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Sociedade

Copa 2014

Itaquera, o projeto que (quase) ninguém viu

por Felipe Corazza — publicado 31/08/2010 12h17, última modificação 14/09/2010 17h36
Atropelando o exigente protocolo da Fifa, São Paulo anuncia Copa no estádio do Corinthians e reacende a questão: é necessário que a cidade sedie a abertura?
Itaquera, o projeto que (quase) ninguém viu

Anunciado como a "salvação de 2014", estádio do Corinthians reacende a dúvida: é necessário que São Paulo sedie a abertura da Copa?

Credibilidade. Segundo o presidente do Corinthians, Andres Sanchez, essa foi a garantia oferecida pelo clube para receber o "sim" a sua arena como sede paulista da Copa do Mundo de 2014. O estádio, a ser erguido em Itaquera, bairro da zona leste de São Paulo, foi anunciado por Sanchez, junto com o governador Alberto Goldman, o prefeito Gilberto Kassab e o presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo del Nero.

Em entrevista à Folha de S.Paulo nesta segunda 30, Sanchez admitiu que nenhum dos três que o acompanhavam no lançamento viu o projeto. Tampouco tiveram acesso aos planos os integrantes do Comitê Organizador Local, da CBF ou da própria Fifa - sempre tão exigente e draconiana quando o assunto são os locais de disputa de sua competição maior. Atropelando o protocolo, a manchete era em tom definitivo: "Copa em São Paulo será no estádio do Corinthians".

O estádio, antigo sonho do clube que completa 100 anos nesta quarta 1, custará 300 milhões de reais, com 48 mil lugares. Insuficiente para a abertura da Copa do Mundo, a capacidade pode ser ampliada para 68 mil, aumentando o custo para 470 milhões. A parte "corintiana" da obra será bancada pela própria construtora, a Odebrecht, em troca do direito de exploração do nome da arena. Caso seja feita a ampliação, quem bancará o restante? Responde Sanchez: "O Corinthians, não. O COL, os patrocinadores, sei lá. O Corinthians, não".

Inaugurado, o estádio será o fim de uma longa espera da maior torcida paulista e segunda maior do Brasil. Apenas anunciado para a Copa, é uma vitória na briga política contra o rival São Paulo, que pretendia receber o torneio de 2014 em seu Cícero Pompeu de Toledo, no Morumbi.

Na disputa por sediar a Copa, o São Paulo foi o primeiro plano da cidade, apresentado e vistoriado pela Fifa. Criticado desde o início pela entidade, o projeto são-paulino foi diversas vezes modificado e saltou de 260 milhões de reais para 600 milhões, inviável financeiramente. Depois de idas, vindas e farpas públicas, a CBF bateu o martelo no dia 16 de junho, durante a Copa da África do Sul: o Morumbi estava fora dos planos.

Outro rival do Corinthians, o Palmeiras, tentou atravessar o samba de Andres Sanchez. A Arena Palestra, projeto de reforma para o atual Palestra Itália, foi oferecida como alternativa. Nada. O prefeito Gilberto Kassab justificou nesta terça-feira, também na Folha de S.PaulO: o problema é o trânsito, mesmo tendo o estádio palmeirense a estação Barra Funda do metrô nas imediações e sendo bem mais próximo do centro do que Morumbi e Itaquera.

Recuperando, a título de memória, as inúmeras visitas de delegados do Comitê Local e da Fifa, as declarações de todas as partes possíveis a respeito do Morumbi, as garantias exigidas e os projetos apresentados - passando até por uma inesperada candidatura do Canindé, estádio da Portuguesa -, voltamos às declarações de Sanchez. Ninguém viu o projeto além do Corinthians, da construtora e dos arquitetos. Ainda assim, fechou-se a questão rapidamente em torno do "Itaquerão". Tudo baseado na credibilidade propalada pelo presidente corintiano: "Muita gente pode não acreditar, mas nós temos".

Mas afinal, São Paulo precisa da abertura? Para além das dúvidas específicas sobre o estádio corintiano, resta a grande questão sobre a necessidade de sediar o primeiro jogo da Copa. Com vocação para o turismo de negócios, vale a pena investir tanto para receber um evento localizado, que rende ocupação hoteleira por poucos dias? Segundo autoridades consultadas por CartaCapital, não. Forçar uma mudança na cultura turística paulistana não é necessário, nem saudável.

Com um investimento já confirmado de 720 milhões de reais no Maracanã, que sediará a final da Copa, por que não realizar a abertura no mesmo lugar? É o que defendeu Sócrates, colunista de CartaCapital, em artigo publicado há três semanas: "O ideal seria centralizar o investimento e o jogo de abertura no Rio de Janeiro, já que a Olimpíada também vai ser lá. Dessa forma, os desvios e o desperdício seriam menores". Leia a coluna completa .