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Luta de classes

por Bruno Huberman — publicado 11/11/2010 10h58, última modificação 12/01/2011 10h58
A disputa pelo poder em um condomínio na Paulista antes ocupado por traficantes e prostitutas
Luta de classes

A disputa pelo poder em um condomínio na Paulista antes ocupado por traficantes e prostitutas. Fotos e texto: Bruno Huberman

Faltava luz, água, os corredores caíam aos pedaços, as portas dos apartamentos eram de ferro, parecia uma prisão. Ainda tinha uma senhora maluca que batia na porta da casa da gente, duas horas da manhã e ficava gritando, dizendo que a gente tinha roubado coisas dela. Uma louca”, lembra Lúcia Maria, residente do Edifício Baronesa de Arary há mais de 40 anos e que inúmeras vezes teve de subir os 22 andares de escada até seu apartamento, com a filha no colo, porque o prédio estava sem energia elétrica.

O encontro foi rápido, no amarelado corredor do cinquentenário edifício da Avenida Paulista. Maria remete-se ao tempo que o Baronesa era ocupado basicamente por prostitutas, traficantes e camelôs. A convivência entre os outros moradores do prédio era bem difícil. Gatos elétricos escapavam por todos os lados. Fogões e geladeiras acumulavam-se no jardim do térreo. Por falta de atenção, o edifício que nascera na década de 1950 para ser um endereço chique da Paulista transformara-se em um pardieiro social no coração comercial da cidade.

Maria, que em outros tempos fora atriz de cinema, fala devagar por causa do aneurisma cerebral sofrido há muitos anos e parece não sentir saudades desses tempos. Morou na mesma quitinete durante todos os anos de Baronesa, exceto pelo tempo em que o edifício foi interditado pelo Departamento de Controle de Uso de Imóveis (Contru), entre 1993 e 1998, pela quantidade de ligações elétricas clandestinas e o risco iminente de incêndio. Todos os apartamentos foram lacrados e os moradores, obrigados a se alojar em outros lugares. Maria então teve de voltar para Mato Grosso com sua filha. Vinha a São Paulo comprar roupas no Bom Retiro e revender em Cuiabá por um maior preço. Viveu assim durante todo o tempo que o Baronesa ficou fechado até retornar cinco anos depois. Agora vive sozinha: já que sua filha mudou-se faz tempo.

“Logo quando o Baronesa reabriu, encontrava uns caras mal-encarados no corredor que dava até medo”, recorda Humberto Soares, morador do apartamento 2.509 há 12 anos, e vizinho do que um dia foi conhecido como “Salão Cacilda”, a enorme cobertura que os atores Walmor Chagas e Cacilda Becker ocuparam na década de 1960, palco de encenações exclusivas na época da ditadura. A vista da “quiti” de Soares é privilegiada. Vê-se o verde do Trianon, o Masp, a Paulista e um mar infinito de edifícios até onde a poluição permite enxergar. “As velhinhas contam que naquele tempo os homens se enganavam e batiam nas casas delas quando iam atrás das prostitutas”, lembra.

Baiano de nascimento, Soares migrou para São Paulo há mais de 20 anos e encontrou no Baronesa “um dos melhores lugares para morar na cidade”. Artesão de ofício, conseguiu transformar seu apê de pouco mais de 30 metros quadrados em ambiente de trabalho. O sofá, que de dia recebe clientes e serve de local de batente, à noite vira cama para ele e seu cachorro Pingo. “Aqui tem de tudo. Papagaio, cobra... Você cruza com cada figura que nem acredita.” Ficar cinco minutos na portaria do número 1.745 da Paulista, por onde entram os moradores, é a prova. Há playboys marombados e travestis de 2 metros de altura e até engravatados com o cabelo na cintura e madames com pele sintética nos ombros.

Os prédios modernistas erguidos na década de 1950, como o Conjunto Nacional, na Paulista, e o Copan, na Ipiranga, previam a convivência de diferentes classes sociais dentro do mesmo ambiente. Por isso o Baronesa tem três tipos de apartamentos: as quitinetes e os apartamentos de três e dois quartos. Ao todo são 559 apês e cerca de 3,5 mil moradores. “É como se eu vivesse em um prédio de 25 apartamentos apenas”, conta Patrícia Almeida, moradora do 705 há dois anos, a “ala rica” do prédio, como os moradores das quitinetes se referem à porção dos apartamentos de três quartos.

A “ala rica” tem direito a portaria e elevador exclusivos pela Rua Peixoto Gomide. Alguns moradores desse lado trancam a única porta que separa as alas, impedindo o acesso dos moradores das “quitis”. “É uma maravilha morar aqui. Ainda mais ao lado do metrô”, diz Patrícia, enquanto mostra os espaçosos quartos. “As árvores impedem o barulho da Paulista, é incrível”.

“Quando me mudei para cá, isso aqui ainda estava um horror, mas agora está bem melhor. A Meire fez um bom trabalho”, mostra ao apontar para os corredores recém-reformados pela síndica Meire Luci, a responsável pela revitalização do Baronesa. Quando foi reaberto, em 1998, o prédio ainda viveu um estado de penúria até 2001, quando Meire Luci, antiga moradora e dona de alguns apartamentos, decidiu concorrer à vaga de síndica.

“A Meire tirou as prostitutas, os camelôs e os traficantes na marra mesmo. Enfrentou eles e agora o prédio está livre”, relata Almeida. Também retirou os entulhos acumulados nos corredores e jardins. Reformou as portarias, a garagem, e a pintura do prédio está sendo revestida de branco. Isso valorizou o edifício. “Eu comprei minha quitinete por 4 mil reais, agora tem algumas que custam 150 mil. Tem quitinete aqui que é um luxo”, conta Soares. Mas não há só elogios à gestão da atual síndica. As divergências sociais levaram a uma disputa política pelo poder no Baronesa de Arary.

Existe uma ala de oposição, da qual Soares faz parte, que reclama da maneira “ditatorial” da administração do condomínio. “Também se não fizesse nada com 2 milhões de reais por ano seria preocupante”, reclama Soares. Segundo ele, a síndica tenta se eternizar no poder ao colocar a filha como “laranja” no cargo. “O que nós queremos é melhorar ainda mais o prédio e hoje ela impede isso.” Várias ações judiciais foram movidas pelos moradores, pedindo o afastamento de Meire Luci, mas ela sempre consegue uma liminar. “A gente tira, mas ela sempre acaba voltando.”

“Eles fizeram corredores apertados, apenas para fluxo, sem local para sentar, como antigamente. Assim as pessoas não conversam e não se organizam”, explica Jurandir Rodrigues, outro integrante da “oposição”. “Ela fala que melhorou a qualidade de vida do prédio, mas na verdade contribuiu para aumentar a segregação.” A síndica recusou-se a comentar o caso, “para não haver distorção de suas palavras, como já ocorreu em outros veículos de comunicação”, comunicou sua secretária.

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