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Microcrédito, salvador ou verdugo

por Envolverde — publicado 28/02/2011 09h03, última modificação 28/02/2011 09h03
Campanha quer provar controvérsias sobre a capacidade desde mecanismo em combater a pobreza. Por Kanya D'Almeida

Campanha quer provar controvérsias sobre a capacidade desde mecanismo em combater a pobreza
Por Kanya D’Almeida, da IPS*
Nova York, Estados Unidos, 25/2/2011 – O informe do projeto Campanha da Cúpula de Microcrédito deste ano se concentrará na controvérsia sobre a capacidade deste mecanismo para combater a pobreza, questionada por acadêmicos, economistas e ativistas. O documento será apresentado no dia 7 de março em Washington pelo prêmio Nobel da Paz Moahmmad Yunus, fundador do Grameen Bank, em Bangladesh.
Yunus tem fama de super-homem que alivia a pobreza ou de Judas da mudança social, segundo o olhar de quem o vê. Desde que ganhou o Nobel, em 2006, uma chuva de dúvidas e críticas recaem sobre as instituições de microcrédito, cujos pequenos empréstimos são rotulados de “microcuras” para a ferida da desigualdade mundial.
O informe de Bem-Estar Global de 2010, do Instituto de Pesquisa do Crédit Suisse, aponta que 0,5% da população mundial, cerca de 24,5 milhões de pessoas, se tornaram milionárias no ano passado. Porém, há 925 milhões a mais vivendo na pobreza absoluta, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).
“Sessenta e cinco anos depois da fundação da ONU, a ordem mundial continua desigual e o sucesso de uns é a pobreza de outros em um mundo cada vez mais vergonhoso”, disse o representante permanente da Índia na Organização das Nações Unidas (ONU), Hardeep Singh Puri. Originário de um país onde vários milhares de aldeias funcionam graças ao microcrédito, mas também onde se suicidaram cem mil agricultores indigentes, as palavras de Puri indicam que as políticas de desenvolvimento não parecem estar funcionando.
“Em 1997, 2.900 pessoas de 137 países se reuniram em Washington para a primeira Cúpula de Microcrédito, quando nos comprometemos a chegar a cem milhões de famílias pobres até 2005”, disse à IPS Sam Daley-Harris, diretor da Campanha da Cúpula de Microcrédito. “Em homenagem ao nosso êxito, a ONU declarou 2005 Ano do Microcrédito”, afirmou. Ele se mostra otimista sobre as possibilidades do mecanismo para combater a pobreza, apesar de ter alcançado o objetivo dois anos mais tarde. Mas nem todos compartilham de sua opinião.
“Bangladesh e Bolívia são conhecidos por terem os programas de microcrédito de maior sucesso, mas continuam sendo dois dos países mais pobres”, disse Robert Pollin, um dos diretores do Instituto de Pesquisa em Economia Política da Universidade de Massachusetts. “Nada que seja para ajudar os pobres pode se basear na filosofia de famílias isoladas competindo entre si”, afirmou Farooque Chowdhury, um dos autores do informe de 2007 sobre Bangladesh, patrocinado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
“Os pobres têm de se unir e enfrentar a ideologia do mercado e seus aliados e o capital desenhado para submetê-los”, disse Chowdhury, que escreveu muito sobre o fracasso dos pequenos empréstimos. Basta retroceder à origem do microcrédito como atividade com fins de lucro para se chegar à porta das grandes instituições financeiras internacionais, os bancos e organismos como os de Bretton Woods, para ver que todo plano que faça ricos os “grandes rapazes” não poderá pôr fim ao problema estrutural e cíclico da pobreza, disse Chowdhury.
“As taxas de juros pagas por algumas mulheres que solicitaram um pequeno empréstimo são muito mais altas do que os empréstimos de bancos comerciais”, disse P. Sainath, jornalista especializado em questões de desenvolvimento. “O microcrédito foi apresentado como a panacéia contra a pobreza porque se ajusta à agenda neoliberal de que o Estado deve deixar de ter participação ativa no desenvolvimento, e que o setor privado pode resolver o problema”, afirmou Omar Dahi, professor de Economia para o Desenvolvimento no Colégio de Hampshire.
“Mas não pode, de fato, exacerbar o problema”, ressaltou Dahi. “Os melhores resultados foram obtidos quando o Estado fez seu trabalho, construiu infraestrutura e melhorou a educação e a saúde. Uma alternativa diz respeito a cooperativas de trabalhadores camponeses, mas isso, naturalmente, não é microcrédito”, concluiu.
O mecanismo está de acordo com a visão neoliberal de que a única forma para sair da pobreza é que as pessoas trabalhem muito mais por nada, em especial as mulheres, que já estão sob jugo do trabalho doméstico não remunerado. O modelo não atende problemas como a perda do direito à terra ou a privatização de serviços públicos básicos, como saúde e educação, o que faz a pobreza replicar de forma cíclica.
Como se supõe que as mulheres pagam as cotas dos empréstimos, usam o dinheiro para manter sua família e comunidade, ao contrário dos homens, costuma ser mais lucrativo e benéfico para a imagem pública das instituições trabalhar com elas. “A natureza comunitária” do microcrédito cria o problema da “responsabilidade coletiva”, afirmou Susan F. Feiner, diretora de Estudos de Gênero e Mulheres da Universidade Southern Maine.
Um estudo sobre mulheres que pediram um pequeno empréstimo no Estado indiano de Andhra Pradesh diz que, “quando aconteceram as inundações na província, jornalistas independentes foram testemunhas de como os primeiros a chegar a uma aldeia arrasada foram os credores que as ameaçaram e cobraram o pagamento de cotas mensais, quando elas haviam perdido tudo”.
Há mais estudos sobre os métodos aplicados para agredir e ameaçar mulheres que não podem pagar os empréstimos a taxas de juros absurdas. O sistema submete mais um setor da população, que já é oprimido. Envolverde/IPS
Dal Marcondes

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