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Ingratidão Futebol Clube

por Matheus Pichonelli publicado 12/01/2013 18h07, última modificação 06/06/2015 18h25
Quando compra a camisa de um jogador, o torcedor leva para casa o sonho de um ídolo eterno. Não há definição melhor para o estelionato

Acabo de cruzar pelas ruas com um cavaleiro de triste figura: um palmeirense surrado pela chuva levando às costas a camisa de número 20. Até a semana passada, era a camisa de um ídolo que se desenhava eterno. Com ela, Marcos Assunção pintou e bordou num meio-campo tão produtivo quanto um terreno de eucaliptos. Em julho, levou praticamente sozinho o Palmeiras à conquista da Copa do Brasil após 14 anos. Os três gols decisivos da final passaram por seus pés e o lançaram a um seleto grupo de ídolos no Parque Antártica.

Há uma semana, o capitão da conquista anunciou a saída da equipe após uma confusa negociação. Chorou, se disse desvalorizado pela direção, e aceitou ganhar menos para jogar no Santos.

Coisas do futebol. Oficialmente, Marcos Assunção deixou o clube por ver negado seu pedido de aumento salarial em plena crise (o time acaba de ser rebaixado no Campeonato Brasileiro). Segundo o noticiário, ele teria pedido 300 mil reais mensais para ficar.

O episódio levou à pergunta: quem, no mundo, vale tanto dinheiro?

É uma pergunta que o torcedor custa a responder. Estranha-se, por exemplo, as toneladas de dinheiro recebidas por um único jogador e se compara, de forma até ingênua, a profissões mais úteis ou que requerem mais responsabilidades à frente de grandes companhias. Mas o jogador não é só um atleta. É um outdoor com a qual os patrocinadores querem associar a sua marca e se projetar. Não importa quantos atos heroicos consagram médicos, bombeiros ou policiais nas ruas das grandes cidades. Eles jamais vão ter a projeção de um Neymar, uma personalidade que já alcançou um patamar tão alto de reconhecimento que faria qualquer marca alavancar as vendas com uma simples menção na tevê.

Ou seja: no caso do clube, paga-se uma tonelada de dinheiro para manter o craque em campo na intenção de ver retornadas outras toneladas de dinheiro por meio de patrocínio, camisas, produtos licenciados e torcedores dispostos a ver o craque em campo. No caso do patrocinador, é a chancer de ter, de saída, um público com milhões de espectadores. O que é gasto para uns, portanto, para outros é investimento.

No episódio Marcos Assunção, o Palmeiras pode ter sido prudente como pode ter ignorado um conceito básico em economia: o custo de oportunidade. O quanto o clube deixou de arrecadar desfazendo-se de um ídolo? É algo difícil de se calcular porque poucos descobriram a fórmula para transformar futebol em algo rentável sem tratar atleta como produto tipo exportação.

Goste-se ou não, o padrão Neymar, que brilha no País há quatro longos anos, é hoje o sonho de consumo de qualquer clube. Mas é um caso raro. Na maior parte das vezes, o amadorismo de clubes leva o torcedor disposto a "consumir" a marca a comprar lebre pagando por gato. Por exemplo: o que os flamenguistas fizeram com as camisas de Thiago Neves compradas quando o meia se transferiu para o Fluminense após poucos meses? E as camisas de Ronaldinho, produzidas em escala industrial, foram descartadas tão logo o atacante se debandou para Belo Horizonte defender as cores do Atlético Mineiro?

Mais: o que os palmeirenses fizeram com o bonequinho (caríssimo) de Kleber Gladiador, vendido como ídolo e agraciado como "judas" após forçar a barra para deixar a equipe?

O futebol, sem as amarras de um passado recente, deu carta de alforria aos jogadores e os transformou em trabalhadores livres, que voam para onde bem entendem em busca de valorização. Não são “propriedades” de clube algum e é bom que seja assim, em que pese o apelo pelo amores eternos de ídolos antigos que nasciam, cresciam e morriam nos mesmos clubes, na alegria e na tristeza.

No fim, o jogador de hoje é só um reflexo do próprio mercado (atire a primeira pedra quem jamais trocou de emprego após receber uma oferta melhor).

Azar do torcedor, o único elemento do jogo que não se adapta a mercado algum – pelo contrário, dispensa tempo e dinheiro para obter bênçãos que só ele enxerga. Mais que isso, ele hoje é quase um investidor às avessas. O palmeirense da triste figura do primeiro parágrafo decerto não conseguiria hoje dez reais na venda da camisa de um ex-ídolo que se tornou rival (pagou bem mais pelo “amuleto” em julho). O prejuízo é acumulado no guarda-roupa, onde desde 2009 já descartou as camisas de Kleber Gladiador, Keirrison, Pierre, Diego Souza, Vagner Love e Luiz Felipe Scolari.

A cada camisa que comprava ele levava para casa o sonho de homenagear um ídolo eterno. Não há definição melhor para o estelionato.

Para se proteger, o cavaleiro da triste figura, antes de comprar a camisa do centroavante Barcos, seu novo maior ídolo de todos os tempos da última semana, quer agora sugerir ao Congresso um projeto de lei para que as camisas numeradas tenham informações sobre o prazo de validade.  Algo como: “Antes de adquirir este produto, saiba que o jogador homenageado pela numeração tem contrato só até o fim deste ano”. Pelo projeto, o produto poderia ser trocado em caso de transferência no meio da temporada. Se for para o clube rival, parte do dinheiro seria devolvida.

Em tempo de aperfeiçoamento das redes de proteção ao consumidor, até que não seria má ideia colocar na garantia os corações tão maltratados gratuitamente pelo futebol.

PS: Quando o Palmeiras venceu a Copa do Brasil, após o empate contra o Coritiba, um amigo que viajou até a capital paranaense para assistir à grande final teve a sorte de voltar no mesmo voo da delegação campeã. A certa altura, a balbúrdia dos jogadores era tamanha que uma comissária de bordo foi obrigada a apelar a Luiz Felipe Scolari, então técnico do time, para pedir aos seus jogadores que se sentassem para que a aeronave pudesse levantar voo. “Fale com meu capitão”, pediu Scolari, apontando para Assunção. A moral do veterano volante era tamanha que, diante do apelo da comissária, ele pediu silêncio aos “comandados” e foi prontamente atendido. O mesmo aconteceu na hora do pouso. Apesar dos anúncios oficiais, o palmeirense nunca saberá quem mentiu e quem falou a verdade sobre o imbróglio que afastou o ídolo do clube. Mas uma coisa é certa: o Palmeiras perdeu não só um craque, mas um líder de rara dignidade. Foi a primeira grande baixa de uma temporada em que o imperativo é se reerguer.

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