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Líderes estampam notas na Cidade de Deus

por Paula Thomaz — publicado 22/09/2011 11h16, última modificação 27/09/2011 16h44
Para incentivar comércio local, banco comunitário cria cédulas próprias e homenageia pessoas que desenvolvem trabalho social

As notas de Real que circulam pelo Brasil inteiro são reconhecidas pela ilustração da efígie da República, uma mulher inspirada na imagem da Liberdade, do quadro A Liberdade guiando o Povo, de Eugène Delacroix. No regime de economia solidária, implantado na semana passada no Rio de Janeiro, a moeda social que circula desde o último dia 15, na favela Cidade de Deus, a CDD (abreviação de reconhecimento do bairro), é representada por gente comum - mas importantes para o local, como a dona Geralda Maria de Jesus, cuja foto está na cédula equivalente ao um real.

Tão famosa quanto a imagens das notas do Real lá na comunidade, a moradora de 82 anos, uma das primeiras a chegar ao bairro, em 1965, diz que esse é um reconhecimento do seu trabalho. “Sou muito agradecida a todos aqueles que entenderam o que eu faço e compreenderam que eu estava sendo merecedora de passar por esse momento”, vibra a homenageada.

Mineira de Carangola, região da Mata, dona Geralda, que chegou aos 36 anos e com oito filhos na Cidade de Deus, há mais de 20 serve café da manhã (leite e pão com manteiga) e almoço para gestantes e crianças carentes. “Tudo é distribuído aqui na minha casa, com a ajuda de umas 200 pessoas e dois de meus filhos, Ana Regina, 50, e Nilo Sergio, 39”. Ela formou o grupo sem ajuda governamental e, até hoje, tudo é feito com “um pouco que cada um pode dar”. É ela quem prepara as refeições. “Eu estava para me aposentar, quase com 70 anos, e fiquei pensando o que é que eu poderia fazer para continuar trabalhando e surgiu a boa vontade de ajudar crianças e grávidas”. De segunda a quinta-feira dona Geralda distribui refeições gratuitamente.

São exemplos de moradores que contribuem para o desenvolvimento da Cidade de Deus que estampam as notas de CDD que agora fazem parte do dia a dia do comércio. Quem troca o Real pela moeda social, consegue desconto de até 10% nas compras. Com isso, espera-se colocar em prática o objetivo do Banco Comunitário, que é o de incentivar a produção e consumo de produtos e serviços locais, promovendo a economia da comunidade.

Além de operar em moeda própria, os clientes terão acesso a linhas de crédito, em reais, para investir em produção, e a empréstimos para o consumo, em moeda social. Para isso, os moradores da comunidade contam com uma carteira de crédito disponível no banco na ordem de 250 mil reais, captados junto ao BNDES, ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal. Produzida dentro de um conceito de segurança em camadas, a moeda social passa por dois sistemas de impressão, offset e calcográfico, e em cada um deles recebe múltiplos elementos que, superpostos, impedem sua reprodução ou adulteração. O sistema é o mesmo utilizado na fabricação de cédulas de quase todos os países e recomendado pela Interpol para impressão de documentos de segurança.

Além de Geralda, a dona Benta Neves do Nascimento, também é notável e aparece na cédula de 5 CDD, que tem o mesmo valor de 5 reais. Ela criou a ONG Comitê da Terceira Idade e já formou centenas de pessoas em cursos de corte e costura, artesanato e bordados.

Dois moradores já falecidos estão nas notas de 10 CDD e de 2. São Julio Grooten, que foi o primeiro padre do bairro, onde criou a Paróquia da Matriz e ergueu a primeira creche; e João Batista, que dirigia a Associação Beneficente Obra Social Estrela da Paz, que cuida de crianças e adolescentes em fase de desnutrição. A única exceção é a cédula de 0,50 CDD que traz a imagem da Casa do Barão, importante na história da região.

O protagonismo dos moradores vai além das notas, pois eles fazem parte de uma iniciativa maior que integra as ações da Agência de Desenvolvimento Local que desde 2005 busca ações que respondem as necessidades da população e se organiza de diversas formas para enfrentar os problemas do bairro. A comunidade foi chacoalhada em 2002 pelo filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, que gerou grande insatisfação nos moradores. Para eles, o filme retrata a  comunidade como um local violento, insuflando, assim, o preconceito e a criminalização da pobreza. E foi justamente esse sentimento que serviu para mobilizar 20 diferentes instituições locais, empenhadas em mostrar ao poder público que precisavam muito mais do que ações contra o tráfico de drogas e o crime organizado. Na pauta comunitária, despontaram temas básicos, como educação, trabalho, renda e saúde – plataforma de partida do Comitê Comunitário da Cidade de Deus, criado em 2003 com a finalidade de discutir as demandas da comunidade e influenciar políticas públicas.

O Banco Comunitário Cidade de Deus também tem a digital da comunidade e nasceu da vontade dos moradores expressa em assembleias de representação popular. A administração fica nas mãos deles, como recomenda o modelo de economia solidária. A sede funciona na Agência de Desenvolvimento e está sendo gerenciada por sua presidenta, a também moradora da comunidade Ana Lúcia Pereira Serafim, escolhida por meio de eleição.

Na ocasião do lançamento do banco Comunitário, o prefeito da cidade, Eduardo Paes (PMDB), fez questão de lembrar que o feito é dos moradores. “É importante dizer que se trata de uma iniciativa da comunidade” e que a prefeitura e governo federal são parceiros auxiliares.

Tudo era mais difícil na Cidade de Deus, conta dona Geralda. Para comprar comida, era preciso “ir a pé à Freguesia”, bairro vizinho à Cidade de Deus. Com a chegada do banco, dona Geralda comemora: “Nossos filhos passavam grande sacrifício para procurar emprego. Não podia nem dizer que morava na Cidade de Deus, porque não conseguiam vaga. Agora, todos entram aqui sorrindo, conversando, e chegar um banco na comunidade é algo muito gratificante. O pessoal vai ter respeito, vão ver o que a gente passou, vão divulgar o que nós fizemos. Hoje eu sou uma rainha, porque quando eu cheguei aqui não tinha nada. E hoje tem tudo”.

“A alma do banco é fazer com que a riqueza gerada na Cidade de Deus permaneça na comunidade e a existência de uma moeda local vai permitir isso. Seus moradores possuem enorme potencial de produzir riqueza internamente, de negociar e de estimular as atividades econômicas locais. Com isso, os comerciantes locais só terão a ganhar, uma vez que as pessoas passarão a consumir somente aqui”, disse o prefeito, completando que pretende levar o projeto a outras comunidades da cidade.

Só no Brasil são 63 agências de bancos comunitários criados desde 2005. Um desempenho que alimenta uma meta ousada: bater a marca dos mil bancos até 2014, consolidando a tecnologia social como estratégia de enfrentamento da pobreza no país. A expectativa é do teólogo e educador popular Joaquim de Melo Neto, mentor e coordenador da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, do Instituto Palmas e do Banco Palmas, a experiência pioneira, desenvolvida em Fortaleza há 13 anos. Segundo ele, do total de novos bancos comunitários previstos para os próximos três anos, 60% devem se concentrar nas regiões Norte e Nordeste e 40% no Sul, Sudeste e Centro Oeste.

De acordo com Ana Lúcia, gestora do Banco, desde a abertura da agência, cerca de seis mil CDD já circulam pela comunidade. Mas uma das notas pelo menos não vai sequer circular pela comunidade: uma cédula de 1 CDD que não sai por nada da bolsa da dona Geralda. “Vou te dizer de coração, na carteira só tenho uma nota de 1 CDD. E não vou gastar ela não. Agradeço a Deus por aquela nota estar comigo.”

E todo mundo entende o porquê.

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