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Sociedade

Restauração

Luz sobre obra de quatro séculos

por Celso Calheiros, de Recife — publicado 14/09/2010 17h14, última modificação 02/10/2010 11h35
À espera da Copa do Mundo de 2014, Recife resgata tesouro histórico
Luz sobre obra de quatro séculos

À espera da Copa do Mundo de 2014, Recife resgata tesouro histórico, como a Basílica da Penha. Foto: Frei França

Recife revitaliza seu patrimônio histórico. São resgatados simultaneamente o Convento de Santo Antônio, sua Capela Dourada e o Forte das Cinco Pontas, do século- XVII, a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, edificada no século XVII e reformada no século XIX, e a Basílica da Penha, majestoso prédio neoclássico de 1882. “Os turistas que virão para a Copa do Mundo, em 2014, querem ver futebol, praias e monumentos. As cidades-sede precisam se aprontar”, defende Jorge Tinoco, professor de pós-graduação do Centro de Estudos Avançados de Conservação Integrada (Ceci) da Universidade Federal de Pernambuco e atuante em duas obras. Em todo o estado, ao menos oito municípios deverão receber até 13 milhões de reais dos 890 milhões destinados a 154 localidades dentro do PAC das Cidades Históricas, diz o superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no estado, Frederico Almeida.

O Convento de Santo Antônio e a Capela Dourada, no Recife, pertencem a um conjunto barroco-rococó. Entre os altares, talhas, arcos, artefatos dourados e móveis em jacarandá, destacam-se os azulejos produzidos, em 1634, por uma técnica característica em Roterdã, explica Pérside Omena. Ela é responsável pela restauração de mais de 29 mil peças em 15 ambientes nos dois prédios franciscanos. Sua missão começou pelo claustro, onde os azulejos danificados formam 25 painéis a retratar a Criação do Mundo. Também trabalha os azulejos da capela. Dez painéis exibem cenas de caça e desenhos geo-métricos similares à tapeçaria.

Os sais causavam descolamento e danificavam o vitrificado dos azulejos, além de abrir espaço para a infestação por fungos. Pérside e sua equipe de 28 técnicos limparam cada azulejo, raspando reboco e massa. O método para eliminar as patologias foi guardar, por dez dias, as peças a 18 graus negativos. Depois, apoiados em porta-CDs comuns, os azulejos descansaram por até 35 dias em água deionizada. Feita a secagem à sombra, veio o restauro. Depois do acabamento com lixa d’água e uma microrretífica, a face danificada tornou-se vitrificada. O desenho do painel ganhou brancos. “Discutimos com o Iphan e os franciscanos sobre a necessidade de preencher os brancos segundo as informações da imagem original”, lembra Pérside.

Complementar um desenho destruído pelo tempo gera polêmica. Os radicais defensores da autoria pregam que, independentemente dos prejuízos causados à obra, ela deve ser mantida da forma como se encontra. No caso do trabalho no Convento de Santo Antônio e na Capela Dourada, valeu a corrente liderada por Pérside, com apoio da ordem franciscana. “O autor criou uma cena em cada painel. Sem a restauração artística, perde-se a história, a mensagem que o desenho queria passar”, explica. Decisão tomada, a última etapa preencheu- o desenho em azul. Foi mantida discreta diferença entre a obra original e o trecho restaurado, em respeito à autoria.

Debate similar ocorreu na recuperação da Igreja Nossa Senhora do Pilar, erguida sobre as ruínas de um forte português do século XVII, em cantaria e com azulejos no padrão carmélia, depois reformado no século XIX, ganhando ares neoclássicos. O arquiteto Jorge Passos, responsável pela restauração, precisou responder a uma questão. Qual trabalho deveria prevalecer na restauração, a igreja singela edificada em 1680 ou a reformada em 1899? Manteve elementos das duas épocas.

Passos não deveria permitir que o templo cercado pela Favela do Rato, no bairro do Recife, se transformasse em ruínas. Ele tinha perdido a cobertura, a estrutura estava instável e paredes foram infiltradas. Além da experiência de 25 anos em grandes obras de restauração, o arquiteto exerceu uma habilidade que desconhecia possuir. Não cercou a obra com tapumes. E negociou com a comunidade a recuperação das portas do templo ao oferecer madeirite em troca. A porta entalhada era uma das paredes de um barraco.

Ao fim do seu trabalho, deixou uma igreja com formas que contam parte da história da arquitetura dos séculos XVII e XIX. Manteve cunhais e outros elementos da construção em cantaria, mais simples, do tempo em que a igreja foi levantada. E também deixou a igreja como ficou quando reformada, com portada na entrada em pedra liós, coro suspenso, altar-mor e sacristia, por exemplo.

Cantaria também é a base do trabalho no Forte das Cinco Pontas, endereço do Museu do Recife. A fortificação em pedra tem quatro pontas. O Forte de São Tiago foi construído no mesmo local onde os holandeses ergueram uma base em madeira e barro, com cinco pontas e em um sítio estratégico, junto às fontes de água doce da cidade e em frente a uma falha nos recifes, que possibilitaria a passagem de navios. Os portugueses colocaram a fortificação abaixo, mas o nome persiste.

O forte foi reformado nos anos 70. A obra de revitalização atual procura trazer de volta o prédio da segunda metade do século XVII, retirar rebocos, exibir grandes blocos de pedra que formam seus cunhais, sua portada, a moldura das janelas. Os trabalhos em cantaria têm a responsabilidade técnica do professor Jorge Tinoco. Seu grupo resgata ofícios tradicionais como o do canteiro. No Forte das Cinco Pontas, dez canteiros trabalham o arenito, retirado dos recifes há 200 anos.

A maior das obras, em dimensão, tempo de trabalho e recursos envolvidos (mais de 4,2 milhões de reais vindos de patrocinadores) é a restauração da Basílica de Nossa Senhora da Penha, próxima ao Mercado de São José. Para lá se dirigem 7 mil católicos às sextas-feiras, dia da Bênção de São Félix. O prédio tem pé-direito de 56 metros de altura no centro do cruzeiro.

Desde 2008, com apoio do governo do estado, começaram os trabalhos na cúpula, no madeiramento do telhado e na parte externa. Descobriu-se a qualidade do painel com pedrinhas de vidro colorido que retrata a aparição de Nossa Senhora a Simão, na portada do templo. O reitor da basílica, frei Luís de França, diz que o artesão italiano Gabrielli Curtollo vai restaurar as três portas e seis imagens em pedra da fachada principal. As portas têm alto-relevo em madeira e são cobertas com cobre. Os trabalhos na parte interna apenas começaram. Os restauradores atuarão nos púlpitos, coro, imagens do frontispício, restauração dos ornatos, capitéis, altares e em tantos detalhes no edifício neoclássico. A basílica deve reabrir em quatro anos. O que vai acontecer mesmo em 2014?

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