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Sociedade

Dia das Crianças

Mais tempo, menos presentes

por Redação Carta Capital — publicado 12/10/2012 08h51, última modificação 12/10/2012 08h51
Grupo tenta incentivar a troca de brinquedos entre crianças e propõe reflexão sobre os limites da publicidade infantil
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Movimento pede que adultos passem mais tempo com as crianças. Maisa Cardozo Nascimento

Por Amanda Lourenço

 

“Posso ligar a televisão pra escolher?”, perguntou Clara, de seis anos, diante da dificuldade de decidir qual brinquedo gostaria de presente. Sem querer, a menina resumiu perfeitamente a luta de um grupo de pais e responsáveis recém-surgido na internet – a de impedir que a televisão se torne uma imensa vitrine de brinquedos, incentivando sem limites o desejo de consumo infantil.

A luta é velha, mas nem sempre foi bem-sucedida. O movimento Infância Livre de Consumismo (ILC) foi criado há apenas sete meses e já é um sucesso entre pais e mães preocupados com o que andam colocando na cabeça das crianças. Com boas ideias e iniciativas simples, o grupo já ganhou milhares de adeptos.

O objetivo é estimular a reflexão sobre os limites da publicidade infantil na sociedade e sua regulamentação, tema em pauta no Congresso há dez anos, mas ainda longe de uma decisão. Através de divulgação nas mídias sociais, o ILC foi unindo simpatizantes e conseguiu o apoio de entidades mais antigas, como o Instituto Alana, a Aliança pela Infância e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.

As campanhas de conscientização divulgadas pela internet viajam rápido e atingem o público certo. Um bom exemplo é a campanha da troca de brinquedos, que rapidamente se espalhou, atraíndo pais do Brasil inteiro. A ideia é simples: por que comprar mais um presente de dias das crianças, quando se pode ter um sem gastar nada, apenas dando em troca aquele trenzinho ou boneca abandonados? Para as crianças, no fim das contas, um brinquedo novo é apenas um brinquedo que elas nunca tenham brincado.

“Na relação de troca as crianças vivenciam muitas possibilidade que a compra não proporciona. Uma delas é a possibilidade de definir o valor daquele brinquedo, um valor não monetário”, explica a publicitária e mestra em políticas públicas Mariana Sá, uma das fundadoras do movimento e mãe de dois filhos.

Crianças e adultos têm visões diferentes sobre brinquedos. É a cena clássica da criança se divertir mais com a caixa de papelão do que com o objeto que veio dentro dela. “Minha filha não tem a menor noção se um brinquedo custou caro ou barato, ela simplesmente gosta de brincar. Ao observar o tempo que ela passa se divertindo com coisas absolutamente banais como bolas de papel ou até um objeto de casa, percebi que o valor ou o objeto em si não é o mais importante. Essa é uma busca nossa e não deles”, afirmou a funcionária pública Andreia Paiva, que ajudou a organizar um encontro em Salvador.

É verdade que essa política de valor sentimental às vezes causa confusão, pois uma criança pode não aceitar o brinquedo da outra, mas isto também é positivo: “No mundo real não podemos ter tudo e na troca isso fica mais evidente: o dinheiro não vale, não podemos comprar! Então, temos que lidar com a frustração. A magia é que em poucos minutos o brinquedo que não valeu naquela troca passa a valer para outra criança”, concluiu Mariana.

O primeiro encontro aconteceu há duas semanas em Brasília, mas no fim de semana seguinte pipocaram reuniões em diversas cidades do país. Além da troca também aconteceram oficinas, jogos, piqueniques e teatrinhos. O sucesso surpreendeu as organizadoras: “Sabíamos que teria uma boa participação das famílias e que elas abraçariam a ideia, mas a adesão, a quantidade de feiras em diferentes cidades e o sucesso dos eventos superou todas as nossas expectativas! As pessoas compareceram com grande vontade de promover esta mudança de paradigma”, disse a empresária Ana Cláudia Bessa, também representante do movimento.

Outra campanha do grupo é de, neste dia das crianças, oferecer menos presentes e mais presença. O argumento é: o que fica na memória das crianças depois que elas crescem são os momentos passados junto com a família, não um brinquedo qualquer que estará jogado no baú depois de uma semana.

As saídas alternativas para o consumo infantil no dia das crianças foram uma oportunidade para o ILC chamar atenção para sua causa principal - a regulamentação das propagandas voltadas para as crianças. O próprio movimento afirma que surgiu como uma resposta à Associação Brasileira das Agências de Publicidade (ABAC), que neste ano lançou a campanha “Somos Todos Responsáveis”, sugerindo que a responsabilidade do consumo infantil era dos pais, que seriam incapazes de controlar os próprios filhos.

O movimento Infância Livre de Consumismo não levanta a bandeira da completa proibição da propaganda infantil, mas insiste no debate: “Defendemos a regulamentação rígida de publicidade, sem entrar no mérito da proibição ou não. Queremos informar os pais para que eles mesmos possam tirar suas conclusões e se posicionar com relação a publicidade direcionada às crianças. O consumo é necessário, o que combatemos é o excesso”, explica Ana Cláudia.

O dia das crianças está acabando, mas as feiras de trocas de brinquedo continuam em todo o país. Neste fim de semana acontecerá no Rio de Janeiro e em São Paulo, entre outras. A programação completa está no site do movimento (http://infancialivredeconsumismo.com/).

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