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Sociedade

Nos tempos de Castor de Andrade

Meu carnaval com Joe Confort, 'capo' da máfia

por Tão Gomes — publicado 20/02/2012 10h31, última modificação 20/02/2012 10h56

Uau!!! A mídia convencional (Estadão) dá destaque à informação de que Ministério Público do Rio está investigando as ligações das Escolas de
Samba com bicheiros e com o crime. Treze agremiações estão sob suspeita…

Desculpem-me os senhores do Ministério Público do Rio, mas até os garis que varrem o Sambódobro depois dos desfiles estão sabendo dessas
ligações.

E não é de hoje. Há décadas, eu diria.

Um dos meus carnavais no Rio (foram três ou quatro), passei no camarote do Castor de Andrade. À convite do próprio.

Castor, na época, acumulava vários cargos.

Além de exercer (muitas vezes em causa própria) a advocacia, era diretor da Associação das Escolas de Samba; patrono (ou seja,
financiador) da Padre Miguel, uma das mais tradicionais do Rio pelas características diferenciadas da sua celebrada bateria, dirigida pelo
inigualável Mestre André; dirigente esportivo do Bangu, no tempo em que o time de Moça Bonita era uma das forças alternativas do futebol
carioca; etc.

Entre esses etc…as atividades que poderiam ser englobadas sob o rótulo de “contravenções”.

E que pelo jeito tinham alcance internacional, como veremos mais adiante.

O convite para o camarote na Sapucaí tinha como motivo uma reportagem sobre Castor de Andrade para a revista IstoÉ. Concorria à capa da
revista.

Acompanhei Castor durante alguns dias – já relatei aqui o almoço na antiga Churrascaria Rio’s.

Visitei ainda seu escritório, salvo erro de memoria, na rua da Assembléia – e lá me surprenderam a quantidade de pessoas (todos
homens) atendendo uns 10 ou 12 telefones que tocavam sem parar.

Acompanhei (e foi de arrepiar) a preleção do “patrono” da Padre Miguel, motivando os sambistas momentos antes do desfile, etc…

Subimos, enfim, para o camarote.

Aliás, camarotes.

Como Castor receberia hóspedes importantes, reservara um camarote com anexo.

Entre eles, estava, por exemplo, Emerson Fittipaldi, e se menciono o nosso extraordinário corredor, então no áuge da fama, é apenas para
situar o leitor sobre o padrão dos convidados.

Mas havia alguém mais importante do que Fittipaldi, embora desconhecido pela quase totalidade dos presentes.

Quem me chamou a atenção para o personagem foi o Paulo Copacabana, um amigo – é isso mesmo, Paulo Copacabana – um “tira” da delegacia de Roubos e Furtos.

Eu conhecera Paulo Copacabana em função de antigas ligações que ele mantinha com Octávio “Pena Branca” Ribeiro, o mais completo repórter
policial de todos os tempos, no Brasil.

Mas essa é uma outra história que um dia eu conto aqui. Baita história, por sinal.

Ao me deparar com Paulo Copacabana, e uma estonteante  gravata amarela, a surpresa foi minha:

- Paulo Copacabana, grande malandro, o que você tá fazendo aqui?

Ele me respondeu em voz de cochicho, olhando para os lados:

- Estou fazendo um “bico” pro Castor. Ele trouxe uns americanos e me contratou para dar segurança.

Gringos? No camarote do Castor? Era informação que podia valer ouro para um repórter…

-Americanos ? Onde estão?

- No anexo, respondeu Paulo Copacabana, apontando com o queixo o segundo camarote. E acrescentou: “eu levo você”.

Foi assim que eu fiquei conhecendo Joe Conforte.

Àquela altura ele já havia ingerido todas. Escarrapachado num sofá, camisa aberta no peito, abraçava de cada lado uma loiraça…

Conjecturei: esse cara deve ser importante para o Castor… tem segurança especial, as duas loiras…

Tentamos estabelecer um diálogo impossível diante do meu inglês precário e do estado em que, àquela altura, se encontrava Joe Confort.

Apresentei-me, e indaguei o que estava fazendo no Brasil, onde ele e Castor tinham se conhecido.

Joe Conforte riu muito da minha curiosidade.

Respondeu (em inglês): " You can to say that I`m the Castor de Andrade from Las Vegas”.

("Você pode dizer que eu sou o Castor de Andrade de Las Vegas")

E saiu sambando, desajeitado, com as duas louraças.

Anos depois eu li a notícia de que um dos “capos” mais importantes da mafia norte-americana havia morrido numa prisão, em Nevada.

Seu nome: Joe Confort.

P.S.: Joe Conforte foi pioneiro ao abrir um motel-prostíbulo em Nevada, legalizado pelo govêrno estadual. A história desse
motel-prostíbulo valeu inclusive um filme - título em português: "Rancho do Amor, onde Joe Conforte é interpretado pelo fantástico
ator Joe Pesci, aquele que só fala "fuck you".

 

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