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Memórias Sertanistas

por Felipe Milanez publicado 27/10/2010 14h33, última modificação 27/10/2010 14h33
Entre 27 e 28 de outubro, o Sesc Consolação promove seminário gratuito para discutir os 100 anos de indigenismo no Brasil

Entre 27 e 28 de outubro, o Sesc Consolação promove seminário gratuito para discutir os 100 anos de indigenismo no Brasil

O Brasil comemora este ano o centenário da criação do indigenismo, instituição republicana que representa um dos pilares da sociedade moderna brasileira. Para celebrar a data, o Sesc Consolação promove, entre os dias 27 e 28 outubro, o seminário “Memórias Sertanistas”, reunindo alguns dos principais pesquisadores da área em atividade no País, a exemplo de Afonso Alves da Silva, o mais velho sertanista em atividade, que participou de diversas expedições de contato com os povos das etinias Kayapó, Korubo e Arara. A entrada é gratuita.

Instituído com base no respeito à diferença cultural e diversidade étnica, o Serviço de Proteção do Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais (o SPI), criado em 1910, teve como figura central o marechal Candido Rondon. Eram tempos de violência contra os índios, ainda sem uma política de Estado, depois do fim do Diretório dos Índios, que vigorou na época Império. Sob a liderança de Rondon e com apoio do movimento positivista, a criação do SPI, instituição da República, foi uma resposta política para garantir a sobrevivência das nações índias.

A tradição indigenista brasileira surge como uma verdadeira vanguarda humanista, propondo a proteção e o respeito aos povos indígenas. Ao contrario do bandeirantismo, que avançava sobre os sertões devassando os ocupantes tradicionais, o indigenismo rondoniano propunha a convivência pacífica entre todas as nações que formavam o Brasil.

O SPI resistiu até 1967 quando, logo após o golpe militar que instituiu a ditadura, foi substituído pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Manteve-se o quadro de funcionários, as atribuições e, sobretudo, o espírito indigenista e humanista da instituição.

Grande parte dessa história recente do Brasil não está nos livros escolares, não está nos arquivos nem em jornais, mas nas memórias de pessoas que viveram essa época.

Período que inclui a ditadura, marcado por uma brutal violência contra os índios na disputa pela terra e no saque de recursos naturais dos seus territórios. Não foram necessárias muitas décadas para ver o cerrado sendo tomado por migrantes do Sul, a Amazônia sendo rasgada por estradas, e milhares de homens e mulheres pobres testando suas esperanças nas corrutelas, na derrubada de florestas, nos garimpos. Ao final, o mundo desigual do Brasil foi se repetindo por toda parte.

Nesse turbilhão de transformações, uma das grandes riquezas foi devastada: a diversidade cultural, a identidade indígena, com todos os rituais e modos únicos de ver o mundo.

No meio desse redemoinho, os sertanistas estavam presentes.

Muitos fizeram dos índios sua família e do sertão sua casa, lutando para a sobrevivência do índio, e pensando sempre na defesa de seus valores e de sua cultura.

As lembranças desse Brasil especial, mas pouco conhecido, vão ser reveladas pelas conversas e entrevistas com os últimos sertanistas em atividade.

“Morrer se preciso for, matar, nunca”. O lema do Marechal Rondon continua vivo, 100 anos depois da criação do SPI. No centenário do indigenismo, grandes sertanistas que se dedicam a defender os índios, vão contar suas experiências de vida. Esse é o objetivo do seminário “Memórias Sertanistas”.

Trabalhar nas frentes pioneiras, distantes, hostis, incrustadas no sertão do Brasil, defendendo os índios frente à expansão desordenada da sociedade nacional é uma tarefa difícil. É o trabalho que move os sertanistas ao longo dos últimos 100 anos. Coragem, desapego, habilidade, dedicação? Pouco importa, o fato é que conseguiram estabelecer essa relação, entre “nós” e “eles”, ao lado de importantes líderes indígenas, contribuindo para que o Brasil se conhecesse como um país multiétnico.

O sofrimento faz parte deste trabalho. Não há um sertanista sequer que não tenha testemunhado povos sendo dizimados pelo ataque daqueles que querem expulsar o índio de suas terras, pelos “pioneiros” da sociedade brasileira e pelas epidemias, levadas com o nosso “progresso”, contra as quais não tinham defesa.

Os sertanistas formam a linha de frente que busca diminuir o choque do contato com a nossa sociedade. Nos vários momentos - da ditadura militar, da abertura democrática, da expansão econômica ou crise - , eles estavam lá onde nem a imprensa nem os cientistas conseguiam ou podiam chegar. Estes relatos de trajetórias de vida de luta humanitária são experiências que pela primeira vez serão compartilhadas.

Construído no formato de entrevistas, com a naturalidade de quem “conta histórias”, o seminário, cuja proposta é inédita, acontece nos dias 27 e 28 de outubro, no SESC Consolação. O público vai se aproximar de uma história do Brasil que não está escrita, mas que foi vivenciada com luta e dedicação por homens que seguiram o lema positivista de Rondon (“amor, ordem e progresso”), justamente no que ficou de fora da história oficial e que não foi impresso na bandeira do Brasil: “amor”.

Confira a programação do evento:

Primeiro dia: 27/10

Sessão de filmes com Adrian Cowell (16:00)

Abertura (19h - 21h): com presença de autoridades (Danilo Miranda/Sesc) e representante Funai (Márcio Meira, Presidente).

Compõe a mesa: Aritana, George Zarur, Elias Bigio (CGII/Funai)

Mediadores: Noel Villas Boas e Felipe Milanez

Coquetail de abertura (21h00 – 22h).
Segundo dia: 28/10
(10h00 – 11:30h): Aritana Yawalapiti conversa com Carmen Junqueira e George Zarur

Tema: O Parque Indígena do Xingu e os irmãos Orlando Villas Boas

Mediador: Noel Villas Boas

Abertura: 13:30h

Mércio Gomes

Palestra: A tradição indigenista rondoniana, darcysista, orlandovillasboasiana, chicomeirelesiana, carlosmoreirana e bonifaciana

Mesa 1 (14h00 – 14:50h): Afonso Alves da Silva

Entrevistadores: Felipe Milanez e Mércio Gomes

Mesa 2 (15h00 – 15:50h): Porfírio de Carvalho

Entrevistadores: Felipe Milanez, e Betty Mindlin

Mesa 3 (16h00 – 16:50h): Odenir Pinto

Entrevistadores: Felipe Milanez e Mércio Gomes

Coffe break

Mesa 4 (17h30 – 18:20h): José Carlos Meirelles

Entrevistadores: Ulysses Fernandes e Silvio Da-Rin

Mesa 5 (18h30 – 19:20h): Rieli Franciscato

Entrevistadores: Felipe Milanez e Roberto Almeida

Mesa 6 (19h30 – 20:20h): Altair Algayer e Marcelo dos Santos

Entrevistadores: Felipe Milanez e Betty Mindlin

20:30: encerramento

Endereço: Teatro Anchieta – Sesc Consolação. Rua Doutor Vila Nova, 245, São Paulo.
* Felipe Milanez é curador do seminário “Memórias Sertanistas”. Jornalista e advogado, fez mestrado em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil.

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