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Movimento em movimento

Passe livre Já

por Lucas Conejero — publicado 23/02/2011 16h40, última modificação 30/10/2011 22h51
Com imensa honra inauguro aqui a coluna Movimento em Movimento. Meus artigos tratarão de temas ligados aos movimentos sociais e têm intuito de suscitar o debate em torno da ação direta. Por Lucas Conejero

Com imensa honra inauguro este espaço no site de CartaCapital. Meus artigos tratarão de temas ligados aos movimentos sociais e têm intuito de suscitar o debate em torno da ação direta

No começo do mês de janeiro, o preço da passagem nos coletivos da capital paulista saltou de R$2.70 para R$3, a maior tarifa do Brasil. Justificado pela prefeitura em contestável planilha de custos produzida pela São Paulo Transportes, o reajuste causou revolta e agitação no movimento estudantil paulistano.

Nos últimos dois meses, quase uma dezena de atos convocados pelo Movimento Passe Livre aconteceram nas ruas da cidade. O maior deles contou com aproximadamente quatro mil pessoas. O último, na quinta-feira, 17, terminou em pancadaria entre policiais e manifestantes no Viaduto do Chá.

Passe Livre Já

Organizado de maneira horizontal e sem vínculo com partidos, o Movimento Passe Livre existe desde 2005. Fundado em plenária realizada no V Fórum Social Mundial, tem raízes nas revoltas populares que pararam a capital da Bahia em 2003 e a capital catarinense em 2004.

Nas duas ocasiões, estudantes independentes foram às ruas contra o aumento da tarifa nos coletivos. Em pouco tempo, receberam apoio da população, de alguns partidos políticos e de entidades como a UNE.

Em Salvador, o movimento não reverteu o reajuste, mas parou a cidade por dez dias, ficou conhecido como a Revolta do Buzu e passou a ser referência. Em Florianópolis, a Revolta da Catraca desestabilizou políticos da cena local, chegou a fechar as pontes de acesso à ilha durante os atos e conseguiu reverter o aumento da tarifa.

Desde então, o modelo de mobilização tem se espalhado por outras capitais do país e encontrou no péssimo e caríssimo transporte público paulistano terreno fértil para prosperar. Afinal, não há usuário – em sã consciência – que esteja satisfeito com o serviço prestado.

Heranças do AI-5

Na manhã do dia 14 de janeiro, um vídeo do cartunista e jornalista Carlos Latuff causou comoção e revolta em parcela da opinião pública. As cenas mostravam intensa e desnecessária repressão a um dos atos do MPL na cidade de São Paulo.

Nitidamente despreparados ou dispostos ao confronto, um grupo de aproximadamente 600 estudantes - quase todos secundaristas – foi disperso da Avenida Ipiranga sob balas de borracha e bombas de efeito moral. Não satisfeita, a PM perseguiu a vanguarda do Movimento pelas ruas do centro e efetuou dezenas de prisões.

Movimento estudantil livre

Estive presente em quase todos os atos do MPL em São Paulo. No primeiro contato com a militância, a quantidade de secundaristas nas fileiras da marcha impressionou. Acostumado com passeatas repletas de universitários ligados a partidos e organizações estudantis, percebi que havia algo diferente e interessante naquilo tudo.

Depois de algumas entrevistas, notei que os quadros são realmente independentes. Nenhum de seus representantes têm vínculo com siglas de esquerda e as respostas passam longe da ladainha de quem usa o movimento como trampolim político ou aparelho de partido.

A história do movimento estudantil mostra que mobilizações lideradas pela burocracia geralmente terminam em reuniões de gabinete, com conquistas inexpressivas e decisões impostas de cima para baixo. Ao que parece, o MPL sabe disso.

Amanhã vai ser maior

A Frente Única Nacional do MPL tem como principal objetivo o passe livre estudantil. Mas isso não impede uma perspectiva mais ampla por parte dos envolvidos na causa.

A militância acredita na intensificação gradativa das mobilizações e na ação direta pacífica como via principal para um transporte coletivo fora da iniciativa privada e sob controle dos trabalhadores e usuários.

Tal conquista, seria passo imprescindível na construção de uma realidade mais justa, solidária e preocupada com a questão do meio ambiente.

Certa vez, nas montanhas do sudoeste mexicano, Sub-comandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional, escreveu: “Nós pensamos que a transformação revolucionária não será produto da ação em um único sentido. Isto é, não será, em sentido restrito, uma revolução armada ou uma revolução pacífica. Será, primordialmente, uma revolução que resulte da luta em variadas frentes sociais, com muitos métodos, sob diferentes formas, com graus diversos de compromisso e de participação.”  Concordo com o sub-comandante e pelo visto, a garotada também.

O próximo ato do MPL acontece nesta quinta-feira às 17 horas na capital de São Paulo com concentração no Teatro Municipal. O movimento promete manter o bloco na rua até derrubar o reajuste.

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