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Luís, Luyze, Luísão

por Willian Vieira — publicado 02/03/2011 09h00, última modificação 02/03/2011 16h47
Clube reúne homens que gostam de se vestir de mulher, mas negam ser gays. Por William Vieira
Luís, Luyze, Luisão

Clube reúne homens que gostam de se vestir de mulher, mas negam ser gays. O cartunista Laerte, acima, tornou-se inspiração para o grupo. Por Willian Vieira. Foto: Carlos Cecconello/Folhapress

Clube reúne homens que gostam de se vestir de mulher, mas negam ser gays

Uma voz grave atende o celular e pergunta como irei vestido ao encontro. Não devolvo a questão. Prefiro a surpresa. Então espero o dono da voz chegar da reunião com clientes – ele é engenheiro – e tento em vão encontrá-lo entre as figuras que povoam o Largo do Arouche, no centro de São Paulo. Quinze minutos escorrem até que ele chega: é uma “mulher” de 1,80 metro, salto, blusa de oncinha caí­da nos ombros largos, jeans justos, rosto maquiado e cabeleira loira, que me oferece um forte aperto de mão. Luyze Vaz é homem, veste-se de mulher, mas não é gay, e aos 52 anos, com três casamentos, quatro filhos e quatro netas na bagagem, não vê problema em namorar mulher e se vestir como tal. Assim, é o primeiro cross-dresser que conheço na vida.

O segundo nos espera à mesa do restaurante, de vestido preto, com pouco lápis no olho e um leve batom. “É como saio todo dia”, diz Laerte Coutinho, um dos cartunistas mais celebrados do Brasil e também o que mais chocou seu público, não pelo atribuído nonsense de suas últimas tirinhas, mas por ter ido a uma entrevista vestido de mulher – o que expôs o tema cross-dressing. “Existe o antes e o depois do Laerte pra gente”, diz Luyze. Mas Laerte (Sônia), parece indiferente à nova fama. Segue a beber seu Black Label enquanto filosofa sobre o tema. “Os rótulos não dão conta, pois nem tudo é sexualidade. Para mim, ser ‘CD’ é uma experiência.”

Nebuloso como poucos, o cross-dressing é um conceito surgido nos EUA que gravita entre o fetichismo, o travestismo e a inadequação de gênero. O precursor no Brasil talvez tenha sido o artista plástico e arquiteto Flávio de Carvalho, que passeou de saiote no Viaduto do Chá na São Paulo de 1956. Por desafiar as concepções de identidade – não são travestis, transexuais ou drag-queens –, acaba entendido de forma errada. “As pessoas veem o CD como fetiche. Mas é bem mais complexo que isso”, diz Sônia. Em tese, seria simples: CDs são pessoas que trajam como o esperado do sexo oposto, principalmente homens que se vestem de mulher, mas que não assumem outra sexualidade. Muitos são heterossexuais e dividem com as mulheres tanto a roupa quanto a cama.

Como Carol, um contador de 38 anos que revelou sua mania à esposa há três. Quase se separaram. “Agora ela tolera”, diz Carol. Os dois saem juntos para comprar sutiãs. “Até meu filho (de 10 anos) me ajuda a escolher vestidos.” Carol foi mais longe: está tomando hormônios. Mas não seria um passo para o transexualismo? Ela nega. Diz só querer ter seios de verdade.

Uma olhada no site do BCC, primeiro clube de cross-dressers do País, mostra tais dilemas. Sob o lema “Existimos pelo prazer de ser mulher”, há de depoimentos de CDs casados a dicas sobre silicone. “Nosso grupo é um refúgio para eles se entenderem”, explica Solange Elizabeth, do BCC. “Algumas acabam se descobrindo transexuais e caem fora. Aí já cumprimos o nosso papel”, conclui Kelly Neta, a presidenta. Por questão de segurança, o BCC certifica os sócios. Emite diplomas para quem se torna “real” e troca os contatos pela internet por encontros. Já são 400.  Assim é um misto de ONG, grupo de autoajuda e salão de beleza, sob a proteção do gueto.

Há aventuras pontuais para CDs de primeira viagem ou com medo de se expor. Custa de 80 a 250 reais num estúdio como o de Dudda Nandez. A discrição é total. São até duas horas e meia de produção: cabelo, maquiagem, até duas roupas diferentes escolhidas pelo cliente entre as quase 200 peças do estúdio. E logo as fotos. Depois o cliente volta às ruas, homem de novo, pen drive com 110 imagens no bolso. É um conto de fadas para “sapos”, como são chamados os CDs em trajes masculinos. Sapo na rua, princesa no estúdio.

Para quem teme o vazamento da imagem na internet – juízes, deputados ou empresários mais velhos –, Dudda os atende em hotéis nos Jardins, para onde leva uma mala com roupas e sapatos com o número certo, perucas e maquiagem. As fotos são tiradas na máquina do cliente. E tudo acaba ali. Já para os mais sociáveis, ela dá uma festa, o Cross Day, na qual até 30 CDs podem produzir-se, conversar e tomar chá com bolo. Muitos trazem as esposas. “Num evento desses, a mulher pode separar as coisas e ver que o marido não é gay”, diz Dudda. Às vezes, não dá certo. Daí ela aluga o estúdio com armário, para que CDs “que passam por momentos de crise existencial” deixem seus acessórios femininos. É business, “mas com um lado social”, diz.

Treze CDs foram mais pragmáticos: alugaram um apartamento e o mobiliaram com dois guarda-roupas, com 20 portas trancadas com cadeado e o nome de cada uma estampado. Batizado de Le Closet, o apê serve de QG para a montagem antes de festas e encontros do BCC. Que o diga Luyze, o engenheiro. Depois de anos de dúvidas e meses de análise (culpa em usar roupas da namorada), Luís escreveu para o BCC. Foi chamado para uma reunião no Le Closet. E ali se montou pela primeira vez. “Me contive para não chorar. Foi uma emoção indescritível.” Dias depois, recebeu o diploma de cross-dresser, “uma medalha de honra ao mérito”, diz, já que “precisa ser muito macho para ser hétero e sair de mulher”.

Para alguém que saltou 2 mil vezes de paraquedas, sair montada foi mais difícil. “Dos esportes radicais que pratiquei, esse é o que dá mais adrenalina.” Um dia ela estava passeando pelo Shopping Eldorado e cruzou com a filha. “Ela não me reconheceu, fico ótima de mulher”, diz Luyze, abrindo a carteira em busca do RG, onde há o homem de meia-idade calvo que esconde o fato da família. “Claro, um dia terei um deslize e todos saberão. É questão de tempo.”

Luyze se considera feliz. Vai “montada” comprar roupas na Marisa, ainda que se irrite ao ser assediada por homens atrás de travestis e ter de explicar, a voz mais grossa do que nunca, que não gosta de homem. Em casa, tem o closet masculino no quarto, onde guarda as calças e as camisas sociais do engenheiro-avô “Luisão”, e, no escritório, um armário, antes usado para guardar os equipamentos de esportes radicais, como o paraquedas, que hoje abriga os vestidos, saias e perucas de Luyze – protegidos à chave da curiosidade alheia.

“Eu não me sinto menos hétero por colocar meia-calça. Mas não sou gay. O que eu sou, então? É mais cômodo chamar minha esquisitice de algo”, diz Luyze. “Eu gosto de ir para a obra como sapo, de paquerar as meninas, isso não quero mudar. Eu sou homem. Morro de desejo por mulher. Mas gosto de me vestir de mulher também.” Difícil de explicar, não? “Olha, se acharem complicado, digo que sou lésbica e pronto.” E surgem gargalhadas masculinas, que sacodem a peruca loira. Laerte ri, o garçom ri, todos riem. São risadas indecifráveis. Como elas.

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