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Máximo poder aos amigos

por Rodrigo Martins publicado 08/09/2010 10h00, última modificação 14/09/2010 17h31
Mesmo sem ver o projeto, a CBF elege o estádio do Corinthians para a Copa
Máximo poder aos amigos

Mesmo sem ver o projeto, a CBF elege o estádio do Corinthians para a Copa. O clube não quer gastar um vintém a mais para ampliar o campo e garantir a abertura do Mundial. Quem abrirá o bolso? Por Rodrigo Martins

Ricardo teixeira fez valer a sua vontade. Em uma só cartada, o chefe da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) premiou um aliado, submeteu as autoridades políticas aos seus desígnios e tripudiou de um histórico adversário. Após uma reunião no Rio de Janeiro, ele anunciou, com o prefeito Gilberto Kassab e o governador Alberto Goldman a tiracolo, o estádio que deverá abrigar a abertura da Copa 2014: uma arena que o Corinthians pretende erguer em Itaquera, zona leste da capital paulista.
De acordo com o presidente do clube, a decisão foi tomada sem que nenhum representante do governo ou do Comitê Organizador Local (COL), presidido por Teixeira, tenha avaliado o projeto.

“Nem Ricardo Teixeira, nem ninguém dos governos federal, estadual e municipal, viu. Só o Corinthians, a Odebrech-t (construtora responsável pelo estádio) e os arquitetos. Nós temos credibilidade. Vocês podem não acreditar, mas nós temos”, afirmou Andres Sanchez, em entrevista à Folha de S.Paulo.

Era a cereja que faltava no bolo de aniversário do Corinthians, que celebrou seu centenário na quarta-feira 1º. E uma vitória pessoal para Sanchez, premiado por sua lealdade na eleição do Clube dos 13. O dirigente apoiou o candidato derrotado Kleber Leite, preferido do chefe da CBF. Fontes ligadas ao governo paulista afirmam que já em julho, quando o presidente corintiano assu-miu a tarefa de chefiar a delegação brasileira na Copa da África do Sul, Teixeira havia acertado a escolha da nova arena com Sanchez. Certo é que todos sabiam, de antemão, ser inviável construir uma nova arena em Pirituba, como se especulou na imprensa à época.

O anúncio do estádio corintiano para abrigar o mundial irritou dirigentes do São Paulo Futebol Clube, proprietário do Morumbi. “É mais uma atitude da CBF não eivada de elementos técnicos. São elementos pessoais que pautam as decisões”, atacou o diretor de marketing tricolor, Adalberto Baptista. “Fica claro que o Morumbi foi excluído por interesses escusos.”

O dirigente tem razões para demonstrar irritação. O São Paulo apresentou seis projetos de reforma do estádio, orçados entre 135 milhões e 250 milhões de reais. Destes, cinco eram assinados pelo escritório alemão de arquitetura GMP, que projetou a reforma de três estádios para a Copa de 2006 e outros três para a de 2010. A cada nova planta apresentada, surgiam mais exigências do grupo chefiado por Teixeira, que teria imposto ao clube um projeto de 650 milhões de reais. O valor estava muito além das possibilidades do São Paulo, que só conseguiu apresentar garantias financeiras para os planos anteriores. E Teixeira descartou o Morumbi.

Com o campo corintiano, a história foi bem diferente. O clube só apresentou seu projeto três dias depois do anúncio da CBF. Um estádio para 48 mil torcedores, em conformidade com os padrões da Fifa, ao custo de 335 milhões de reais. A construtora Odebrech-t, contratada para executar a obra, concordou em captar um financiamento no BNDES para o projeto e se dispôs a dar uma carência de três anos para o clube começar a pagar a conta.
Resta, porém, uma incerteza. Nessa configuração, a nova arena poderia receber jogos da Copa, mas não a abertura, que exige ao menos 60 mil lugares. O Corinthians se dispôs a readequar o projeto para abrigar o jogo inaugural, mas não quer gastar um vintém a mais no projeto. “Não nos peçam para botar a mão no bolso que não vamos dar dinheiro”, afirmou o vice-presidente de marketing do clube, Luís Paulo Rosenberg,- em quase duas horas de entrevista coletiva no Parque São Jorge.

No fim de junho, o dirigente havia dito a CartaCapital que o Corinthians não tinha interesse em construir um estádio que pudesse operar com capacidade ociosa e gerar mais despesas, tendo em vista que o clube reúne, em média, 27 mil torcedores por partida no Campeonato Brasileiro. Ao que parece, agora, a orientação mudou. O clube deseja abrigar a abertura da Copa, mas espera que o poder público ou as federações esportivas envolvidas no Mundial assumam a conta. O governo estadual e a prefeitura paulistana continuam a garantir que não vão investir em novos estádios. “Dinheiro público só pode ser investido em obras que atendam à população. Obras da infraestrutura, evidentemente”, afirmou Goldman. “Não se deve colocar dinheiro público num empreendimento privado.”

Outro empecilho é o prazo exíguo para a realização da obra. A Fifa estabeleceu dezembro de 2012 como limite para a entrega dos estádios, mas o clube paulista prevê concluir a obra apenas no ano seguinte. Além disso, surgiu uma complicação que pode atrasar o cronograma de construção: por baixo do terreno disponível passam dutos de óleo combustível e outros derivados de petróleo, que teriam de ser desviados.

Além disso, a Fifa ainda não foi informada sobre a escolha do estádio do Corinthians para sediar jogos da Copa. Em resposta a perguntas encaminhadas por CartaCapital por e-mail, a assessoria da federação afirmou não ter conhecimento dos “planos mais recentes de São Paulo”. Mas ressaltou que o grupo de Teixeira tem autonomia para decidir: “O Comitê Organizador Local é totalmente responsável por assegurar que os estádios nas cidades-sede sejam entregues a tempo e preencham os requisitos”.

Apesar do estardalhaço no anúncio da escolha do projeto corintiano, o comitê liderado por Teixeira afirmou que a proposta ainda será avaliada e não há nada definido. “Se precisar de adequação, isso será feito. É exatamente o mesmo processo que aconteceu com outras cidades”, afirmou o assessor de imprensa do COL e da CBF, Rodrigo Paiva, em entrevista ao canal SporTV.
De qualquer maneira, Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo, considera perdida a batalha para que o Morumbi abrigue os jogos da Copa na capital paulista. Mesmo com a exclusão, em junho, ele tinha esperanças de que, porcausa da falta de opções, o estádio fosse reconsiderado. A ideia sensibilizou representantes do governo paulista, mas Teixeira foi inflexível.

Para quem acompanha os bastidores do futebol, a mensagem é clara: ninguém que faça oposição ao chefe da CBF deve ser premiado. Juvêncio foi um dos articuladores da campanha de Fábio Koff à reeleição do Clube dos 13, contrariando os interesses do cartola que comanda a Copa. Assim como Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do Palmeiras, clube que terá uma nova arena com 45 mil lugares em 2012, mas foi solenemente ignorado como opção para abrigar jogos da Copa. Teixeira não perdoa.

*Colaborou Felipe Corazza

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