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Mandiopã, Besame Mucho

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 26/07/2010 18h42, última modificação 26/07/2010 18h42
E-mails acendem a nostalgia, assim como músicas e comidas do passado

E-mails acendem a nostalgia, assim como músicas e comidas do passado

Também somos culpados. Nós, os que vivemos as revoluções relevantes da pós modernidade e outras mais pessoais, nós também realimentamos a corrente – pelo menos esta não se propõe a salvar ninguém, nem pede voto, nem dinheiro – de saudosismo que vai e vem pela Internet. Abre-se o e-mail e lá está o tornado, espalhando a poeira do parece que foi ontem para cima e para os lados. Interminavelmente.

O e-mail, diga-se, já é uma ferramenta de conotação senil entre as tantas que saem da caixa digital. Jovens mesmo tagarelam pelo Twitter, com seus mínimos caracteres, nem sempre empobrecedores, ou pelas redes sociais. E fazem do velho e-mail sua casa de praia, onde vão de vez em quando conversar com os amigos mais velhos – embora estes engrossem a cada dia, mais e mais, a população feicebúquica e tuiteira.

Os tiozinhos renitentes, que não se rendem ao passadismo, também frequentam os faces da vida, mas se perdem com frequência (há exceções), sem saber se estão fazendo a coisa certa, tateando na etiqueta e nas regrinhas dos novos jogos. As redes sociais é que talvez sejam a casa de praia deles.

A maioria dos e-mails com mensagens nostálgicas são um desfiar de lugares comuns. Pega-se uma imagem da Torre Eiffel e abre-se uma galeria de slides deja-vù. Não raro, sobe o som com La Mer, coro e orquestra de Ray Connif. Começa o passeio pelos velhos tempos com aquele tã-ran-ran-ran etc ao fundo.

Ás vezes as obras que os amigos disparam em nossa direção partem para golpes mais baixos ainda. Imagine Besame Mucho, na versão do mesmo saudoso maestro peruquento, cuja batuta provocou torrentes de paixão em todo o planeta. Dependendo do dia, essas edições que pousam em nossos e-mails podem levar-nos a uma ruína emocional temporária nos atingir no fígado. Mas se o coração estiver de bem com o presente, fotos e música são apenas irritantes.

É claro, que podemos encarar esses e-mails mui amigos como um vírus e descartá-los sem abrir, se o assunto fizer parte do conjunto “nostalgia, você se lembra, parece que foi ontem, saudade não tem idade, raridades e ah, como era bom”. Isto é, se der para resistir. Mas todo cuidado é pouco com um e-mail cujo assunto é “Imperdível”.

‎- Uma pensata para se pensar: como a Espanha, do País Basco à Catalunha, tornou-se uma só Nação ao ganhar a Copa do Mundo de 2010.

Crock-crock Mas vai que um dia você acorda, ou já tem o sintoma há anos, com saudade do Mandiopã e sai pesquisando pelo nome o petisco de sua infância. O Mandiopã frita(va) em 15 segundos para desespero das mães mais ineptas ao fogão. Pois há uma multidão de adultos órfãos do paparico à base de mandioca, sempre imitado nunca igualado, criado em 1954. e que fez a alegria da petizada por mais de década. Depois, a guloseima foi sumindo e sumiu das prateleiras.

Ainda tem mandiopã no mercado? Com sal ou com açúcar e canela, nunca houve um petisco como o Mandiopã, cujas informações na rede são confusas e desencontradas. Há um site para a revenda do produto no atacado, filminhos no Youtube, texto na Wikepedia e apaixonadas manifestações de fãs que afirmam ter visto a guloseima em hipermercados, principalmente no interior de Sâo Paulo. Mas ninguém afirma que comeu mandiopã ou indica onde comprá-lo.

Esta página aceita colaborações sobre o paradeiro do rei dos crocantes que, não fosse pelo fato de precisar ser frito em óleo bem quente, hoje passaria longe do rótulo de junk food. Com absoluta certeza, mandiopã tem e terá na memória de muitos o gosto proustiano das madaleines.

Paulo Moura E por falar em saudade...

O nosso legado Faço minhas as palavras de Beatriz Bonfim, companheira nas barricadas do Jornal do Brasil nos tempos da censura militar:

- "Nós trabalhamos no melhor jornal do país, num ambiente saúdável ( no final, não), com muita garra e amor. Agora foi anunciado o fim da edição impressa. Lamento pelo que já haviamos há muito tempo...Uma morte tão anunciada, não?”

Na verdade. o JB começou a morrer em 1973, quando construiu aquele elefante branco na Avenida Brasil, e para lá se mudou. Não soube acompanhar os avanços tecnológicos, ao contrário do Globo e do Dia, e perdeu seus a maioria dos seus grandes profissionais para a concorrência, no Rio e em São Paulo.

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