Sociedade

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Incinerando gravatas

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 05/02/2010 18h17, última modificação 20/09/2010 18h19
Em boa hora o calor derreteu a burocracia. Estatais que não abriam mão de seus empregados em terno e gravata fizeram-nos ouvir o grito do Ipiranga.

Em boa hora o calor derreteu a burocracia. Estatais que não abriam mão de seus empregados em terno e gravata fizeram-nos ouvir o grito do Ipiranga. Em benefício deles e em benefício da empresa. Sabe-se que mufa quente prejudica a performance. Mas o Sol, agora dizem lá das Oropas, aumenta o libido da macharia – o que qualquer ipanemenho sabia e, por isso, lá se vão 40 anos instituiu, por carioquice deste escriba, o aplauso ao pôr-do-sol por trás das Ilhas Tijucas.

Os homens, sempre sacrificados nos verões, podem agora ir trabalhar como se todos os dias fossem quintas e sextas casuais. Fora com a gravata, inclusive para os altos executivos. O termômetro acima dos quarenta chamou à razão os dirigentes corporativos que chutaram o pau da barraca. Exceção para os dias que pedem rigor formal, claro. (Há os que têm um passeio completo no armário do escritório.)

São hordas e hordas masculinas em mangas de camisa, mangas arregaçadas e pólos que os livram do garrote de seda italiana, ou não. O calor igualou no vestir os altos escalões aos andares de baixo. No entanto, não vale, para ambos, o estilo esculhambex, aquele em que se escorrega fácil, fácil, se não houver um mínimo de autovigilância.

Mas com os pescoços livres os homens perdem um pouco da elegância. No Ocidente, só louco não reconhece o charme de uma gravata bem posta. Por essas e outras Ahmadinejad não está com nada.

Mas ante o derretimento que acomete a calota de cada cérebro que saia às ruas, o que é ser elegante? Não fosse o Rio uma cidade chegada, com motivos de sobra, ao hedonismo, viva a pouca roupa. Há perigo de desidratar inclusive a caminho da padaria ou da farmácia. Ou da praia em dia útil, claro. Hehehe, paulistada.
Enquanto São Paulo amarga uma inacreditável quarentena de chuva, o carioca vive dias e mais dias de um calor à procura de um adjetivo. Na previsão do tempo, em contraste com os raios e nuvens cinzas de capitais ao Sul, o sol brilha eterno no quadradinho do Rio. As moças do tempo anunciam mais um dia com altas temperaturas e não adianta mudar de canal.

Na contramão da razão, tantas havaianas, bermudas, shorts, vestidinhos, vestidões, regatas, chinelões começam a cansar a retina de quem preza um mínimo de estética. Por efeito da miragem que faz o asfalto e a areia ferver, parece que muito tempo se passou desde que um casaquinho ou um suéter saltaram da gaveta. Se é que saltaram.

É por causa desse e de outros calores, muito mais amenos, que os cariocas são alvo de deboche e brincadeiras de quem vive em terras mais altas. No Rio, o povo adora ficar semi-nu. Mas, a qualquer oscilação para baixo do termômetro, ama usar bota, cachecol, boné. E se der uma subidinha até Petrópolis leva cachecol, luvas, polainas, meias grossas, japonas, anoraques e casaco de couro. Eh, delícia. Só faltam uma prancha de snowboard ou esquis.

Muitos e muitos anos atrás, desde os tempos da Rainha Vitória, britânicos inventaram, nas Bermudas, abermuda shorts, calça curta semi-casual que cabe bem com um bleiser e até com um dinner jacket em festas oficiais nos trópicos. A polícia local e a das outras ilhas também vestem – o que poderia ser adotado pela Guarda Municipal e PMs da orla carioca. Nada ver com bermuda de surfista.

Entre nós, há 50 anos, o então presidente Janio Quadros, anglófilo de carteirinha, tentou instituir a moda safari, que seria uma variação da bermuda shorts, com calça comprida, para uso nas repartições públicas, no verão. Ele mesmo passou a usar o tal safari, mas, como certas leis em Botocúndia, a coisa não pegou.

Novo Dia do Fico - "Como é para o bem do Fla e felicidade geral da nação rubro-negra, estou pronto: digam à galera que fico." (Dom Pet I e Único)