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Sociedade

Atacama

Los 33

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 15/10/2010 10h57, última modificação 18/10/2010 10h34
Drama dos mineiros assemelha-se a uma epopeia, porém a primeira a ser transmitida em tempo real

Dramas dos mineiros assemelha-se a uma epopeia

Mais um evento em que sentimos orgulho da raça humana. É quando vemos e sentimos que somo seres viáveis, apesar dos pesares. Emocionante o trabalho de equipe para o resgate dos mineiros soterrados no Chile.

Na terça feira, 12, ante a expectativa mundial da retirada dos primeiros trabalhadores entre os 33 presos há 69 dias numa mina no deserto de Atacama, impossível não pensar no clássico “A Montanha dos Sete Abutres” (Billy Wilder, 1951).

O filme é um aula definitiva de jornalismo em que Kirk Douglas é um repórter aético e oportunista que se aproveita do drama de um homem soterrado em uma caverna em Albuquerque, no Novo México, para faturar uma grande reportagem e salvar-se do ostracismo.

Na verdade, na verdade, porém, a odisseia dos 33 está mais próxima de uma outra, a da Apollo 13, que ia para a Lua, mas não conseguiu descer lá. Foi a primeira dessas epopeias do Homem em que o mundo inteiro acompanhou pela televisão. Agora, porém, a de Atacama deixa a da Apollo 13 na pré-história da comunicação global. Quer dizer, da aldeia global de que nos falou Marshall MacLuhan.

A vez da bonintinha Agora aparece a mania, popularizada por um comercial de TV, de chamar os outros de bonitinha ou de bonitona, algo como “querida” ou coisa parecida. Tipo de tratamento usado por quem não nos conhece para parecer intimo, ou pior, por quem nos conhece tentando, debalde, saudade dessa palavra estranha, agradar. O resultado é uma mistura de inconveniência com mau gosto.

Ainda recentemente o abominável nem, derivado de neném, dominou diálogos, até virar brega. “Nem” é também o codinome de um procurado traficante carioca, com essência de Bin Laden. Ninguém sabe até hoje se Nem morreu, numa incursão da polícia à favela de São Conrado, ou se ele está vivinho da silva, positivo e operante, recolhido nas cavernas da Rocinha, um labirinto urbano, comparável ao do desértico Afeganistão.

Essa mania de chamar o outro de nego, neguinha, mano, brother, mermão, colega, gatinha, gato, lindona para substituir o nome e gerar simpatia normalmente é um tiro pela culatra. Mas são coisas da comunicação pop e quando a gente vê, vira mania nacional até desaparecer e surgir uma outra.

De qualquer maneira, um saco.

Cinema mulherzinha Quem quiser ver uma espécie de reedição de Uma Linda Mulher que vá assistir Comer, Rezar, Amar, com Julia Roberts. O filme baseado numa história biográfica homônima da jornalista americana Elizabeth Gilbert deixa um monte de furos.

Mas quem se importa se há um sempre bom passeio pela Itália, curiosidades sobre a rotina de um ashram (retiro hinduísta) na Indonésia e, finalmente, um belo encontro de amor na paisagem verde de Bali.

Lá, entre o mar e a vegetação exuberante, a viajante Liz é atropelada por um brasileiro, Guilherme. E entre um arranhão na perna e outro, os dois acabarão por se apaixonar.

Guilherme fala um português muito parecido com espanhol (por que ainda é assim mesmo no cinema profissional de Hollywood?) e é um bom divulgador da música brasileira que ouve no carro, em casa, onde puder.

O filme não pode ser mais do que um passatempo e está a altura do livro, um bestseller lançado em 2006, arrastado que só, e difícil de ler As fãs incondicionais, e não são poucas, da história da mulher divorciada que resolveu tirar um ano sabático para reencontrar a fome pela vida alegam que após alguns capítulos a leitura engrena. Mas até lá... Pelo menos o filme tem uma trilha sonora belíssima que percorre décadas variadas e que inclui dois João Gilberto e uma Bebel. Tudo a ver. O amado de Liz ama a MPB e dá selinho na boca do filho de 18 anos – hábito descrito no filme como brasileiro.

Se Julia Roberts continua sendo ela mesma uma linda mulher, Javier Bardem é um belo homem, uma espécie da macho alfa, sensível, carente, presente, pró-ativo e, melhor, que propõe um casamento com uma casa em Nova York e outra em Bali. Aí, sim.

Bardem tem, como diria uma amiga dessa coluna, que decidiu namorar um trabalhador braçal, uma beleza de “lenhador”. Seu rosto, de olhos pidões, parece talhado na pedra.

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