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Interesses escusos

por Socrates — publicado 29/02/2008 15h25, última modificação 21/09/2010 15h39
Não podemos esquecer que muitos dos que fazem parte do Congresso Nacional têm como base ligas regionais ou clubes esportivos que produzem, no futebol, dividendos e votos geralmente de cabresto

Não podemos  esquecer que muitos dos que fazem parte do Congresso Nacional têm como base  ligas regionais ou clubes esportivos que produzem, no futebol, dividendos e votos geralmente de cabresto

Desde a promulgação da chamada Lei Pelé, há mais de uma década, tivemos muitas e variadas associações entre investidores e os nossos clubes. Todas fizeram água, com graves prejuízos para quem investiu no futebol brasileiro. Os acordos feitos prometiam mundos e fundos aos investidores, que entendiam que o resultado lhes seria muito vantajoso, já que os investimentos realizados serviriam para comprar, a preço de banana, as gigantescas marcas de alguns de nossos principais clubes. O Vasco da Gama, por exemplo, fez um acordo inicial com uma instituição financeira para exploração de sua marca por um determinado tempo. Entretanto, ao cabo de alguns meses, todo o dinheiro colocado dentro do clube foi gasto (ou sei lá o quê), e a renovação antecipada tornou-se necessária porque não havia como sustentar os custos de manutenção. Então fez-se um adendo em troca de um “bananal”, e o prazo se estenderia até o fim do século XXI. Não durou nem um décimo disso.

No Flamengo, a parceria seria tão boa para os investidores que, se cada torcedor do clube comprasse um único produto da marca Flamengo por 4 (eu disse quatro) dólares em 15 anos, os investidores já teriam lucro. No entanto, aqui também se ofereceu a condição de administrador aos antigos dirigentes, que, como é praxe, abriram o ralo para que nele escoasse rapidamente toda a receita. E o acordo esgotou-se em poucos anos, contando inclusive com o afastamento do presidente. No Corinthians, há pouco tempo, ocorreu a mesmíssima coisa, com o agravante de não se saber exatamente a origem dos recursos investidos em caras contratações. Lavagem de dinheiro é a mais provável razão da existência daquela parceria, além da busca de asilo político para alguns integrantes da MSI. Outros acordos anteriores também tiveram o seu fim nas mesmas condições, com o clube se atolando em dívidas, apesar da entrada de grandes montantes de dinheiro em seus cofres.

Antes destas e de outras experiências do gênero, eu imaginava que a associação entre esses investidores, a incompetência administrativa de nossos dirigentes e a falta de transparência de suas gestões produziriam uma realidade tão dramática que o patrimônio dos clubes trocaria de mãos. Principalmente com base na análise do modo como os cartolas sempre destrataram as relações com a União, ignorando os compromissos com a Previdência Social, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e a Receita Federal, sem que nunca nada lhes acontecesse. Porém, esses grandes investidores, portando boas ou outras intenções, jamais assumiram o papel de administradores e viram seus recursos desaparecerem como por encanto e tudo permaneceu como antes.

No momento em que o governo federal lança nas ruas a loteria que promete permitir aos clubes honrar seus passivos com a União e pôr as suas gestões nos trilhos, uma pergunta se impõe: será que alguém acredita que isso realmente acontecerá? Eu não creio e motivos não me faltam. Basta analisar o que ocorreu com essas parcerias acima descritas para perceber que nossos gestores não são sérios – para dizer o mínimo sobre suas figuras. Se a seriedade não é o forte de suas ações, é possível imaginar que eles jamais pagarão o que devem e aproveitarão a nova situação fiscal para encontrar novos parceiros, inclusive estatais, e ludibriá-los, como sempre. A União, portanto, está se colocando exatamente como os investidores de então, aceitando a gestão dos cartolas com ingenuidade e submissão, sujeitando-se às mesmas conseqüências.

Naquele período em que, pela simples possibilidade da transformação de nossas estruturas em algo transparente, os investimentos chegaram às pencas, permitindo sonhar com mais organização, mais riqueza e competência, as nossas amadoras administrações não conseguiram produzir resultados concretos. Diante disso, como é que podemos esperar que hoje, sem nenhuma mudança nos nomes e nas ações administrativas, tenhamos algo positivo?

E tem mais pela frente. Volta à discussão a alteração da lei que rege o desporto nacional, muitas vezes a partir de argumentos facilmente contestáveis pelos inúmeros fatos ocorridos nos últimos anos e alguns acima citados. Não podemos, no entanto, esquecer que muitos dos que fazem parte do Congresso Nacional têm como base ou curral eleitoral ligas regionais ou clubes esportivos que produzem, no futebol, dividendos e votos geralmente de cabresto. Com isso, a possibilidade de mudanças na lei segue viva. Sempre para interesses escusos e insaciáveis.

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