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Império de fantasia

por Socrates — publicado 07/03/2008 15h58, última modificação 21/09/2010 16h19
Adriano, depois de várias temporadas no futebol italiano, retorna ao Brasil

Adriano, depois de várias temporadas no futebol italiano, retorna ao Brasil
Há menos de dois meses, comentei nesta coluna a volta do jogador Adriano ao Brasil, depois de várias temporadas no futebol italiano, e vislumbrava as dificuldades que ele teria e como deveria enfrentar a nova realidade.

Quando vamos a um restaurante, gostamos de ser atendidos com atenção particular, ter sempre um garçom a se preocupar com o nosso bem-estar, apreciar um bom prato e um vinho de safra nobre. Mas temos consciência que estes são eventos especiais e não nos tornamos dependentes deles. Se isso não for verdade, estaremos em maus lençóis. Todos nós conhecemos algumas figuras que não vivem se não estiverem fazendo parte das fofocas semanais e se não forem convidadas para festas de fachada e fotos de revistas. A própria disseminação destes programas de televisão, cujo único motivo é ficar bisbilhotando a vida dos outros, é um bom parâmetro da realidade atual. Participar deles passou a ser o sonho para muita gente. Atrás da fama, de novas oportunidades, da grana em jogo ou de qualquer outro motivo. É o símbolo atual. O problema é o que vem depois, quando tudo acaba; quando dá meia-noite e a Cinderela se vê descalça e maltrapilha. Ao contrário do conto, no entanto, geralmente a coisa termina mal. Muito mal, aliás, com raríssimas exceções à regra. No futebol, por culpa da notoriedade natural do meio, as condições são ainda mais perversas para quem não sabe digerir centenas de estímulos diários que nos tentam até o extremo de nossas capacidades. Quase tudo dependente do paternalismo endêmico que assola esta estrutura. Parecido com o dos políticos, que já nem sabem bem como fazer uma reserva aérea ou uma compra banal, pois há sempre alguém que faz por eles.
Pois é, bastou muito pouco tempo para os atritos se manifestarem. Em uma das viagens do clube, ele decidiu não utilizar a camisa oficial da delegação, o que provocou muita confusão. Particularmente, acho uma grande bobagem esta coisa de todos usarem a mesma vestimenta quando em grupo. Ainda que possa compreender a importância dos espaços cedidos aos patrocinadores da instituição, mas achar que com isso estaremos igualando as personalidades – que no fundo é o objetivo final – é demasiado ingênuo para o meu gosto. Cada um tem uma forma de se relacionar com o mundo e o que vestimos normalmente define bem quem nós somos.

Imagine jogar uma final de campeonato ou uma partida de Copa do Mundo e logo depois enfrentar um torneio vagabundo, num campo horrível e sem público. Não é fácil manter o profissionalismo nessas condições, mesmo que tantos insistam em dizer que é igual a qualquer outro, este é o pior jogo para se jogar. Não dá a mínima vontade de participar. E é este o grande desafio a ser enfrentado pelo atacante Adriano, recém-chegado ao São Paulo. Depois de ter sido o grande artífice da conquista da penúltima Copa América pela seleção brasileira, de ter disputado o último mundial como titular e de ter sido por anos um dos principais atletas de um dos maiores clubes da Itália, ele volta a jogar no Brasil. Ele que jogou muitos clássicos em um dos palcos mais cobiçados do planeta, agora terá de enfrentar longas viagens de ônibus, gramados nem sempre bem cuidados, zagueiros muito mais violentos e eventualmente até estádios parcialmente vazios. Isto sem falar das limitadas capacidades de alguns dos seus companheiros de clube.

Não sei como enfrentará essa nova condição, que nem de longe se aproxima daquilo que ele usufruía em Milão. Será necessário um grande esforço para recomeçar a carreira abalada por vários motivos, o que não é tão simples mesmo para os indivíduos bem preparados. Torço para que ele se reencontre, pois é um jovem de talento dentro da realidade do futebol atual. E será um desperdício caso não saiba encarar o desafio e retomar o seu destino, porém, terá de ser modesto e simples se quiser vencer esta batalha.

De qualquer forma, a sua atitude foi interpretada como insubordinação, o que gerou muita polêmica que poderia ter sido facilmente contornada se o jogador se manifestasse de forma clara e segura. Não foi o que aconteceu e tudo se agravou. Em sua primeira colocação após o episódio, percebemos alguém acuado e assustado com a própria incapacidade de administrar a repercussão dos seus atos. E, pior, demonstrou arrogância ao exigir que o chamassem novamente de “Imperador”, ainda que todos já saibam que este império de fantasia ruiu há muito tempo.