Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Meninos em maus lençóis

Sociedade

Futebol

Meninos em maus lençóis

por Socrates — publicado 04/08/2010 11h03, última modificação 04/08/2010 11h03
Tudo corria bem, até perceberem a qualidade da nossa equipe. A torcida do time da “casa”, uma fazenda de cana, sentiu a derrota iminente, invadiu o campo, e o bicho pegou

Tudo corria bem, até perceberem a qualidade da nossa equipe. A torcida do time da “casa”, uma fazenda de cana, sentiu a derrota iminente, invadiu o campo, e o bicho pegou

Aos 16 anos, comecei a pensar no curso superior que faria, a Medicina foi a escolhida. Eu já estava jogando no juvenil do Botafogo de minha cidade. Fiz cursinho e ingressei na faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, aos 17 anos. E então tudo mudou!

A pressão que caía sobre meus ombros desde que me conheci por gente para responder às expectativas educacionais de meu pai, como por encanto, desapareceram. Ou pelo menos minimizaram, a ponto de não mais me incomodar. Foi um despertar para um mundo novo, cheio de novidades, desafios e... medos. Sempre fui muito tímido, e isso me criava dificuldades de relacionamento maiores do que eu gostaria.

Na faculdade muita coisa mudou, e para melhor, apesar do excesso de informações e da rigidez do curso. Praticamente vivia enfurnado no campus durante todo o dia, já que o tempo era utilizado integralmente para as aulas do curso básico (anatomia, fisiologia, bioquímica, farmacologia etc.). O bandejão do almoço era o único momento de descontração, e após a refeição eu, geralmente, ia para uma partida de xadrez até chegar o período da tarde.

Continuava no Botafogo, mas só aparecia por lá para jogar – sempre aos domingos, pois se tornara impossível participar dos treinamentos, às quartas e sextas à tarde. E esse reencontro com o futebol e com os companheiros de time era mais do que esperado: uma farra, um prazer e uma satisfação imensa.

Tudo porque tínhamos um ambiente para lá de bom. Chegamos até a disputar o título do Campeonato Amador do estado, onde perdemos no jogo final, em Andradina, contra uma equipe muito mais experiente e que não viajara mais de 12 horas para estar em campo.

Alguns episódios ocorridos nesse período, a grande maioria relacionada ao futebol, ajudaram a formatar a minha personalidade, então de um menino protegido, ingênuo e sonhador ao extremo. Certa vez, durante o Campeonato Paulista Amador, ainda nas fases iniciais, fomos jogar em uma fazenda perto de Ribeirão, que possuía um bom time e normalmente ia longe na competição. Já havia, digamos, uma tradição de bons resultados, e os investimentos naquela equipe eram, por incrível que pareça hoje em dia, muito maiores que no meu time, por exemplo.

Um bando de garotos imberbes, criados na cidade, em confronto com marmanjos rodados que defendiam um time de uma importante usina da região era uma situação absolutamente nova. E passou a ser assustadora quando percebi, atrás de onde se encontrava nosso goleiro, um senhor com cara de poucos amigos, empunhando uma peixeira imponente e à vista de todos. Pior é que o campo tinha uma só torcida, entusiasmada demais, eu diria, e nada de alambrado. Sentimo-nos abandonados à própria sorte, sem ter com quem contar caso algo acontecesse.

Restava torcer para que tudo transcorresse normalmente, que os ânimos não se exaltassem ainda mais e nosso companheiro atrás do goleiro se comportasse como recomendam as melhores famílias – o que era difícil de acreditar, levando em conta o seu gestual e sua face amarrada de poucos, escassos amigos.

Tudo corria bem até que perceberam a qualidade do nosso time, que já se impunha contra o adversário. Quando a torcida da casa percebeu a iminente derrota de seus “meninos”, o risco potencial a que estávamos expostos tornou-se quase palpável. Eles resolveram se manifestar, a princípio pressionando a arbitragem e, em seguida, todos da nossa equipe, principalmente o arqueiro, cujo isolamento e proximidade o tornaram o alvo principal.

Invadiram o gramado, tentaram agredir o juiz, que devia estar tão perdido como todos nós, já que começou a apitar escancaradamente a favor dos oponentes sem que pudéssemos fazer nenhuma reclamação, quanto mais reverter a situação. No final, o empate ficou de bom tamanho, uma vez que o segundo jogo seria em nossa casa, mais tranquilo, e como esperado não tivemos dificuldade em derrotá-los.

O Botafogo hoje está na Série C do Brasileiro, e sua saga não é muito diferente daquela do nosso tempo. Pelo menos quanto às distâncias a serem percorridas e à dificuldade de sonhar com uma situação melhor. A quilometragem do time será imensa na primeira fase: Rio de Janeiro, Juiz de Fora e Mato Grosso do Sul estarão pelo caminho. Esquecem que este é um país continental, e ainda chamam isso de organização.

registrado em: