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Lagos atacados pelo calor

por Envolverde — publicado 17/12/2010 10h47, última modificação 17/12/2010 10h47
O aumento da temperatura superficial do tranquilo Lago de Constanza, compartilhado por Alemanha, Áustria e Suíça, provoca mudanças que podem levar à destruição de grande parte da biodiversidade local

Por Julio Godoy, da IPS

Paris, França – O aumento da temperatura superficial do tranquilo Lago de Constanza, compartilhado por Alemanha, Áustria e Suíça, provoca mudanças que podem levar à destruição de grande parte da biodiversidade local. A temperatura do Lago aumentou 0,3 grau por década nos últimos 50 anos, segundo a Agência para a Proteção Ambiental, do Estado alemão de Baden Wuerttemberg. A elevação da temperatura da água é um fenômeno global vinculado à mudança climática, confirmou um estudo do laboratório Jet Propulsion (JPL), da Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa) dos Estados Unidos.

A pesquisa do JPL, divulgada em agosto, analisou a temperatura da superfície de 167 lagos em todo o mundo, por meio de imagens infravermelhas termais feitas à noite. Os dados foram coletados entre 1985 e 2009 nos meses de julho a setembro e janeiro a março. As temperaturas superficiais noturnas aumentaram rapidamente nos últimos 24 anos, em média 0,5 grau por década, segundo os autores do estudo, Philipp Schneider e Simon Hook. Em alguns lagos, o aumento chegou a 1,3 grau em dez anos.

O processo de aquecimento diminui o intercâmbio cíclico das camadas de água dos lagos. A água mais quente é mais leve e permanece na superfície, a mais fresca e mais pesada fica no fundo. No entanto, no período do ano em que a temperatura da superfície cai, as camadas de água circulam e se misturam em um ciclo que move o oxigênio e outros nutrientes por todo o lago. O ciclo de intercâmbio hídrico ocorre uma ou duas veze ao ano, dependendo do tamanho do lago.

“Quando a superfície da água permanece aquecida por mais tempo, este intercâmbio fica mais lento ou, até mesmo, não acontece”, disse à IPS o diretor do departamento de lagos do Centro Helmoholtz de Pesquisa Ambiental, da Alemanha, Karsten Rinke. A lentidão do intercâmbio de águas pode ser mortal para os seres vivos que habitam o fundo dos lagos. “Com o tempo, o oxigênio se esgota no fundo e os peixes e outras espécies morrem”, explicou Karsten. Um exemplo desta situação são os peixes brancos, que incubam no fundo do lago. Sem oxigênio, os alevinos, literalmente, se afogam quando nascem.

Além disso, muitos organismos ajustam seus processos metabólicos aos de outros. Por exemplo, os peixes põem ovos quando há alimento suficiente. “Muitos destes ciclos dependem da temperatura. Uma temperatura maior da água gera desequilíbrios no hábitat de espécies que não estão acostumadas a isso”, disse Karsten. Outro problema causado pelo aumento da temperatura é a proliferação de algas. Quando a água da superfície é muito quente, estes organismos crescem a um ritmo exponencial e cobrem os lagos. A alga reduz o oxigênio e agrava as consequências do lento intercâmbio cíclico da água.

“Como se não bastasse tudo isso, a água quente atrai espécies de fora para os lagos, que distorcem a cadeia alimentar, deslocam as espécies locais e por fim destroem o hábitat”, acrescentou Karsten. O aumento da temperatura do lago tem consequências que ainda não são bem conhecidas. Entretanto, sabe-se que a biodiversidade sofre com a distorção dos processos naturais. Envolverde/IPS

* Este artigo é parte de uma série de reportagens sobre biodiversidade produzida por IPS, CGIAR/Bioversity International, IFEJ e Pnuma/CDB, membros da Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (http://www.complusalliance.org).

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