Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Mecenas tentam reerguer jornalismo investigativo nos EUA

Sociedade

Imprensa

Mecenas tentam reerguer jornalismo investigativo nos EUA

por Fernando Vives — publicado 23/11/2011 15h10, última modificação 06/06/2015 18h56
Primeiro a gência ProPublica foi fundada com capital oriundo de doações bilionários
stephen engelberg

Meta da ProPublica é ter apenas 20% do orçamento sustentado pela bilionária família Sandler, afirma Stephen Engelberg, editor-executivo. O restante viria de donativos de qualquer pessoa. Foto: Lars Klove/ProPublica

A tradição de reportagens investigativas da imprensa norte-americana está em lento processo de decadência. O tipo de jornalismo que apura e denuncia assuntos de interesse público, que chegou a derrubar o presidente Richard Nixon nos anos 1970 e o qual serve de modelo nas escolas de jornalismo do mundo todo, tem sido vítima de duas crises diferentes, porém complementares.

Primeiro, a crise do modelo de negócio do próprio jornalismo, que tem a internet como principal revolucionadora desde os anos 1990. Como lucrar com classificados no jornal, por exemplo, se nos EUA já existem sites de classificados gratuitos? Mais que isso: a popularização do acesso à informação de graça está em curso há mais de 15 anos e as grandes corporações ainda encontram dificuldades para estabelecer um modelo de negócios que não derrube seu jornalismo impresso.

Segundo, desde o início da crise financeira de 2008, as empresas jornalísticas, tanto quanto qualquer outra, estão com o pires na mão.

Uma alternativa à sobrevivência do jornalismo investigativo norte-americano surgiu em 2007 com um modelo de negócio comum por lá: a sustentação através da filantropia.

Naquela ano, nascia em Nova York uma agência de jornalismo investigativo apartidária através da doação do casal de bilionários Herbert e Marion Sandler, empresários do ramo de “Save and Loan” (voltado ao crédito). Era a ProPublica, que nos anos seguintes tornou-se a primeira online a conseguir o prêmio de jornalismo mais respeitado do mundo, o Pulitzer. New York Times e o programa de tevê 60 Minutes, um dos principais dos Estados Unidos, já publicaram reportagens feitas pela agência.

Família de bilionários sustentam a agência

O editor-executivo da ProPublica, Stephen Engelberg, está no Brasil e discursou no MediaOn, seminário de jornalismo online que ocorre no Itaú Cultural de São Paulo nesta semana. No evento, Engelberg declarou que o objetivo é cada vez depender menos das doações da família Sandler. “A ideia surgiu da família e eles sustentaram todo o início do projeto. No entanto, hoje qualquer pessoa pode doar dinheiro para a ProPublica, e a ideia é que cada vez mais pessoas possam fazer isso, qualquer pessoa. O objetivo é que, no futuro próximo, no máximo 20% da verba da agência venha dos Sandler”, afirma. "A família é bilionária e notória apoiadora do Partido Democrata. No entanto, tem participação zero no editorial da agência. Eles nunca escreveriam um artigo que fosse para ser publicado por ela", afirma.

Apesar da ProPublica ser uma realidade, Engelberg não vê este modelo de negócio se propagando com facilidade fora dos Estados Unidos. “O jornalismo investigativo é muito beneficiado pela Constituição americana, o que nem sempre ocorre em outros países. E o modelo de filantropia também é bastante natural no país, faz parte da cultura. Não sei como funcionaria em outros lugares”, diz.

ProPublica apura e escreve, a mídia tradicional publica

O editor-executivo da empresa também comentou que a crise do jornalismo em seu país é perceptível pelo tamanho das redações. “Trabalhei em lugares que tinham 400 jornalistas nos anos 1990 e hoje têm a metade disso. A redução contribuiu para a dificuldade em se fazer jornalismo investigativo atualmente."

A ProPública surgiu a partir desta decadência, com o objetivo de contar histórias de interesse público e que fossem tão relevantes a ponto de mudar uma situação negativa vigente. “Não queríamos contar boas histórias, apenas investigar o que precisava ser investigado.”

Uma vez definido o padrão, foram contratados 18 jornalistas que se dedicam a caçar grandes histórias. Uma vez concluídas, elas são oferecidas gratuitamente aos grandes orgãos de imprensa tradicionais e só depois é publicada em seu próprio site. “Tínhamos uma reportagem que denunciava maus tratos de enfermeiros a pacientes na Califórnia”, diz Engelberg. O lugar ideal para a publicação desta reportagem seria o Los Angeles Times (maior jornal da Califórnia). Publicamos e no dia seguinte o governador Arnold Schwarzenegger demitiu toda a cúpula do orgão de enfermagem no estado”.

A criação de um banco de dados próprio da agência também foi outro diferencial - normalmente os jornalistas trabalham com bancos de dados públicos ou feitos por instituições especializadas em determinados assuntos. Stephen Engelberg cita o exemplo de um aplicativo feito para smartphones sobre médicos. "Nos EUA, é comum uma grande farmacêutica pagar médicos para que recomendam seus remédios para pacientes. Muitos fazem isso, o que não é ilegal, mas também não é ético. Criamos um enorme banco de dados com o nome de todos os médicos do país que recebem destas farmacêuticas e o disponibilizamos via aplicativo de celular. Qualquer um pode ter acesso a isso", conclui.

registrado em: