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Sociedade

Caso Eloá

Justiceiros e linchadores

por Matheus Pichonelli publicado 17/02/2012 13h09, última modificação 17/02/2012 13h46
O justiceiro pede a eliminação do marginal e condena a brandura da lei. Mas quando patrocina barbárie não há crime, só 'ato impensado'
lindemberg

Momento da prisão de Limdemberg Fernandes, em 2008: ali começava a multidão querendo linchá-lo. Foto: Folhapress/Rivaldo Gomes

Há mais ou menos dois anos, me espremia numa fileira do Fórum de Santana, em São Paulo, para acompanhar o julgamento do casal Nardoni, à época os inimigos número 1 (e 2) da segurança nacional.

Estava perto, muito perto, dos familiares da vítima e dos acusados, e a comoção, muito além das salas da audiência (onde se concentravam os verdadeiros interessados na sentença) era perceptível nas ruas, vizinhança e casas de todo o País sintonizadas à espera de uma justiça exemplar.

Dentro e fora do tribunal do júri, ninguém parecia indiferente ao crime que anos antes havia chocado o Brasil inteiro: uma criança inocente havia sido jogada de uma janela do prédio e os principais suspeitos eram o próprio pai e a madrasta.

Terrível por si, o crime ganhou contorno de circo naqueles cinco dias de julgamento. Naquela semana, o advogado de defesa, Roberto Podval, encarou todos os males de um País impune ao tentar livrar os réus da condenação. O promotor, Francisco Cembranelli, era herói – e, de fato, quem acompanhou a guerra verbal entre acusação e defesa sabia que estava diante de um julgamento histórico.

Naquele espaço, parecia caber tudo, menos a dúvida. Todos pareciam certos de suas afirmações. Contra a defesa, havia fatos, que pareciam deixar os réus sem saída: o rasgo na rede de proteção, o formato das gotas de sangue que acusavam a altura de onde vieram, as manchas nas roupas, a inverossimilhança de um pai ao anunciar a tragédia.

Havia, sobretudo, o desconsolo de uma mãe atingida em cheio pela morte e o absurdo. Mesmo assim, quando vi de frente Alexandre Nardoni, calado num banco do júri, os óculos de grau, o rosto assustado diante daquela plateia, me perguntava: “E se...”

O “e se...” não cabe num julgamento, como em quase nada fora dali (sobre o assunto, existem dois filmaços: o recém-lançado “A Separação”, de Asghar Farhadi, e “Dúvida”, de John Patrick Shanley).

O casal foi condenado numa sexta-feira à noite. Para ouvir a sentença, centenas de jornalistas se acotovelavam no hall do fórum para finalmente escrever o relato definitivo (ao menos naquela instância) de uma tragédia.

Mal o juiz leu a condenação, e uma multidão que cercava o fórum começou a soltar bombas e vivas de uma alegria que parecia a explosão atlântica da Rosa dos Ventos. A poucos metros dali o circo estava montado: churrasco, placas, bandeiras e carros de som. Até o “Hino da Vitória”, a música que durantes anos marcou as alegrias de Ayrton Senna na Fórmula 1, foi entoada no meio da festa.

Pela comoção, era possível acreditar que o País estava, enfim, livre de todos os seus males ancestrais. Que nenhum pai ousaria levantar a mão sobre os filhos, nenhuma mulher seria agredida, nenhum corrupto ou corruptor seria capaz de exigir pedágio para destilar maldades sobre um Brasil purgado, finalmente limpo e justo.

O “Hino da Vitória”, pensei, não seria exatamente a trilha que a mãe de Isabella Nardoni ouviria quando chegasse em casa. Mas, para as pessoas que queriam ver sangue – ou bebê-lo por cinco minutos de fama (só na Copa do Mundo haveria tantas câmeras de tantos canais num mesmo espaço) – pouco importava.

Passam-se os anos e, em outro fórum, vemos um novo caso de comoção nacional ser julgado. Diferentemente do casal Nardoni, o réu Lindemberg Alves Fernandes, hoje com 25 anos, forjou provas contra ele mesmo ao promover um reality show de horrores na casa de uma ex-namorada, Eloá. Armado, o rapaz manteve a menina e os amigos dela como reféns e só saiu de lá quando a tragédia estava consumada. Quando a polícia chegou, era tarde: a menina estava morta e uma amiga, gravemente ferida.

As câmeras e intermediação dos apresentadores de tevê que conseguiram entrevistas “exclusivas” com ele em pleno local do crime não impediram o assassinato.

Após quatro dias de julgamento, Lindemberg foi condenado por 12 crimes. São quase cem anos de prisão, mas, como a pena máxima no Brasil é de 30 anos, ele poderá pedir a progressão para o regime semiaberto “já” em 2033. Vai ter tempo para pensar no que fez, segundo a própria mãe da vítima.

Justiça feita, direito de defesa cumprido, bola pra frente, certo? Não. Em pouco tempo, a patrulha justiceira voltou a vestir a fantasia do bom-mocismo e resolveu colocar as garras de fora (dessa vez para condenar quem condena). Mal a decisão saiu e já havia gente na internet relativizando o conceito de justiça nos olhos dos outros (vítimas, inclusive). Algo como: “ele cumprirá a pena por 30 anos, e ela, pela vida inteira. Isso é justo?”.

Pouco antes, havia gente indignada com o fato de o rapaz ter ganhado peso na cadeia à espera do julgamento. Indignados se perguntavam se era justo aos bolsos do contribuinte bancar a engorda de um criminoso confesso.

Com um pouquinho de corda e todos já pediam a importação de métodos chineses de fuzilamento: o criminoso é eliminado, e a família paga a bala. E finalmente todos os Lindemberg do mundo pensariam antes de agir.

Não é uma constatação científica, mas o coro nesse tempo de comoção nacional é feito quase sempre pelas mesmas pessoas que se indignam quando veem o Estado criar amarras para as próprias ações, como o direito inalienável de bater nos próprios filhos ou de expulsar à bala trabalhadores sem-terra que ocupam terras improdutivas. Para linchar um condenado (ou suspeito) é um pulo. Nesses casos, a violência é sempre justa (ou justificável) quando está a nosso favor.

Até que um dia os filhos instruídos, bem estudados e bem vestidos, resolvem aloprar e saem provocando estragos no carro emprestado dos pais. Bebem, aceleram, fazem filas de atropelados que tiveram o azar simplesmente de cruzar seus caminhos de reis entediados. No outro, arrebentam tudo o que é diferente deles por pura diversão: do homem que anda de mãos dadas com outros homens ao mendigo dormindo sob a marquise da loja de luxo.

E dá-lhe os papais metendo carteirada nas delegacias avisando que o filho fez um ato impensado, e não é marginal.

Em tempo: os exemplos não são matemáticos, mas servem para mostrar que todos estão sujeitos ao mesmo crime, seja na condição de vítima, seja na de autor.

Noves fora, é sempre mais fácil defender que a polícia prenda e arrebente os viciados em crack que me emporcalham o caminho de casa quando acredito não ter nenhum parente ou amigo envolvido num problema que imagino não me pertencer.

A ideia do marginal só faz sentido se ele estiver distante; quando está perto, ganha outros nomes ou conotações, seja para crimes passionais (Pimenta Neves que não me deixa mentir), violência doméstica ou barbárie no trânsito. Quando a bomba estoura perto, então o crime vira só desvio, ato de loucura, portanto passível de arrependimento e correção.

O “cumpra-se” só vale se estiver longe – porque nós e nossas culpas já fomos purgados nas manifestações de justiça, no “Hino da Vitória” e nas campanhas pelo linchamento. Sobre isso, Caetano Veloso já sentenciava: “A mais triste nação, na época mais podre, compõe-se de possíveis grupos de linchadores”.

Que a lei nos proteja de nossos próprios justiceiros.

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