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Na Espanha, aborto divide a sociedade

por The Observer — publicado 05/02/2014 05h55
Cresce a revolta em Madri contra uma lei que põe fim ao direito de uma mulher interromper a gravidez, exceto em casos de estupro ou necessidade médica
Dani Pozo / AFP
Aborto Espanha

Em Madri, milhares protestaram no sábado 1º para manter a lei do aborto atual

Por Ashifa Kassam

Dezenas de milhares de espanhóis foram às ruas de Madri em uma demonstração de força contra os planos do governo de reverter o acesso ao aborto no país. Agitando placas caseiras com mensagens como "Meus ovários: não dos padres, nem dos políticos", a multidão gritou e assobiou enquanto percorria um caminho sinuoso pelo centro de Madri no sábado. A polícia disse que mais de 15 mil pessoas participaram.

"Estamos aqui para protestar contra um governo que quer nos levar de volta ao tempo de Franco", disse um manifestante, Manuel Navarro. "Estamos regredindo com esta lei."

No final de dezembro, o Partido Popular, no governo, aprovou uma lei que reduziria severamente o acesso ao aborto no país. Desde 2010, as mulheres na Espanha têm o direito de interromper a gravidez até a 14ª semana. Em casos em que a saúde da mãe corre risco, ou quando o feto apresenta sérias deformidades, as espanholas podem interromper a gravidez até a 22ª semana. Sob as novas medidas apresentadas pelo governo, os abortos na Espanha só seriam permitidos no caso de estupro ou quando há risco para a saúde física ou mental da mãe. As mulheres que desejem abortar precisarão da aprovação de dois médicos para provar essas circunstâncias.

Carmen Veiga estava quase chorando ao observar a multidão. Durante os feriados, ela e algumas outras mulheres da cidade de Gijón, no norte da Espanha, tiveram a ideia de viajar a Madri para entregar uma carta ao governo pedindo que abandone a legislação. Os lugares em seu "trem da liberdade" se esgotaram em poucos dias, o que levou outras cidades de todo o país a fazerem o mesmo.

O resultado, disse Veiga, foi uma união dos movimentos de protesto de todo o país e a mais forte demonstração de força já vista desde que o governo anunciou as medidas, há pouco mais de um mês. "É incrível ver todas essas pessoas juntas para defender os direitos das mulheres", ela disse. "E é necessário – o que eles estão tentando fazer é uma reversão brutal dos direitos das mulheres."

Mais de 300 grupos trabalharam para organizar o protesto, o que se percebia na variedade de participantes, que iam de bebês a idosos. Grupos de mulheres indicaram que milhares de homens aderiram ao protesto.

"Esta lei nos afeta igualmente – também somos pais", disse Rodrigo Martínez Barrios, 20 anos. "Para mim parece uma volta à Idade Média." Ele também tinha suspeitas quanto ao momento da lei. "Os políticos estão usando essa questão para nos distrair das questões maiores – a corrupção, a crise, a economia deste país."

Uma mulher disse que havia acordado às 5h para fazer a viagem de 450 quilômetros de Santander a Madri. Carmen, que não quis dar seu sobrenome, olhava ao redor com nervosismo antes de explicar por que era tão importante para ela estar ali.

"Esta é a minha luta", disse com voz trêmula. Trinta anos antes, tinha viajado a Londres para um aborto. "Eu não falava uma palavra de inglês. Mas não sabia o que mais poderia fazer." Uma camisinha havia estourado e eles sabiam que não tinham condições de criar um terceiro filho.

"Foi de partir o coração. E foi ainda pior porque eu tive de deixar meu país para fazer isso, ou correr o risco de ser presa." Ela e seu marido juntaram todo o dinheiro que puderam, esvaziando suas poupanças para enviá-la a Londres sozinha. "Estou aqui hoje porque não quero que meus netos passem por isso", disse a mulher de 63 anos.

Sua voz se elevou quando ela acrescentou: "Não é possível que depois de 30 anos estejamos de volta à mesma situação. Isso significa que não avançamos como país".

As medidas propostas surgem enquanto as estatísticas mostram que o número de abortos na Espanha está diminuindo. Assim mesmo, as mudanças são defendidas pela Igreja Católica – uma força poderosa em um país onde 70% da população se dizem católicos. "A igreja quer voltar ao tempo em que ela nos controlava, nos sufocava. Eles querem nos fazer regredir", disse Mercedes López, uma manifestante.

O Partido Popular disse diversas vezes que o recuo nas leis do aborto era uma promessa eleitoral que agora deve cumprir. Enquanto as pesquisas mostram que entre 70% e 80% dos espanhóis são contra as mudanças, a posição do partido o colocou em conflito com seu eleitorado.

Nas últimas semanas o primeiro-ministro, Mariano Rajoy, atenuou sua posição sobre a lei. "A Constituição e diferentes opiniões serão levadas em conta", disse ele no Parlamento na semana passada. O Congresso espanhol, no qual o Partido Popular detém uma forte maioria, deverá votar a lei no final da primavera.

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