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Sociedade

Cenário Noir

Levante da fumaça

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 30/07/2010 12h28, última modificação 30/07/2010 13h01
Até 2014, a Light pretende terminar a revisão dos bueiros cariocas. Enquanto isso, o que fazer?
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Em Nova York, o cenário fumegante é recorrente e controlado. Foto: Ana Maria Badaró

Até 2014, a Light pretende terminar a revisão dos bueiros cariocas. Enquanto isso, o que fazer?

Só daqui a quatro anos quem pisar nas calçadas cariocas estará tranquilo. É o que prometem os responsáveis pelos bueiros de luz, sob tutela da Light, que andam mandando pelos ares não só pessoas, mas a segurança de quem vive na cidade ou de quem a visita. O casal de americanos gravemente feridos no início do mês, na Rua República do Peru, em Copacabana, sobreviveu por milagre como protagonistas de uma história tétrica, sem a mínima chance de ser chamada de fatalidade.

David, com 35% do corpo queimado, teve alta esta semana, mas sua companheira, Sarah, com 85% do corpo atingido, permanece internada. A explosão do bueiro que atingiu os visitantes deixou pessoas com medo e traumatizadas. O filho da dona de uma banca de jornais do bairro que passava pelo local na hora do acidente disse que o episódio foi o “11 de setembro” da vida dele.

O rapaz, com menos de 30 anos, usou como metáfora do horror talvez a manchete mais impressionante que já tenha dependurado na banca em sua vida de jornaleiro. Horas depois do acidente, ele dizia, balançando a cabeça: “Até agora ouço os urros de dor da moça. Parece que os gritos dela estão grudados nos meus ouvidos”.

Depois da tragédia em Copacabana, bueiros em outros bairros foram ou ameaçaram ir pelos ares em menos de 15 dias. Ou passaram a atemorizar ainda mais os passantes e moradores, seja fumegando, seja exalando cheiros de queimado ou de gás. Ficaram agora mais comuns as denúncias de que algo de anormal está acontecendo nos subterrâneos da cidade.

Como caminhar despreocupado pelas ruas, se a Light, por exemplo, manda avisar que só em 2014 sua revisão operacional necessária estará concluída? E como em todas as grandes cidades há bueiros para todos os serviços essenciais como esgoto, luz, gás, telefonia, vamos fazer o quê? Andar pelas calçadas como Melvin (Jack Nicholson), em Melhor É Impossível (1997)? No filme, o personagem, meio doidão, sofre de TOC e não consegue pisar nas partes escuras das calçadas. O resultado é tragicômico. Mas aquilo é comédia de Hollywood.

Essas explosões podem ocorrer em qualquer cidade do mundo. Isso, porém, não diminui a preocupação de quem pelo Rio passa, por lazer ou obrigação, e descobre estar caminhando em terreno não só esburacado. Recentemente, uma dessas bocas de ferro lançou labaredas justo em frente à sede do The New York Times, em Manhattan. Ninguém se feriu e não se teve notícia de que só dali a alguns anos o problema não se repetiria. Entre os bueiros e os terroristas, lá se fica com o segundo.

Cenário noir Bueiros fumegantes, aliás, são típicos de cidades do Hemisfério Norte ou de regiões frias. A fumaça que sai dos respiros dos sistemas de calefação dos metrôs, como em Nova York, integra a paisagem do inverno não perturba a população e dá um plus aos dias chuvosos e cinzentos.
Asfaltos enevoados já renderam memoráveis cenas do cinema. Os bueiros, que também inspiram e inspiraram, aqui e no exterior, intervenções artísticas e publicitárias, como xícaras de café quente deitadas no asfalto, pegando carona na fumacinha real que sobe, passaram a chamar atenção entre nós, infelizmente, pelo medo.

Cheiro do ralo Há alguns anos, o centro financeiro carioca tornou-se um dos lugares mais desagradáveis e feios do Rio. A desordem cristalizou-se nas avenidas Rio Branco e Presidente Vargas e arredores, e agora é um triste e decadente elemento da paisagem. Algo continua mudando – para pior.

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