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Longa jornada pela Justiça

por Rodrigo Martins publicado 08/09/2012 09h22, última modificação 08/09/2012 09h22
O físico Geraldo Barbosa e a luta para condenar o ruralista que matou seu filho
Professor UFMG

Vítima. Policial federal, Alexandre (de camiseta azul, no retrato) morreu após uma discussão em uma boate. Foto: Washington Alves/Light Press

Professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o físico Geraldo Barbosa nunca imaginou que precisaria usar seus conhecimentos para reconstituir a cena de um crime. Hoje engajado em trabalhos de consultoria, ele também lecionou na Northwestern University de Chicago e chegou a cooperar com agências do governo americano. Os complexos projetos na área de defesa parecem menos desafiadores que a sua atual e inglória tarefa: reunir provas para garantir a condenação do homem que matou seu filho. “Perdi a conta do número de vezes em que assisti ao vídeo do assassinato para achar mais um detalhe”, conta com voz embargada.

O agente da Polícia Federal Alexandre Barbosa, de 36 anos, foi executado a tiros pelo líder ruralista Alessandro Meneghel na porta de uma boate em Cascavel (PR), a 500 quilômetros de Curitiba. O crime ocorreu momentos após uma discussão entre eles dentro da casa noturna, e presenciada por testemunhas. Uma câmara de segurança flagrou o momento em que o produtor rural se aproximou com o carro e começou a disparar com uma pistola .380 contra o policial. No chão, o agente conseguiu sacar a arma e revidar. Mas acabou abatido por novos disparos, desta vez saídos de uma escopeta de calibre 12 com cano curto. Os legistas identificaram mais de 40 perfurações no corpo da vítima.

Horas depois o ruralista telefonou para a polícia e se entregou em uma de suas fazendas. Alegou, porém, legítima defesa. “Meneghel matou para não morrer. Cessou uma injusta agressão partida do policial federal, que atirou primeiro”, diz Cláudio Dalledone Júnior, advogado de defesa.

É justamente para desmontar essa tese que o pai do agente assassinado reuniu cinco experientes físicos, com expertise na área de óptica, para reconstituir a cena do crime a partir do vídeo. “Testemunhas confirmam que o ruralista saiu da boate e esperou meu filho sair para matá-lo. Atirou pelas costas, dá para ver na gravação. Como as imagens não estão muito boas, por conta de uma luz contrária à câmara que satura um pouco a imagem, vamos apresentar um laudo para dirimir as dúvidas.”

O documento será apresentado até o fim de setembro ao Ministério Público, que já concluiu as investigações e denunciou Meneghel à Justiça por homicídio qualificado (motivo torpe e sem chance de defesa), porte ilegal de arma de uso restrito e por dirigir sem habilitação. “Os depoimentos e as provas periciais coletadas não deixam dúvidas de que Meneghel surpreendeu a vítima com vários tiros. Os disparos feitos pelo policial partiram de baixo para cima, como demonstram as perfurações no carro do ruralista. A vítima atirou do chão”, afirma o promotor Sérgio Ricardo Cezaro Machado, da 2ª Vara Criminal de Cascavel.

Segundo Alaor Silvério Chaves, um dos especialistas que avaliam o vídeo do assassinato, é possível comprovar pela imagem refletida na parede de granito que o policial estava de costas para o carro do ruralista quando ocorreram os primeiros disparos. “A cena está sendo reconstituída com o auxílio dos melhores programas de computador”, afirma o professor da UFMG, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Física e pós-doutorado pela University of Southern California, nos EUA.

O laudo encomendado pela família do policial assassinado é apenas um capítulo da longa batalha travada por Barbosa para evitar que o crime não permaneça impune. Homem influente no interior paranaense, Meneghel foi indiciado pelo Ministério Público em 2007 por formação de quadrilha ou bando armado, quando começou a arregimentar milícias para dissolver acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. À época, foi acusado de ligações com os seguranças que mataram o agricultor Valmir Mota de Oliveira, o Keno, durante a ocupação da antiga fazenda da Syngenta em Santa Tereza do Oeste. Em 2009, foi preso por porte ilegal de arma, crime pelo qual seria condenado, mas só começou a cumprir pena após a morte do policial federal.

Ex-presidente da Sociedade Rural do Oeste, disputou uma vaga na Assembleia Legislativa do Paraná pelo DEM. A candidatura foi barrada pela Justiça Eleitoral com base na Lei da Ficha Limpa. Na campanha, recebeu o apoio do governador Beto Richa (PSDB): “Como amigo e aliado político, quero dizer que o Alessandro (Meneghel) vai caminhar junto com a gente na campanha eleitoral”. Em fotografias, o ruralista aparece triunfante sobre um cavalo ao lado de Richa e José Serra.

Diante de tanta influência, a Polícia Federal se apressou em divulgar o vídeo do assassinato. “Foi uma medida preventiva”, explica o pai do agente assassinado. “Meneghel patrocinava churrascos para policiais e doou cavalos para a PM. Com o vídeo na internet, não era possível ignorar aquela barbaridade”. A Polícia Civil cumpriu o seu papel. Mesmo assim, fatos curiosos ocorreram no curso das investigações. Uma casa noturna ao lado da boate onde ocorreu o crime, por exemplo, misteriosamente perdeu as imagens registradas por suas câmeras na noite do homicídio. Segundo os donos, houve falha técnica.

Barbosa estranha ainda as sucessivas transferências de Meneghel. Inicialmente levado para o presídio federal de Catanduvas, foi removido para uma unidade estadual e, em seguida, para a Penitenciária Industrial de Cascavel (PIC), com regime mais brando. No fim de agosto, o juiz Paulo Damas, da Vara de Execução Penal, o mesmo que permitiu a última transferência de unidade prisional, autorizou a internação do ruralista, por 30 dias, em um hospital particular. O preso pediu o benefício para tratar dores abdominais e lombares.

Desde o início, o Ministério Público se manifestou contra a saída. O setor médico da penitenciária havia avaliado Meneghel e foi categórico ao dizer que ele apresentava “sinais vitais que não condizem com as queixas”. Segundo uma denúncia anônima encaminhada à Polícia Militar, homens armados teriam sido recrutados em Foz do Iguaçu para resgatar o ruralista da clínica. A segurança no hospital foi reforçada e o suposto plano de fuga foi relatado ao juiz Damas. Procurado por CartaCapital, o magistrado não quis falar sobre o caso.

Da forma como pode, o pai do policial assassinado tenta alertar autoridades e jornalistas sobre o risco dessas transferências. Conta com o apoio do Sindicato da Polícia Federal de Cascavel, que planeja uma manifestação em frente ao hospital. “No ano passado, uma traficante conseguiu autorização para se tratar num hospital e fugiu. Além disso, é justa a preocupação da família em relação aos benefícios. É muito diferente cumprir pena num presídio ou numa confortável clínica particular”, afirma o representante sindical Sandro Andrade.