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Irmã de extrativista assassinada é ameaçada no Pará

Incra entregou ao acusado de matar casal a terra que motivou conflito. Enquanto isso, a irmã de uma das vítimas é ameaçada e coagida em Nova Ipixuna (Pará)
por Gabriel Bonis publicado 05/03/2013 08:27, última modificação 05/03/2013 08:29
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Há quase dois anos, Laisa dos Santos Sampaio convive com a tensão criada pelas sucessivas ameaças de morte. A educadora não disfarça o receio dos recados para que se cale, mas mantém desde o assassinato da irmã, Maria do Espírito Santo Silva, e do cunhado, José Cláudio Ribeiro da Silva, em maio de 2011, em Nova Ipixuna, no Pará, o trabalho extrativista deixado pelos parentes no assentamento Praialta-Piranheira.

Laisa também não esconde a tristeza com a decisão do Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária (Incra) em conceder à esposa de José Rodrigues Moreira, acusado de ser o mandante do assassinato do casal, a posse do lote no assentamento que levou ao conflito e à morte dos ambientalistas. Em 14 de dezembro de 2012, o Incra considerou Antonia Nery de Souza apta a fazer parte do programa de reforma agrária do órgão. O seu marido, que nega envolvimento nas mortes, é réu no caso por homicídio qualificado e está preso.

Segundo as investigações das Polícias Federal e Civil, Moreira está por trás da emboscada na qual o casal foi alvejado por pistoleiros quando seguia para o assentamento, em 24 de maio de 2011.

O inquérito aponta que Moreira queria ocupar uma área comprada ilegalmente por 100 mil reais, em 2010. O fazendeiro pretendia criar gado no local, mas não conseguiu expulsar três famílias que viviam no lote sob a proteção de José Cláudio e Maria. Por isso, teria ordenado a morte do casal. Depois, teria deslocado parentes para ocupar os lotes e registrá-los no Incra. Um movimento que foi denunciado pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura, pela Comissão Pastoral da Terra e pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Ipixuna, em carta de 21 maio de 2012.

As entidades informaram o superintendente do órgão em Marabá, Edson Bonetti, para a retomada dos lotes. Para as ONGs, permitir a ocupação seria “premiar o mandante do assassinato brutal de duas lideranças” locais.

As entidades ainda alertaram que pessoas ligadas ao acusado mantinham ameaças a quem tentasse retomar no assentamento o trabalho de José Cláudio e Maria. Entre eles, Laisa e sua família. “O que mais dói é saber que essas pessoas foram protegidas pelo órgão competente pela lei. É muito triste perceber a conivência com o mal”, lamenta Laisa em entrevista a CartaCapital.

Em nota em seu site, o Incra informa que o processo administrativo de Antonia Nery (a mulher do réu) ainda não foi concluído e que, por isso, ela não foi reconhecida oficialmente como beneficiária do programa de reforma agrária. De acordo com o órgão, a Superintendência de Marabá detectou em 20 de fevereiro de 2013 que a esposa de Moreira não pode receber o lote porque seu marido possui impedimento legal. Por isso, pediu à Procuradoria Federal Especializada a retomada do imóvel.

Enquanto a decisão não é revertida, Laisa carrega os riscos e as ameaças de quem luta para preservar a floresta no estado que mais desmata no Brasil. E a repercussão de seu ativismo a coloca em uma situação cada vez mais delicada em Nova Ipixuna. “O que sai nos jornais, as pessoas fazem questão de divulgar para jogar todos contra mim.”

Conforme o julgamento, marcado para 3 de abril, se aproxima, o clima fica mais tenso. As pessoas, diz Laisa, a avisam dos riscos que corre. Com medo, evita comentar o caso para não sofrer retaliações. “Corro o risco de perder meu trabalho."

As ameaças contra a educadora, denunciadas anteriormente por CartaCapital (Leia e ), aumentam conforme sua situação repercute nacional e internacionalmente. “Continuo ouvindo recados de que eu tenho que morrer, ainda mais depois que meu nome foi inserido em um relatório da Anistia Internacional no qual digo que continuo levando em frente o trabalho do extrativismo.”

Declarações que têm mexido com parte dos habitantes da cidade paraense. Segundo Laisa, cada vez mais pessoas querem ela e suas ideias extrativistas fora da escola onde leciona. “É como se eu tivesse me tornado a única a remar contra a maré. Na linha de frente, me sinto coagida, com medo.” Apesar de tentar diversas vezes, Laisa diz nunca ter recebido proteção do governo. “Só tenho a proteção de Deus”, desabafa. “Hoje fui à escola fazer o planejamento das aulas, mas a cada minuto me perguntava se terminaria o dia viva."

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