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Mesa-redonda customizada

por Felipe Sáles — publicado 28/06/2011 15h16, última modificação 30/06/2011 16h03
Flamenguistas criam na web um programa para louvar seu time e avacalhar os adversários
Mesa-redonda customizada

Flamenguistas criam na web um programa para louvar seu time e avacalhar os adversários. Foto: Marcelo Carnaval

Numa dessas segundas-feiras, enquanto se preparavam para entrar em campo, Juca Kfouri, pela ESPN Brasil, e Galvão Bueno, pela SporTV, o analista de sistemas André Tozzini, 38 anos, iniciava a transmissão ao vivo do programa LiveCast, do blog Urubuzada, direto de um ponto de ônibus da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. “Tozza” sacou o iPhone, conectou-se ao Twitcam, site gratuito de transmissão de vídeo em tempo real, e, em pouco tempo, estava diante de cerca de 50 rubro-negros pedindo desculpas pelo inevitável atraso. Até chegar à sua casa-estúdio em Niterói, levaria um bom tempo. Mas a audiência compreendeu. E, claro, tirou um sarro. Horas depois, esbaforido, mal pôde falar com a mulher, tomar um banho ou comer algo: com um Skype à mão e uma webcam na cabeça, Tozza agitava os teclados da arquibancada virtual, ávida por discutir destinos e desatinos do Clube de Regatas Flamengo.

“Salve, galera! Tozza na área!”, anunciou bem ao seu estilo.

De Jacarepaguá, o publicitário Fábio Gil, 32 anos, também saudou os urubus, assim como o webdesigner Rafael Burity, 29, direto do Méier, e o agente de cargas da American Airlines, Bernardo Bandeira, 26, lá de Brás de Pina. A cada semana, um atua como âncora, enquanto os outros intervêm pelo microfone. E todos debatem com cerca de 300 internautas num chat que aparece ao lado da tela. O formato se mantém pela praticidade, mas há variações, com direito a equipe reunida numa sala-estúdio. Seja como for, a transmissão dura mais do que as tradicionais mesas-redondas: começa às 22 horas e termina após a meia-noite. Assim acontece religiosamente há quase dois anos.

A pauta é concebida durante os jogos, pelo Twitter, quando os lances são comentados pela equipe e por uma multidão de rubro-negros pela hashtag “#UrubuzadaAoVivo”. Várias vezes o termo liderou os dez tópicos mais comentados no Brasil. O próprio Tozza já figurou no ranking, ao lado do vice-presidente da República, Michel Temer, e do ex-jogador Petkovic.

Uma das vezes em que isso aconteceu foi no dia do “furo” internacional de reportagem: o repatriamento de Ronaldinho Gaúcho, que rendeu a maior audiência do programa, com 1.243 flamenguistas conectados. Com base em informações de amigos no clube, Tozza bancou que Ronaldinho viria para o Flamengo, meses antes de o irmão e empresário do jogador, Assis, garanti-lo, também, em ao menos outros três clubes brasileiros. “Somos torcedores e nossa paixão é discutir o time. Não é nossa intenção ter informação exclusiva, mas conhecemos pessoas que simpatizam com o trabalho voluntário que fazemos pelo Flamengo”, afirma Gil.

Às vezes, as transmissões têm até participações especiais, que vão de atletas da base a ex-jogadores, como o lendário Bujica, herói do Flamengo em 1989. Os programas também são incrementados com transmissões ao vivo, seja das arquibancadas do Engenhão, com direito a “show do intervalo”, ou direto da Gávea, na apresentação do novo uniforme desta temporada. Neste caso, havia duas transmissões oficiais on-line: uma da -Globo.com- e outra da empresa responsável pelo “manto sagrado”. Mas as duas travaram e a cobertura acabou feita com “exclusividade” pelo LiveCast Urubuzada, que se disseminou no boca a boca virtual.

A patrocinadora do clube louvou a iniciativa e doou duas camisas, que foram sorteadas no programa. Um site de compras coletivas recém-lançado gostou da ideia e pediu uma força para divulgar seus serviços. Foi o gancho para o blog dar lugar ao portal “DNA Rubro-Negro”, que trará, além da mesa-redonda via web, um programa de rádio, vídeos, entrevistas nos estádios e interação com torcedores de todo o País. Tudo feito inicialmente com fundos próprios. Ou, no caso, à base de raça, amor e paixão. “Se, no clube, a torcida não tem tanta voz, vamos fazer isso de fora para dentro”, define Gil.

Assim os torcedores fazem o que aos clubes, diante do caos administrativo, parece impossível. Em janeiro de 2008, por exemplo, o time da Gávea lançou a Fla TV, um canal via internet para reunir a nação rubro-negra. O projeto naufragou em meados do ano passado, mas nem a assessoria do clube soube informar, ao certo, o que deu errado. Apenas que planeja retomar a ideia, sabe-se lá quando.

Enquanto isso, os webespectadores festejam não só a interatividade e o, digamos, descanso de Galvão Bueno, mas também o fato de poderem discutir só o que interessa a eles: seu time do coração. Para os adversários, restam as chacotas, no máximo.

A “torcida organizada virtual” começou em 2008, quando Gil passou a escrever resenhas sobre os jogos do Flamengo para amigos que moravam no exterior. Daí veio o blog, o Twitter e as amizades com Tozza, Burita e Bernardo. De lá para cá, o site foi acessado por quase 200 mil flamenguistas, do Japão à Letônia, da Rússia à Indonésia, e mantém uma média de 12 mil visitas por mês. Os programas, disponíveis na loja iTunes, da Apple, já ficaram várias semanas entre os mais baixados na rede.

De repente, o grupo conheceu a fama. Dia desses, Gil passeava num shopping quando foi reconhecido pelo faxineiro. Flamenguistas de cidades como Manaus, Brasília e João Pessoa, em visita ao Rio de Janeiro, fazem questão de encontrar a turma. Quando vão a jogos, então, é uma festa. “Fico meio sem graça, mas acho legal. Me cumprimentam, dão um abraço... até já pediram para tirar foto. É engraçado”, conta Tozza.

Tanta dedicação tem um risco. Gil evita ficar no Twitter durante o expediente. Tozza adota a mesma precaução, mas há sempre uma tensão no ar (seu chefe é vascaíno). Em casa, não resta alternativa às esposas a não ser paciência com a atividade paralela dos maridos. Enfim, como diz o hino do clube: “Flamengo eu sempre hei de ser. É meu maior prazer vê-lo brilhar...”

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