para a educação entre pares: jovem falando para jovem sobre as DST/aids.

*Camila Pinho é integrante da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo Com HIV/Aids

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