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Tão Gomes

Invista na Rocinha

por Tão Gomes — publicado 26/11/2011 09h07, última modificação 06/06/2015 18h56
A mídia fica na discussão da metodologia do secretário Beltrame, quer saber se as UPPs vão funcionar, mas pouco se fala da valorização dos terrenos e barracos das favelas
rocinha

A ideia é que moradores denunciar eventuais abusos cometidos pelas forças de segurança. O objetivo é não repetir erros cometidos durante a ocupação do Complexo do Alemão. Foto: Divulgação/Governo do Estado do Rio de Janeiro/Marino Azevedo

Com essa história de crise na Europa e nos States, enquanto o preço dos imóveis  vai ao fundo do poço em lugarejos como Madri,  (diz a mídia que em Madri existem 70 mil residências vazias), na Barra de Tijuca no Rio, o mercado imobilário está vivendo um “boom” jamais visto.

Os analistas do setor atribuem a subida dos imóveis no Rio em geral, à proximidade da Copa do Mundo e das Olimpíadas.

Isso porque o pessoal ainda não descobriu o potencial da Rocinha.

Poucos enxergam nessa valorização o papel das UPPs do secretário José Maria Beltrame. Aos leigos, informo que UPP significa Unidade de Polícia Pacificadora, se é que existe polícia pacificadora. E Beltrame, secretário de Segurança, é o homem encarregado de “pacificar” as favelas do Rio.

Beltrame tem conseguido alguns êxitos marcantes, apesar da restrição de entidades de defesa dos direitos humanos a alguns dos seus métodos.

Pelo menos Beltrame tem tido êxitos midiáticos. O mais recente deles na Rocinha, oficialmente pacificada.

A mídia, no entanto,  fica na discussão da metodologia do secretário, quer saber se as UPPs vão funcionar ou não, se o tráfico vai continuar a existir (é claro que vai, o mercado está aí, cada vez mais sofisticado), mas  deixa de enxergar outro lado negocial dessa história.

Pouco se falou até agora da valorização dos terrenos e barracos da Rocinha e do Vidigal.

Se eu ainda morasse no Rio, uma cidade única no planeta pelo impacto do seu visual, eu estaria mais é tentando botar um dinheirinho (como se algum dia me tenha sobrado algum) na compra de um barraco no alto da Rocinha.

Imagine acordar de manhã, com o sol lindo que só o Rio propicia, abrir a janela do barraco e dar com aquele Cristo Redentor de braços abertos, ali pertinho de você. Eu pediria a benção antes de abrir a porta e topar, do outro lado, com a vista deslumbrante daquele marzão azul, e ali, debaixo do seu nariz, a praia de São Conrado, uma das mais lindas do mundo, com sua curva perfeita, e o Morro dos Dois Irmãos mais para a direita.

Não tem, no mundo, alumbramento igual. Nem parecido. Pode botar a vista de uma cobertura na Vieira Souto, o azul de Santorini, o prédio da falecida revista Manchete, no Russel, o que quiser. Eu sou mais a vista da Rocinha.

Ourto dia me ligou o Arnold Schwarzeneeger*. Eu falei da Rocinha e disse: vende a casa de Malibu, aquela que tem oito suítes, piscina térmica, academia de ginástica, etc., e vem morar na Rocinha.

O Arnoldo me explicou que nos States, ninguém mais compra casa.

Com a crise, o pessoal está morando é em trailer. Quando chega o fim do mês – e os vencimentos das  prestações – o sujeito pega o trailer e reboca a casa para outro Estado.

Eu tenho vários amigos que já descobriram a Rocinha. E contei ao Arnoldo o caso do doutor Bolívar, nosso amigo comum. O doutor Bolívar tinha um apartamento na Vieira Souto, uma cobertura toda de blindex espelhado, debruçada sobre a praia, em frente ao Posto Nove, em Ipanema.

Muito bem relacionado, ele ficou sabendo que um cliente dele, traficante graúdo da Rocinha, estava a fim de morar em Ipanema.

Afinal é por ali (Copa, Ipanema, Leblon) que circula a clientela.

O Bolívar, por sua vez reclamava de morar na cobertura da Vieira Souto, especialmente agora, que os negócios estão sendo prejudicados pela crise e pelas tais UPPs.  Estava com o IPTU atrasado desde 2009.

Conclusão: trocou a cobertura por um barraco do cliente na Rocinha, no pau a pau, sem precisar botar um tostão.

Expliquei ao Arnoldo que tem neguinho que mora na Rocinha há mais de 20 anos e nunca pagou o IPTU. Disse ainda  que na Rocinha tem uma empresa chamada Cabonet que põe a programação de tevê que você quiser por míseros 20 reais.

Ele  resmungou naquele horrível sotaque austríaco: “Incrível, eu não acreditar".

Nem foi preciso falar na tranquilidade  que é você receber os amigos para um churrasco na laje…

Na laje, não tem neguinho passando ao lado do teu guarda-sol e jogando areia. Nem o pessoal do vôlei toda hora pedindo pra você devolver a bola.

Depois, você olha prum lado e tem o Cristo Redentor pertinho de você.

Olha pro outro, lá embaixo está a beleza da Praia de São Conrado e à direita o Morro dos Dois Irmãos

Percebi, pelo tom de voz, que o Arnoldo captara a mensagem. Eu ainda avisei: vem logo rapaz, que o metro quadrado na Rocinha logo logo vai estar valendo mais do que em Wall Street.

P.S. – Aos que duvidarem da minha amizade com o Arnoldo basta ligar para a Rádio Metrópole FM e falar com o Mario Kértzs.

 

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