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Mais de uma prova do Enem por ano, diz Haddad

por Fernando Vives — publicado 17/11/2010 09h49, última modificação 24/11/2010 11h50
Em entrevista à CartaCapital, o ministro da Educação defende a remarcação do Enem só para os estudantes prejudicados e argumenta em favor do novo formato da prova.
Mais de uma prova  do Enem por ano, diz Haddad

Em entrevista à CartaCapital, o ministro da Educação defende a remarcação do Enem só para os estudantes prejudicados e argumenta em favor do novo formato da prova. A Fernando Vives. Foto: Agência Brasil

Passado o susto inicial pós-Enem, o ministro da Educação Fernando Haddad conseguiu vitórias importantes a partir do fim da última semana. Na sexta-feira 12, Haddad comemorou a decisão judicial que reverteu a aplicação do exame para todos os 3.6 milhões de participantes, e não apenas os 2 mil que tiveram a prova com problemas e que não foram corrigidos. Com a decisão, o MEC deve anunciar ainda esta semana a data para a nova prova para os prejudicados.

Na quinta-feira 11, ainda quando a tempestade parecia ser maior do que de fato era, o Ministro Haddad conversou com a reportagem de CartaCapital sobre o episódio do Enem e explicou porque considera necessário a aplicação de nova prova somente para quem teve o gabarito com defeito. Haddad também elogiou a postura da gráfica RR Donnelley após o episódio, contou a estratégia de dividir o Enem em algumas provas durante o ano e defendeu a atual estratégia do Enem, criticada por especialistas por tentar abranger muitas funções ao mesmo tempo.

Veja os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: O objetivo do Ministério é fazer com que os quase 2 mil alunos que tiveram a prova amarela com os erros façam uma nova prova - porém, houve membros do Poder Judiciário brasileiro que estão tentando anular toda a prova. Por que aplicá-la apenas para os prejudicados?
Fernando Haddad
: Olha, aquilo que já é familiar para psicometristas, pedagogos e economistas da educação é novo para o mundo jurídico. A comunidade educacional está muito familiarizada com a Teoria da Resposta ao Item (a chamada TRI, estratégia na qual se baseia a prova do Enem), que tem metodologia de avaliação desenvolvida nos EUA nos anos 60 e que foi incorporada no Brasil como avaliação de sistemas de ensino em 1995 no Saeb (Sistema de Avaliação de Educação Básica). Quando se aplica uma prova com esta enorme escala, você não pode mais aplicar a chamada prova clássica, que é incomparável com qualquer outra, única. Qualquer incidente que ocorra será motivo para reaplicação geral da prova, que é o que acontece em concursos públicos ou vestibulares tradicionais. O Enem, ao incorporar a TRI em 2009, visa justmente evitar que isso seja necessário, uma vez que possui uma prova calibrada, com questões pré-testadas e um mesmo nível de dificuldade. Essa tecnologia está incorporada ao SAT (Scholastic Assessment Test) americano, que é o Enem deles desde os anos 1960. O Toffel, exame de proeficiência em inglês, usa a mesma estratégia: você agenda a prova e nunca a mesma pessoa faz o mesmo exame. O que significa dizer é que a tecnologia está fundamentada do ponto de vista científico e é reconhecida internacionalmente. Ninguém da comunidade internacional desconheça essa tecnologia. O espanto das pessoas que de fora do país que conversaram comigo essa semana é de como o Brasil está discutindo algo que é consenso no mundo.

CC: Houve um jornalista do Jornal do Commercio, de Recife (PE), que mandou via SMS o tema de redação para o jornal, argumentando que fazia uma denúncia. Esse jornalista vai ser processado?
FH
: Ele fez isso, é bom que se diga, quando todos já estavam na sala e todos já tinham conhecimento do tema. Não houve, portanto, quebra de isonomia. Nenhum candidato conheceu o tema antes do início da prova, todos conheceram o tema simultaneamente. Não há argumentação de que o exame poderia ser cancelado, portanto. Uma coisa é quando alguém tem vantagem em relação a outros candidatos, e o que houve um ato isolado sem compromisso com a educação e que precisa ser investigado. Duvido muito que a orientação tenha partido do jornal. Se ele não servia ao jornal, servia a quem? O pedido do MEC é que se abra um inquérito de investigação. Mas se ele vai ser processado, já depende do Ministério Público.

CC: Como avalia a atuação da gráfica RR Donnelley após o erro? O ocorrido muda alguma coisa na relação com a empresa?
FH
: A empresa cometeu um erro em 0,03% dos cadernos de prova e, ato contínuo, mandou um ofício ao MEC reconhecendo a falha de impressão e se colocando totalmente disponível para solucionar o problema, inclusive arcando com os custos. Teve uma postura própria de uma empresa do porte que tem.

CC: Quanto ao Enem como processo seletivo, mais universidades federais acabam usando o Enem como critério de seleção a cada ano. Existe meta fixada para esta ampliação?
FH:
A única demanda do colegiado de reitores da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) como contrapartida como apoio ao Enem, foi a ampliação da verba de assistência estudantil. O Enem quebra um paradigma que democratiza o acesso às classes populares. Ao fazê-lo, a necessidade de verba para assistência estudantil aumenta, já que não basta o estudante chegar até a faculdade, ele tem que ter acesso a restaurante universitário, bolsa para iniciação científica, etc. para concluir os estudos. Então houve essa demanda e, 2009, e na ocasião nos comprometermos dobrar a verba de assistência estudantil para as instituições que tirassem proveito do Enem como processo seletivo. E isso tem sido cumprido religiosamente. Pra cada instituilção que deseja, o MEC está garantindo a ampliação correspondente da verba estudantil. É um processo natural de convencimento interno, a comunidade educacional está confortável com isso, todas as decisões passaram por um colegiado superior. Não é uma decisão monocrática, de um reitor só. Os educadores sabem que o vestibular é de um anacronismo medonho. O brasileiro se orgulha muito de que a palavra saudade não tem tradução para outra língua, mas a palavra vestibular também não tem.

CC: Há pensadores da educação que entendem que a avaliação do Enem acaba sendo similar ao vestibular a medida que os alunos das melhores escolas acabam indo também melhor no Enem, como ocorre no vestibular tradicional, e os de escolas piores, públicas geralmente, vão pior. Como avalia isso?
FH
: Bom, você não vai obter esse resultado na primeira ou segunda edição do exame. Faço referência para a prova Brasil, que é uma espécie de Enem do Ensino Fundamental. Com ela, todos os indicadores de proeficiência melhoraram e a distância da escola pública e a privada diminuíram. No Ensino Médio isso ainda não ocorreu.  Enquanto a PB é de 2005, o novo Enem é de 2009. Esses efeitos vão se fazer notar que a prática reiterada do Enem quanto a qualidade do ensino médio. isso já se refletiu no ensino fundamental.

CC: Críticos dizem que a mudança do Enem, que começou como avaliação dos alunos do Ensino Médio e passou a ser critério de seleção nas universidades, e também para o Pro-Uni (programa de bolsas universitárias) e o EJA (Educação de Jovens e Adultos), acaba fazendo com que ele tenha não tenha foco - essas pessoas entendem que provas do Pro-Uni precisariam ser de um tipo, EJA outro, seleção para o ensino superior, um outro. A pergunta é: é possível fazer com que o Enem abranja tudo isso e o faça com qualidade?
FH
: Na verdade o SAT americano se presta exatamente para a mesma coisa e é o melhor sistema universitário do mundo. Não foi por outra razão que nos miramos nesta experiência para fortalecer nossos sitema unviersitário que já está em 13º lugar em produçao científica do mundo e que tem espaço pra melhorar. Com o espaço físico que tem e a população jovem que tem, podemos ser uma força universitária de presença muito maior no cenário internacional. Mas o gargalo do vestibular e a falta de mobilidade dos alunos atrapalha. Hoje ele tem que prestar o vestibular daquela instituição, caso contrário não terá acesso a ela. Isso é impeditivo de uma reorganização universitária capaz alavancar o avanço da produção científica.

CC: E essa estratégia comentada pelo presidente Lula, de fazer vários Enems durante o ano?
FH
: O presidente assimilou essa proposta com muita rapidez, como sempre. O projeto do Enem se consolida com mais de uma edição por ano. Esses pequenos eventos, como o da prova amarela, que podem ocorrer são facilmente superados quando você tem um calendário pré-estabelecido. Vou citar um exemplo: em 2009, houve enchente em duas cidades capixabas. Um mês depois, reaplicamos estas provas para estes alunos. Foi uma prova diferente, comparável a primeira. A prova dos presídios também é diferente da prova do Enem geral. O que precisamos é estender este conceito pra edições gerais em número maior que um, ou seja, se tivermos duas ou três provas, você ameniza o efeito de um acidente ou de uma falha humana. Você pode uma enchete um dia, um erro do fiscal de prova em outro, acidente rodoviário em outro, etc. E o que fazer nessa hora, cancelar o exame? Não, você tem um calendário que um aluno, por força maior, ou por falha humana, não pode realizar seu exame, possa tranquilamente remarcá-lo. O SAT americano começou com um e já está com sete. No caso americano, você recebe o boletim de todos que fez e usa o que quiser. Tem prazo de validade.

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