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Mudanças climáticas

Mitologia indígena e mudanças climáticas

por Marina Barbosa — publicado 13/08/2010 12h14, última modificação 13/08/2010 15h14
Por Marina Barbosa, Mestre em Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e especialista em desenvolvimento. Integrou a delegação brasileira na COP-15

Por Marina Barbosa, Mestre em Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e especialista em desenvolvimento. Integrou a delegação brasileira na COP-15
Na mitologia dos Baniwa, dos Yanomami e dos Desana, etnias que habitam o noroeste do Amazonas, estado localizado na fronteira do Brasil, com a Colômbia e a Venezuela, podemos encontrar explicações e advertências sobre as mudanças climáticas. 

Segundo André Fernando Baniwa, vice-prefeito do município de São Gabriel da Cachoeira, os efeitos do clima foram previstos por homens de grandes poderes. 

Existem relatos de que esses fenômenos já aconteceram em uma época remota da humanidade, quando se deu a ruptura da convivência harmônica entre os homens, as espécies de animais e a natureza.
Baniwa nasceu na comunidade de Tucumã-Rupitã, no Alto Rio Içana e foi entre 2005 e 2009 vice-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).

O mito da criação do mundo, que também se refere ao fim do mundo para os Yanomami, faz menção à “queda do céu”, momento em que, os homens, imersos nas águas do dilúvio, guerreavam com os seres mágicos. Essa imagem representa o maior medo que têm, segundo a premiada fotógrafa suíça Claudia Andujar, que trabalha com esse grupo há 40 anos. 

Para os Yanomami, estamos próximos disso acontecer, se não revertermos o processo de destruição atual, tal como nos dizem os Baniwa. 

José Maria Lana, habitante Desana do Alto Rio Negro e membro da direção atual da FOIRN, afirma que os indícios do que dizem os mitos já são perceptíveis. 

O sol hoje queima diferente, é bem mais forte. O período de floração mudou. As chuvas que antes aconteciam nos meses de abril e maio, agora se concentram nos meses de julho e agosto. A piracema – desova dos peixes – ocorre em local diferente. 

Tudo isso interfere no sistema de reprodução de espécies de animais e plantas, alterando os ciclos de alimentação dos povos da floresta e interferindo nos rituais tradicionais que são intimamente ligados aos ciclos da natureza. 

David Kopenawa Yanomami defende que a fumaça produzida pela ação do homem é a grande vilã. Esse xamã e líder de sua etnia, premiado internacionalmente, vive na comunidade de Watoriki, no Estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela. 

Proveniente das indústrias, das bombas, da combustão do petróleo e também o veneno invisível que sai da terra, durante a extração de minérios, a poluição é a causa das doenças, diz Yanomami. Atualmente muitas delas são desconhecidas dos xamãs, que até pouco tempo tinham métodos para lidar com as principais enfermidades que assolavam esses grupos. 

Esses alertas vem sendo preconizados por essas lideranças há décadas, mas ainda não tivemos a capacidade plena de ouvi-los, talvez pela dificuldade de compreensão da visão tradicional desses povos, carregada de símbolos e de linguagens associativas. 

Muito mais conscientes que os cidadãos das urbes da dependência que temos, como seres humanos, da natureza e das florestas, os indígenas têm muito a nos ensinar e podem nos levar à reflexão sobre o modelo de desenvolvimento adotado até agora. 

No mês de setembro de 2009, representantes desses grupos se reuniram em Manaus para elaborar a carta dos povos indígenas da Amazônia brasileira sobre as mudanças climáticas, que formou parte do Relatório I Força Tarefa sobre REDD (Reduções das Emissões por Desmatamento e Degradação das Florestas) e Mudanças Climáticas, documento apresentado pela delegação brasileira na conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas que se celebrou em Copenhagen em dezembro de 2009. 

A carta expressa a posição que possuem sobre o tema e reúne propostas de ações de mitigação, sobretudo, no que se refere à preservação da Amazônia e à contribuição do conhecimento tradicional na elaboração de novas estratégias frente às alterações do clima. 

É comprovado que as terras indígenas são mais eficazes para evitar o desmatamento das florestas e para reter carbono. Nesse sentido, essas lideranças reivindicam o direito de terem seus territórios tradicionais restituídos integralmente, e que sejam beneficiários dos pagamentos pelos serviços ambientais e do crédito de carbono, no marco da REDD, que poderia ter sido uma das poucas vitórias da COP-15. 

Além disso, solicitam que os fundos criados para conter o desmatamento sejam regulamentados de forma adequada às particularidades socioculturais dessas etnias e que os mecanismos criados se destinem à fortalecer as instituições indígenas e a fomentar os programas e projetos, elaborados por eles, para a preservação da biodiversidade e do conhecimento tradicional. 

Para esses povos, a floresta abriga locais considerados sagrados, habitados por seres “superiores”, que têm a capacidade de “curar o planeta” e de equilibrar os efeitos do aquecimento global, das alterações climáticas e das doenças. André Baniwa afirma que a tecnologia e o dinheiro são enganosos. O valor está na harmonia entre os homens e desses com a natureza. 

É de se esperar que os desdobramentos da COP-15 considerem o que essas etnias dizem há tanto tempo. 

Marina Barbosa, Mestre em Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e especialista em desenvolvimento. Integrou a delegação brasileira na COP-15.

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