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Jogo de ancas

por Eduarda Freitas — publicado 26/07/2010 16h37, última modificação 26/07/2010 16h57
Jornalista portuguesa, nossa nova colaboradora, aproveita o final do clima de Copa do Mundo e retoma sua crônica de tri-campeã nos gramados lusitanos

Tenho lá por casa umas chuteiras que comprei, já lá vão alguns anos. E tenho no joelho esquerdo resquícios de uma queda, à porta da baliza, numa tarde quente de Julho, em Macedo de Cavaleiros. A bola não entrou. Entrei eu, baliza adentro. O joelho ficou a medir forças com uns insuportáveis grãos de areia. Valeu-me o meu pai e a sua arte sempre sábia de curar as maleitas de quem não se importa de se espalhar, literalmente, nos campos da vida. Sempre insisti numa vontade que não acompanha o jeito dos meus pés. Já tentei ser Defesa. Central e lateral. Ala. Ponta de lança. Optei por organizar torneios. De matraquilhos e de futebol. Feminino e masculino. Na minha aldeia - que é uma espécie de mundo dentro do mundo que a tece – acontece muito pouco. E um torneio de verão é um evento. Tornei-me tri-campeã de futebol de Ferreiros, com camisolas patrocinadas pela cabeleireira local. Tenho fotos a comprova-lo. Com a taça na mão e a cara muito vermelha. A Sandra, que é minha prima, é tetra-campeã. Houve um ano em que não jogamos juntas. Foi só um ano…mas o suficiente para ficar sempre à frente nesta coisa dos méritos futebolísticos. Na minha aldeia, para já, acabaram-se os torneios de futebol. A razão? Os jogadores falavam de mais. Os masculinos, sublinhe-se. No último ano quase houve confusão, porque juravam a pés juntos, quase em riste, que o árbitro estava comprado, que favorecia uns em detrimento de outros. Mentira. Pura especulação. Por isso a organização decidiu transformar as noites de futebol em aulas de dança. Salsa. E merengue. Sem árbitros. Só com a preciosa ajuda de uma amiga que não levantava suspeições. Na bancada o pessoal reagiu bem. Por motivos diferentes: as mulheres porque aproveitaram para soltar as ancas das lides domésticas, os homens porque gostaram de as ver, assim, nesse movimento descontraído de inicio de noite. No Mundial de 2006, ouvi, enquanto escrevinhava umas coisas no computador, um comentador de televisão dizer qualquer coisa parecido com isto: «Por vezes, na marcação das grandes penalidades, há guarda-redes que olham para as ancas dos jogadores que vão marcar. Não olham para os olhos, porque os olhos podem enganar, mas as ancas não…». Nessa altura não pude deixar de sorrir. E de acreditar que o futebol, dançado, é, sem dúvida, um jogo de ritmos. Uma verdade ou consequência.

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