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Muito além da caricatura

por Redação Carta Capital — publicado 18/07/2012 13h50, última modificação 18/07/2012 14h25
Alheios a definições sobre 'classe C' ou 'nova classe média', trabalhadores que incrementaram a renda contam como a vida mudou (e para melhor)
classe C 2

Ascenção da nova classe média é retratada até na novela da Globo. Foto: Foto: Avenida Brasil / TVGlobo

Por Amanda Lourenço

 

Nunca a classe média foi tão representativa no Brasil: o percentual da população definida nesta categoria pulou de 35% para quase 60% nos últimos 20 anos. Com o aumento do poder de compra, os hábitos mudaram e a chamada nova classe C passou a ter acesso a bens e serviços antes inacessíveis. A internet, por exemplo, deixou de ser artigo de luxo e se incorporou à rotina do novo segmento.

Os impactos desta ascensão na economia são evidentes. “No curto prazo isto se refletiu nas vendas maiores do comércio varejista e, consequentemente, nos resultados das empresas. Fato interessante é que essa nova classe média também busca os produtos que valorizam as respectivas origens e não o estilo de vida das elites”, explica Gílson de Lima Garófalo, professor de economia da PUC-SP. Para se aproximar deste público, diversas empresas começaram a se mover para atender à nova demanda, ampliando a oferta de produtos tecnológicos, de higiene e beleza e serviços educacionais e bancários.

Na outra ponta, economistas, institutos de pesquisa de mercado e até novela da Globo se debruçam sobre o grupo para retratar (ou se aproximar) do fenômeno. Tanta atenção repentina começa a gerar reações entre estudiosos e lideranças do próprio grupo. Em maio, o economista Marcio Pochmann, então presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), lançou um livro para apontar as diferenças entre a classe emergente e a classe média tradicional, essa última mais politizada e propensa a um consumo consciente. Em entrevista a CartaCapital, alertou para o esgotamento do fenômeno, que precisaria agora de um salto educacional para se firmar. No último fim de semana, o estudante de letras Leandro Machado, colunista da Folha de S.Paulo e morador de Ferraz de Vasconcelos (SP), causou frisson na internet ao ironizar, em artigo intitulado “De repente, Classe C”, a caricaturização de grupos historicamente marginalizados. Em outras palavras, minimizava o fato de ter acesso a bens de consumo como geladeira nova e ainda ter medo de enchentes e do transporte público ainda precário de sua cidade.

Foi como se apontasse um fosso entre a evolução financeira e a qualidade de vida adequada – esta sim “artigo de luxo” restrito às elites. Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto Data Popular, pondera: os avanços sociais não se limitam apenas ao aumento da renda média do brasileiro. “Esse empoderamento é transferido para esferas culturais e políticas, sim. É uma mudança radical na maneira de pensar”, afirma Meirelles. E completa: “68% da nova classe média estudou mais que seus pais. Estão mais conectados, mais conscientes, mais viajados. Isso tudo provoca uma mudança radical na vida das pessoas”.

A discussão, de toda forma, mostra que ainda é difícil classificar a nova classe média num mesmo perfil. Não é todo representante desse grupo que é morador de área conturbada e sacoleja 3 horas no ônibus para chegar ao trabalho. Pelo contrário. Tem gente que aproveitou o desenvolvimento local para abrir seu próprio negócio, ou se beneficiou da internet para vender seus serviços. Muitos moram em cidades pequenas ou mesmo na periferia de metrópoles, mas estão muito satisfeitos com sua nova condição. Reconhecem que sua vida mudou muito, para melhor.

É o caso de Luciana da Silva, técnica de enfermagem de 23 anos, moradora de Itaquera, zona leste de São Paulo. Luciana ainda mora com os pais, mas se deu um prazo de dois anos para sair de casa. Seu pai é porteiro, sua mãe, costureira, e o salário dos dois dá uma soma menor do que o salário da filha. “Nossa vida melhorou muito nos últimos anos. Antes tínhamos que fazer um esforço enorme, agora parece que tudo ficou mais fácil”, diz a técnica de enfermagem.

A vida também melhorou para Natália e Cleiton Oliveira, moradores de Juiz de Fora, Minas Gerais. Ele é fotógrafo e ela faz artesanatos e complementa a renda como manicure. Natália criou um blog para expor suas peças e boa parte de suas vendas é feita graças a essa divulgação. Cleiton trabalha em uma empresa com carteira assinada ganhando 750 reais, mas também é freelancer fotografando festas e eventos e dependendo do mês, fatura até 2500 reais no total. O casal têm duas filhas de 7 e 2 anos. A diferença entre a renda e as despesas é pequena, mas eles fazem questão de economizar um pouco todo mês para pagar o casamento que estão planejando, que custa 15 mil reais.

Já o carioca Ricardo Freitas, de 33 anos, mantém um comércio de venda de açaí no bairro de Olaria que comemora seis anos. Segundo ele, “o melhor açaí da região, quiçá do Rio de Janeiro inteiro!”. Com lucros entre 3500 e 4000 reais mensais, a loja não vende suco de frutas ou sanduíches: mantém a exclusividade do açaí. Ricardo não tem filhos e se separou da mulher há quatro meses.

Pedimos a esses três representantes da classe média para abrir a carteira e mostrar exatamente como gastam seu dinheiro. Nem sempre é fácil pôr todas as despesas na ponta do lápis, às vezes o dinheiro vai embora e o dono nem sabe pra onde foi. Aluguel, gás, luz fazem parte do grupo dos incontornáveis, mas viagens, bares e eletrodomésticos também marcam presença na lista de despesas. A poupança passou a ser um item importante para os três entrevistados.

As despesas variam de acordo com o estilo de vida. O casal com filhos acaba gastando mais no supermercado do que em bares e restaurantes, enquanto Luciana gasta boa parte de seu salário com lazer. Ricardo diz que anda mais de táxi do que de ônibus, um luxo que suas prioridades permitem.

São pequenas mudanças nos hábitos que, aos poucos, provocam transformações a longo prazo. “Os programas inclusivos do governo federal recentemente elaborados e em execução provocarão, seguramente, a diminuição das classes D e E. Isto acontecerá como consequência da queda da desigualdade social e da ascensão para outros segmentos econômicos, ou seja, para essa classe média”, explica o professor Gílson de Lima Garófalo.

 

Renda

Natália e Cleiton: cerca de 500 reais, ela e 1800 reais, ele. Mais 350 reais de pensão da filha mais velha. Total de 2650 reais.
Luciana: 2200 reais.
Ricardo: entre 3500 e 4000 reais.

Despesas

 

Aluguel e condomínio
Natália e Cleiton: 500 + 5 reais (15 reais de condomínio a cada 3 meses)
Luciana: - (os pais são responsáveis)
Ricardo: 800 + 350 reais

Luz, gás e água
Natália e Cleiton: 80, 20 e 20 reais
Luciana: -
Ricardo: 245, 20 e 60 reais

Telefone e internet
Natália e Cleiton: 50 reais
Luciana: 59 reais
Ricardo: 270 reais

TV a cabo
Natália e Cleiton: 79 reais
Luciana: 89 reais
Ricardo: não tem

 

Celular
Natália e Cleiton: 15 reais
Luciana: 70 reais
Ricardo: 60 reais

Supermercado
Natália e Cleiton: 600 reais
Luciana: 200 reais
Ricardo: 200 reais

Crianças
Natália e Cleiton: 200 reais (a filha mais velha vai à escola pública e a mais nova fica com a mãe. Ganham a maior parte das roupas e brinquedos)
Luciana: -
Ricardo: -

Carro
Natália e Cleiton: -
Luciana: -
Ricardo: -

Transporte
Natália e Cleiton: 120 reais
Luciana: 100 reais
Ricardo: 40 reais de ônibus + 200 reais de táxi

Restaurantes/lanchonetes
Natália e Cleiton: 150 reais
Luciana: 150 reais
Ricardo: 300 reais

 

Cinema e bares
Natália e Cleiton: -
Luciana: 200 reais
Ricardo: 100 reais

Roupas
Natália e Cleiton: 100 reais
Luciana: 200 reais
Ricardo: 200 reais

Outros lazeres
Natália e Cleiton: 50 reais
Luciana: 150 reais
Ricardo: 200 reais

Material de trabalho
Natália e Cleiton: Natália gasta 200 de matéria-prima. O equipamento fotográfico de Cleiton é fornecido pela empresa
Luciana: -
Ricardo: Seu material já está incluso no capital da empresa

Plano de saúde
Natália e Cleiton: -
Luciana: 111 reais
Ricardo: 197 reais

Móveis/eletrodomésticos
Natália e Cleiton: -
Luciana: 750 reais parcelados em 5 vezes
Ricardo: 350 reais

 

Férias e viagens de lazer
Natália e Cleiton: 60 reais (600 reais em férias uma vez por ano e o resto em escapadas nos feriados)
Luciana: 150 reais (sua última viagem de férias foi para Foz do Iguaçu, gastou 1200 reais. A próxima será Porto Seguro. Também viaja em fins de semanas e feriados)
Ricardo: 120 reais por mês (não costuma tirar férias longas por causa de seu negócio, mas viaja quando pode. No último final de semana esteve em Goiás por 2 dias).

Outros
Natália e Cleiton: 300 reais
Luciana: 170 reais
Ricardo: -

Poupança
Natália e Cleiton: cerca de 150 reais
Luciana: cerca de 400 reais
Ricardo: o que sobra

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