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Morros do Rio, resquícios de Canudos

por Coluna do Leitor — publicado 17/12/2010 10h59, última modificação 17/12/2010 12h02
O leitor Elias Botelho lembra que a favela se originou no massacre do arraial baiano e cobra o resgate da dignidade dos morros

Por Elias Botelho

Em 05 de outubro de 1897 foram mortos os últimos defensores do arraial de Canudos na Bahia. O Estado naquela ocasião resolveu também pôr fim na comunidade que aparentemente se insurgia contra a soberania da recém-criada República. O massacre contra a vida de miseráveis, foi sem dúvidas, uma das maiores barbáries patrocinadas pelo Estado.

O desconhecimento acerca do que muitos chamavam de jagunços e fanáticos, liderados por Antônio Conselheiro, levou o então presidente (im) Prudente de Morais a autorizar o fuzilamento de uma comunidade estimada em mais de quinze mil pessoas. Sem dados concretos sobre os reais propósitos do Conselheiro e seus seguidores, pobres e sem terra, a facção mais radical do partido Republicano se declarou a favor da eliminação de Canudos como sendo um grande mal para República.

Não fosse o respeitado repórter do jornal do Estado de São Paulo, Euclides da Cunha, teríamos como verdade aquilo que membros da república quiseram demonstrar para o resto do país e do mundo. No seu brilhante relato sobre o que chamou de guerra, o escritor chegou a conclusão de que em vez do governo ter mandado soldados para extirpar ignorantes, deveria enviar educadores para ensinar aquele povo, ou seja, transformar analfabetos e excluídos em pessoas civilizadas, capazes de progredirem para sobreviverem dignamente.

O Massacre acabou e os milhares de soldados foram enviados ao Rio de Janeiro pelo Governo que lhes prometera doar casas além de pagar os soldos atrasados. Sem condição de arcar rapidamente com o acordado, esses soldados ocuparam os pés dos morros cariocas, que seriam provisórios, e por lá permaneceram. Dessa ação, depreende-se que o governo exterminou pobres que viviam num lugar quase que inóspito e trouxe os seus “algozes” para formar outra comunidade de miseráveis sem nenhum planejamento.

Logo, soldados e ex-escravos transformaram os morros num amontoado de casas irregulares formando as conhecidas favelas, em referência ao “Monte da Favela”, existente em Canudos como narrou Cunha em Os Sertões: "O monte da Favela, ao sul, empolava-se mais alto, tendo no sopé, fronteiro à praça, alguns pés de quixabeiras, agrupados em horto selvagem. À meia encosta via-se solitária, em ruínas, a antiga casa da fazenda...”

Os anos se passaram e nenhuma política satisfatória foi implantada capaz de conter as invasões de outros morros de forma organizada, que pala situação geográfica de ambos, serviu de esconderijos aos que pela sorte, ou por opção, acabaram engrossando a fileira do que o Estado por suas leis denominaram delinqüentes.

Hoje totalmente povoados, e depois de décadas tirando o sono de estudiosos, políticos, polícias e os que neles residem. Cada qual com sua opinião acerca do problema ali existente e sem uma solução unânime, o Estado, coagido pela opinião pública e ações de “traficantes”, resolve pôr fim na situação. Simetricamente, Becos, Ruelas e Vielas foram tomados por homens armados sob olhares diversos.

28 de novembro de 2010, domingo de manhã, 113 anos depois do massacre de Canudos, várias emissoras de rádio e TV deram cobertura total à mega-operação de ocupação do complexo do Alemão. Imaginei, de logo, isso não vai ser bom... Sim, uma grande emissora trancar sua programação normal, para focar em outro assunto fora de sua grade, deve ser algo no seu sentir, sensacional e de indubitável repercussão. No entanto, para muitos, a cobertura televisa foi “positiva”, pois acabou servindo, pelo menos, para livrar os supostos traficantes de um massacre quando estes partiram em retirada do Morro do Cruzeiro para o Morro do Alemão.

Antes do começo da ocupação, confesso que me bateu uma angustia, imaginava como em Canudos: homens tombando, sangue jorrando, uma carnificina e, o pior, ao vivo. Para alegria de muitos, o bom senso prevaleceu. Alguns tiros, apenas... Até porque não existe “guerra” sem som de tiros, bombas e outros artefatos.

Acalmado tudo, passamos a ouvir das autoridades governamentais, o sucesso e as glórias por ter finalmente o bem vencido o mal. De outro lado, analistas, comentaristas e especialistas em segurança pública davam suas opiniões que nem sempre coincidiam com tais autoridades. Uns acham que tal operação não passou de uma farsa que impedirá momentaneamente conflitos entre grupos criminosos. Outros afirmam que a maior causa da violência urbana é a corrupção policial e as milícias. Outros questionavam a legalidade das incursões aos morros, ante as denuncias dos seus moradores sobre agressões sofridas por policiais.

Por tudo que ocorreu na ocupação do Complexo do Alemão, temos sempre a considerar que pessoas trabalhadoras e honestas que vivem nessas localidades merecem verdadeira tranqüilidade, e não uma farsa. Que não ouçamos mais falar no “chamado poder paralelo” que determina horários e cobra pedágios. E, mais do que nunca, o Estado que por inconseqüência, há mais cem anos, abandonou à própria sorte seus servidores (soldados combatentes de Canudos) aos pés dos morros, que resgata agora, a dignidade que não teve quando inventou uma guerra em nome de uma facção política, em detrimento de pobres miseráveis.

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